Inteligência artificial concentra poder e explora o trabalhador, diz Karen Hao
AS EMPRESAS de inteligência artificial se comportam como impérios. Concentram uma quantidade extraordinária de poder econômico e político, usam uma quantidade massiva de recursos naturais e exploram trabalhadores — sem permitir que populações afetadas falem a respeito.
É o que diz a jornalista norte-americana Karen Hao, autora do livro O Império da IA – Por dentro da corrida irresponsável pela dominação total, que acaba de ser lançado no Brasil pela editora Rocco.
Hao é especializada em empresas de tecnologia. Trabalhou no “The Wall Street Journal” e no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), onde também estudou e conheceu alguns dos responsáveis pelas principais empresas de IA do planeta.
No livro, ela investiga o crescimento e a disseminação dessa tecnologia, além da ascensão da OpenAI, responsável pelo ChatGPT, com base em centenas de entrevistas e documentos. Ela compara também a atuação dessas empresas com as nações colonialistas no passado. “O trabalho usado para produzir IA é profundamente exploratório”, defende.
A jornalista conversou com a Repórter Brasil durante o Esquenta da Abraji, evento realizado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo em São Paulo, no final de junho.
Hao falou sobre os impactos da tecnologia sobre os trabalhadores e sobre a atual política do governo brasileiro, que pretende posicionar o país como um polo mundial de data centers. Fundamentais para o funcionamento das IAs generativas, essas infraestruturas gigantes de armazenamento de dados consomem grandes quantidades de água e energia e vêm sendo questionadas pelas populações dos locais onde são instaladas.
Repórter Brasil – O livro coloca as empresas de IA como impérios com atuação similar à época do colonialismo. Como essa ideia de “império da IA” está impactando a força de trabalho, em especial os trabalhadores do sul global?
Karen Hao – Isso impacta a força de trabalho de duas formas. Uma é que o trabalho usado para produzir IA é profundamente exploratório. A forma como as empresas de IA tratam os próprios trabalhadores, que são essenciais para a indústria, ajuda a entender o quanto o “império” desvaloriza o trabalho. Por outro lado, temos o que sai da implementação dessas tecnologias, que já são construídas em cima dessa desvalorização do trabalho. Isso leva a um monte de automação e erosão de direitos trabalhistas em muitos setores diferentes, especialmente entre os trabalhadores do conhecimento.
E a combinação desses dois impactos está começando a gerar um ciclo vicioso, em que trabalhadores do conhecimento perdem cada vez mais oportunidades de emprego de tempo integral, bem remunerado, com boas condições econômicas, e acabam sendo forçados a buscar renda se tornando anotadores de dados, ou seja, passam a fazer parte da força de trabalho que serve à própria indústria de IA.
Recentemente entrevistei o Daron Acemoglu, professor do MIT que ganhou o Nobel de Economia, e ele dizia que, seguindo essa trajetória, esse ciclo vicioso poderia nos levar a um mundo em que a indústria de IA não só substitui a maior parte do trabalho economicamente valioso, mas também se torna a empregadora da maioria dos trabalhadores — e, com isso, monopoliza o setor e não precisa mais respeitar padrões de direitos trabalhistas para trabalhadores ao redor do mundo.
Aqui no Brasil, o governo planeja tornar o país um grande polo de data centers, defendendo que este seria um projeto estratégico e uma forma de garantir a soberania nacional. Qual é o impacto dessas infraestruturas? Elas realmente são um bom negócio?
Acho muito interessante que o governo brasileiro, assim como muitos governos ao redor do mundo, de certa forma compre a narrativa que o Vale do Silício está projetando de que data centers representam algum tipo de oportunidade econômica ou de participação nessa visão de progresso que eles têm. Mas as comunidades [afetadas por esses projetos] enxergam o que está realmente acontecendo com muito mais clareza.
Há várias comunidades no Brasil começando a protestar contra esses data centers. E eu me preocupo que essas instalações tragam os mesmos impactos que vimos nos Estados Unidos, que atualmente ainda concentra a maior fatia de data centers do mundo. Eles devem aumentar a crise de acessibilidade, encarecendo as contas de serviços públicos. Vão consumir os recursos de água doce e de terra das comunidades sem oferecer nenhum tipo de benefício em troca. E vão tornar essas comunidades economicamente dependentes das receitas geradas pelos data centers. Mas isso ao custo, literalmente, da saúde pública, da saúde ambiental e da autodeterminação delas.
E, como já vimos em investigações feitas pela Repórter Brasil, uma grande quantidade de pessoas é envolvida na construção desses data centers, mas poucos trabalhadores de fato trabalham neles uma vez que essas infraestruturas estão em funcionamento.
É, exatamente isso. Não gera empregos numa proporção equivalente à quantidade de recursos utilizados. E outra coisa importante de reconhecer é que a indústria de IA está desenvolvendo seus modelos atualmente com base nessas infraestruturas computacionais enormes, mas tecnicamente não é necessário usar data centers tão grandes para construir essa tecnologia. Existem todos esses modelos de código aberto saindo da China agora que já demonstraram que é possível desenvolver as mesmas tecnologias gastando muito menos. Então, o que vai acontecer quando a bolha estourar e todos esses data centers que foram construídos não forem mais úteis? O que acontece com as comunidades que ainda vão ter que hospedar essa infraestrutura física e nem sequer vão receber os repasses dessas empresas por hospedá-las, porque elas terão sido abandonadas?
Seria possível construir uma IA crítica, que levasse em consideração estas questões?
É absolutamente possível desenvolver uma IA responsável e ética, mas não é possível usar de forma responsável ou ética as tecnologias de IA que vêm desses impérios, no longo prazo.
O que precisaríamos fazer é separar completamente a IA do império — primeiro, tendo modelos de código aberto, porque, do contrário, toda vez que você usa a ferramenta, você está devolvendo dados que perpetuam a expansão desses impérios.
Segundo, precisaríamos reduzir seriamente o consumo de recursos usados para criar grandes modelos de linguagem. E também precisaríamos direcionar muito mais investimento para modelos mais especializados, que não têm nada a ver com essas ferramentas generalistas de chatbot em larga escala.
Isso já foi feito antes em outras indústrias. Foi feito na indústria da moda, onde havia uma quantidade enorme de dano ambiental e exploração do trabalho. Ninguém nunca disse “ok, então não vamos mais usar roupas”. A conclusão foi: precisamos descobrir como criar e fabricar roupas de forma sustentável, que realmente remunere os trabalhadores dentro dessas indústrias.
Então vamos criar cadeias de suprimento melhores para apoiar o desenvolvimento ético de IA, e depois educar o público sobre como pode votar com os pés no chão como consumidores e cidadãos, contestando as estruturas de poder que hoje perpetuam os impérios.
25 anos investigando para mudar.
A Repórter Brasil já ajudou a impulsionar leis, fortalecer direitos e combater o trabalho escravo.
Em 2026, fazemos 25 anos — e vem muito mais por aí!
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