Tudo, menos o amor

Sexta-feira, o casal assiste à televisão quando uma notícia extraordinária em rede nacional alerta ao mundo: em dois dias um meteoro cairá e destruirá o planeta Terra.
O choque, o horror. E em minutos ouvem-se gritos, choros, lamúrias e desespero na rua.
Prevendo o caos, resolvem ficar dentro de casa para passarem seus últimos momentos juntos. Acreditam que da vida se levam apenas o conhecimento e as experiências vividas. Vão tentar guardar na memória, nos últimos momentos, um pouquinho da cultura humana.
Na própria sexta-feira, ouvem música. Grandes clássicos. Sinatra, Roberto e Erasmo, Paul e John. Para surpresa deles, um casal sempre se renova ao descobrir pequenas coisas um do outro, são fãs da guitarra de Clapton. Terminam a noite dançando na sala ao som de um bom sertanejo.
Adormecem abraçados.
De manhã, ele dormiu mal, teve pesadelos. Tenta acessar a internet, mas não há nenhum sinal. Liga o rádio e escuta notícias terríveis: um louco atropelou e matou doze pessoas em uma procissão religiosa, outro assassinou a família e se matou, um estuprou duas mulheres e suicídios em massa. Desliga o rádio e promete não mais ligá-lo.
Ela dormiu bem. Nem parece que o mundo acabará. Prepara um café da manhã simples, mas especial, para os dois. Torradas, iogurte, mel e um bom café para ele e chá para ela.
Ligam a TV, nenhum programa ao vivo, somente filmes antigos, reprises e alguns canais fora do ar.
Acham a transmissão de “Cantando na Chuva”, logo na cena clássica de Gene Kelly. Após, assistem a “Os Intocáveis”, de Brian de Palma, e durante a cena da escadaria ficaram de mãos dadas torcendo para que nada acontecesse com o bebê.
Fazem o almoço juntos. Sorriem e conversam, avessos às lamúrias das ruas.
Leem alguns versos, versículos e textos de grandes escritores. Saramago, Dostoiévski, Machado de Assis e a Bíblia.
Anoitece no sábado, após um jantar leve, eles se amam. Depois, têm uma conversa religiosa-filosófica-científica sobre a vida, nada muito profundo. Como tudo pode ser tão perfeito no mundo, a começar pelo corpo humano. Chegaram à conclusão lógica, de nada valia pensar sobre a vida, bastava vivê-la.
No fundo, ainda creem que Deus colocaria a mão e desviará aquela pedra gigante para longe da Terra.
Amam-se novamente e dormem exaustos.
Passam o domingo namorando e conversando. Fazem coisas gostosas para o almoço e o café da tarde.
Tomam um banho juntos. Vestem a melhor roupa. Ele de sapato e cinto marrom, calça jeans escura, camisa bege e um blazer preto. Ela, de vestido azul marinho, bem justinho, maquiou-se.
Quando ele a vê, tem certeza de que aquela beleza é inigualável. Era, é e sempre será a mulher da sua vida.
Ela, quando o viu, sorriu. Se aproxima e retira a etiqueta do blazer. É novo.
Faltam 20 minutos para o impacto.
Saem da casa e vão para o meio da rua. Deserta. Postes com as luzes apagadas. Olham para o céu.
As luzes da cidade nos privam de imagens soberanas, como as estrelas em uma noite escura.
Abraçam-se olhando para o horizonte.
Uma luz de fogo surge no céu, um estrondo. Ela o abraça e coloca o rosto contra seu peito.
Ele olha o horizonte e disse:
_ É lindo! Você precisa ver essas cores.
Ela olha e era realmente lindo o brilho que surgia.
Eles se encaram e ele enxuga uma lágrima que cai dos olhos dela:
_ Não tenha medo, nós não estamos sozinhos, temos um ao outro.
Ao mesmo tempo, eles dizem:
_ Eu te amo!
E é nesse momento que tudo se acaba.
Tudo, menos o amor.








