Tempos

“Os tempos mudaram”, querendo dizer que algo vivemos, e hoje não mais. Algo tivemos, e não temos mais.
O que mudou?
– fomos mudados.
O que é bom, já que tudo muda mesmo. Nossos cabelos, pele, articulações, tamanho e safadeza. Tudo muda, tudo passa, como as nuvens no céu.
Se aprendemos com a mudança, é que é. Ou não é.
Não é culpa do tempo, mas de quem o usa. Se aprendemos, o tempo se transforma em experiência, memória, em extrato vivo encarnado – sangue, sentimento, espiritualidade. O tempo consiste – materializado em rugas, substância, singularidade, história.
Mas se digo “os tempos” – que mudam lá fora – o tempo volatiliza, e desaparece. O tempo marca, sim, indiferente à inconsciência da sua passagem, tatuado no corpo. Materializado em cicatrizes.
E na alma? se nada apreendi, se nada se transformou na sua passagem, como o tempo tatua a alma?
Ando desconfiando que amarga o rastro de um “nada”, como uma roupa esquecida no armário que, cheia de traças e mofo, se decompõe.
Agarre o tempo: aprenda, a alma eternizará.






