Variedades

Memórias

Enganam-se os que pensam que apenas os casamentos, quando desfeitos, acabam em partilha de bens. Os namoros, uma vez terminados, também resultam em partilhas.

A mim, sempre coube ficar com a memória de tudo; elas ficaram com a liberdade. E eu, na condição de possuidor universal das coisas vividas com elas, caminho por Curitiba, tantas vezes mudada ao longo dos anos, com o meu coração cheio de saudade.

E porque depois das partilhas as histórias passaram a ser minhas, e somente minhas, concedo-me o direito de recordar apenas o que foi bom, porque o tempo faz isso mesmo com as histórias, passando a limpo, reescrevendo, permitindo até que a gente ria de algo que um dia nos feriu.

Andando pela cidade, paro diante de uma construção – que hoje é igreja, mas que já foi cinema – onde no distante agosto de 1995 fui com a então namorada assistir ao filme “Don Juan de Marco”, sabendo que nosso amor era ainda mais quente do que aquele da telona, como costuma acontecer com os amores quando se tem 20 anos de idade.

Depois da sessão, fomos ao barzinho preferido dela, lá na Praça do Gaúcho, comer bolinho de siri e tomar a cerveja Original mais gelada que se poderia tomar, apesar do frio que fazia em Curitiba naquele agosto.

O cinema e o barzinho não existem mais, salvo na minha lembrança, que é a parte que sempre coube a mim depois das separações. Elas ficaram com a liberdade.

Mas se enganam os que pensam serem tristes as lembranças que vivem em mim. São elas que abrem o meu sorriso largo quando caminho por Curitiba e paro ora diante de uma igreja que já foi cinema, ora diante de uma farmácia que já foi barzinho.

As pessoas em volta devem achar que eu sou maluco e seria inútil explicar que sou apenas um homem comum, desses que carregam no coração memórias vivas – e lindas – de tantos amores que não morrerão jamais.

Rafael Fonseca Lemos

49 anos, é Advogado em Curitiba-PR

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