Franca e eu: idas e vindas (mineira de Franca)

Por Lucinda Gomes
Nasci em Franca, mas meu umbigo caiu em Minas Gerais. Por isso, sou oficialmente uma mineira de Franca, como tantos outros que compartilham essa curiosa dualidade.
Minhas idas e vindas foram várias. Apesar dessas andanças, minha ligação com Franca é sólida, repleta de memórias que guardo com carinho.
Da primeira infância, lembro-me dos passeios de domingo, embalados pela música da banda no coreto da Praça Matriz. Do clássico programa do Verzola, com a Valsa das Flores, que minha mãe ouvia no rádio enquanto costurava. Dos cheiros e sabores do mercadão municipal, nos fundos da antiga rodoviária central, que ainda estão vivos na minha memória.
Na rua Álvaro Abranches, havia minha amiga e vizinha, hoje uma grande empresária. Passávamos de uma casa para a outra por entre o muro improvisado que dividia nossos quintais. Como era bom! Pequenas aventuras que só a infância oferece.
Houve um período em que fiquei anos seguidos em Minas. Retornei a Franca já moça feita, iniciei minha trajetória no varejo e desta fase vem a lembrança dos bailes na A.E.C., os cinemas do centro da cidade, os restaurantes da Praça Barão. Logo casei-me, e tive meus dois filhos, os amores da minha vida.
Infelizmente, o casamento não prosperou, e, aproveitando oportunidades e na missão de criar meus filhos, as mudanças voltaram a fazer parte da minha trajetória. Passei por outras cidades, entre Minas Gerais e a capital paulista, até que, quase 18 anos depois, regressei com a aposentadoria. Desta vez, acredito que seja definitivo, afinal, Franca continua sendo meu lugar, minha origem, minha raiz.
Enquanto isso, a cidade cresceu bastante e cresceu bem. Aqui se encontra praticamente tudo que o mundo moderno oferece, mas preserva aquele “jeitinho de interior”. Apesar de ser uma cidade grande, basta sair à rua para cruzar com conhecidos e estabelecer uma boa conversa.
E olhando para o futuro vejo grandes possiblidades para nossa Franca, que deve seguir avançando e se modernizando. Por exemplo, nunca elegemos uma mulher para o executivo municipal, e a representação feminina no legislativo é bastante reduzida. Espero que possamos continuar evoluindo, pois experiências ao redor do mundo mostram os benefícios da maior participação das mulheres na política, na economia e na sociedade. Nossa cidade merece o melhor, hoje e pelos próximos 200 anos.
E quando muitos pensam em parar, eu me vi recomeçando. Decidi realizar um antigo sonho e conclui o curso de Direito. Era um projeto de vida que se tornou possível. Mais do que isso, para mim é uma forma de viabilizar meu propósito. Quero seguir questionando o sistema e contribuindo para uma sociedade mais justa, com menos desigualdades. Emprestar minha voz e minha fala para aqueles que não tiveram oportunidade na vida, defendendo seus direitos e buscando justiça.
Seja em Franca ou em qualquer lugar, é essa missão que me move.
Lucinda Rosa Gomes é aposentada após 34 anos de comércio varejista, advogada formada pela Faculdade de Direito de Franca, voluntária social do Grupo Mulheres do Brasil, conselheira do Conselho Municipal da Condição Feminina (gestão 2025/2027)
Esse texto faz parte da série "O que elas têm a dizer", idealizado pela colaboradora Soraia Veloso, em que escritoras de Franca homenageiam a cidade pelos 200 anos, comemorados no dia 28 de novembro de 2024. Publicamos um texto por dia ao longo de mais de 50 dias, escritos por mulheres.






