O homem certo
Sou de Ibiraci, pertinho de Franca, e, quando criança, eu era fascinado por campanhas eleitorais. Aqueles homens probos disputando um cargo público para melhorar as condições da cidade e a vida da população.
As campanhas eram feitas basicamente no tête-à-tête, santinhos, camisetas, bonés e comícios em cima de caminhões com duplas sertanejas improvisadas para chamar a atenção do eleitorado.
Por ser uma cidade pequena, os candidatos da cidade não apareciam na televisão.
Com chiados, ‘fantasmas’ e esponja de aço na antena, assistíamos à horário eleitoral gratuito com candidatos de Franca.
Naquele tempo romântico e cheio de saudosismo, com poucas opções, enquanto esperava a novela das 8, era possível se entreter com a propaganda eleitoral. Foi lá que conheci Roberto, o homem certo, cujo jingle, se as brumas da memória não me impediram de enxergar, a letra era assim:
“Roberto é o homem certo,
Roberto, Roberto, Roberto.
O que passou, passou,
Agora é hora de mudar.
Roberto está chegando
E ninguém pode parar”.
Eu imaginava o Roberto à frente, rodeado de crianças, incluindo eu, cantando o jingle rumo ao futuro promissor do país. À tarde eu assistia ao programa infantil do Sérgio Mallandro, à noite eu acompanhava ansioso o momento de Roberto, o homem certo, deixar seu recado. Eu era fã dos dois.
Certa vez, vim com meu pai a Franca e, lá no Calçadão do Centro, vi de longe Roberto, o homem certo. Ele foi a primeira pessoa da televisão que vi pessoalmente. Minha sensação era como ver o Antônio Fagundes ou o Lima Duarte ao vivo, o homem era um ídolo. Ansioso, torci como nunca para Roberto. Ele tinha de vencer aquelas eleições, ele era o homem certo para Franca.
Apesar de liderar as pesquisas eleitorais durante toda campanha, na última semana soltaram uma bomba contra Roberto. De início, eu fiquei revoltado com o golpe baixo, mas no final vi que fazia sentido.
Se Roberto vencesse teria de entregar o mandato de deputado estadual, que seria assumido por alguém de Catanduva. Franca ficaria sem representante na Assembleia Legislativa do estado de São Paulo.
Foi fatal! Era o fim! Roberto perdeu a eleição. Roberto não era o homem certo.
Roberto continuou como deputado estadual, talvez ele tenha achado seu lugar certo. Eu, a criança cheia de esperança no futuro, me tornei o homem desesperançoso do passado.
E para terminar, uma curiosidade. Naquela época, fiquei sabendo que uma menina me achava bonito e acabei topando conversar. De frente com ela, tímido e sem assunto, resolvi sacar uma frase feita de meu ídolo. Mas, no nervosismo da hora, cometi um erro imperdoável. Em vez de dizer que eu era o “homem certo” tal qual Roberto, escolhi a frase do meu ídolo errado e disse “vem meu amor, vem fazer glu-glu, mon amour”.








