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Entenda a Doença Ocular da Tireoide, condição autoimune que afeta a visão

Consulta dos olhos (Foto: Pexels)

A Doença Ocular da Tireoide (DOT) é uma enfermidade rara e autoimune que pode acarretar sérias repercussões a longo prazo, incluindo desfiguramento facial, estrabismo, neuropatia óptica e até a perda definitiva da visão. Assim como em outras doenças raras — grupo que reúne ao menos 5 mil patologias com incidência de até 65 casos a cada 100 mil indivíduos —, os pacientes frequentemente enfrentam atrasos significativos na obtenção de diagnóstico e início do tratamento.

Segundo o endocrinologista Cléo Otaviano Mesa Junior, professor de medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e responsável técnico pelo serviço de endocrinologia do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), há uma base biológica compartilhada entre as manifestações na tireoide e nos olhos, embora as abordagens terapêuticas divirjam.

“Ocorre um desequilíbrio no sistema imunológico e a pessoa começa a fabricar um anticorpo, o TRAb (Anticorpo Antirreceptor de TSH), que afeta uma proteína que existe na tireoide, provocando uma produção excessiva de hormônio que se traduz no hipertireoidismo. A questão é que os receptores que existem na tireoide também estão presentes nos tecidos, gordura e músculos que ficam atrás dos olhos. Quando o TRAb se liga a eles nessa região ocular, desencadeia um processo inflamatório que causa os sintomas da DOT, como olhos saltados (proptose) e inchaço”, explica o médico ao G1.

A dinâmica clínica da enfermidade apresenta particularidades: nem todo indivíduo com disfunção tireoidiana desenvolverá a DOT, e há casos em que o paciente manifesta exclusivamente a alteração ocular, sem registrar hipo ou hipertireoidismo. Na maior parte das vezes, pessoas com problemas na tireoide não chegam a apresentar o quadro ocular grave.

O leque de sintomas clínicos inclui projeção dos olhos para fora, retração palpebral, impossibilidade de fechar completamente os olhos, inchaço, vermelhidão, sensação de areia, fotofobia, lacrimejamento em excesso, além de visão embaçada e visão dupla (diplopia).

Os impactos estéticos e funcionais repercutem diretamente na saúde mental dos pacientes: 63% relatam sofrer impacto psicossocial em decorrência da alteração na aparência, 52% apresentam queda na autoconfiança e 45% passam a conviver com estresse e ansiedade. “Afeta demais a vida do paciente: não apenas a visão prejudicada que interfere nas atividades profissionais e do dia a dia, mas também a questão estética, de como as pessoas o reconhecem”, pontua Mesa Junior.

Em termos de incidência global, as mulheres são as mais acometidas, com taxa de 16 ocorrências a cada 100 mil mulheres, contra 2,9 casos por 100 mil homens. Contudo, a evolução do quadro tende a atingir maior gravidade entre a população masculina e idosa.

O curso da doença divide-se em fases. A etapa ativa — considerada a janela de oportunidade para contenção clínica — costuma durar de seis meses a dois anos. Após esse período, os sintomas diminuem, mas as sequelas persistem, configurando a fase crônica. “O tratamento é agressivo e difícil”, afirma o especialista. Enquanto na fase ativa são utilizados determinados medicamentos, na crônica o foco recai sobre intervenções corretivas, como cirurgias de descompressão da órbita, reposicionamento palpebral e correção do estrabismo.

O acompanhamento requer atuação conjunta entre o endocrinologista e um oftalmologista especializado em órbita e estrabismo. Fatores como estresse emocional, traumas físicos (a exemplo de cirurgias) e certos fármacos podem servir de gatilho para reativações.

A conscientização acerca da patologia é tema de uma iniciativa desenvolvida pela Vozes do Advocacy, federação composta por 25 entidades ligadas ao diabetes. A organização lançou um minidocumentário com relatos de pacientes — como Patricia Gasques — para dar visibilidade aos desafios do diagnóstico tardio e aos prejuízos físicos e emocionais provocados pela doença.

Notícias de Franca

É jornalista e editor da Folha de Franca

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