Opiniões

Um Passeio por Minas Gerais

Pela manhã, não muito cedo, saímos de Franca em direção a Belo Horizonte, eu e minha filha. Ela para participar de uma prova de concurso público, eu para visitar um filho na capital mineira. Mal andamos cem quilômetros paramos na beira da estrada para colher cagaitas, frutos nativos do cerrado, de algumas árvores de Eugenia dysenterica, (o seu nome científico) que ainda resistem nos barrancos da rodovia MG-050.

Uma raridade, um lanche natural como nas viagens de outrora. Sem exageros, porque os nomes da fruta e da árvore dizem muito sobre os riscos do consumo abusivo. Além de deliciosa, a cagaita possui valores nutricionais importantes, mas, infelizmente está fadada à extinção, porque os cerrados, todos sabemos, constituem a nova fronteirar agrícola do País.

Um pouco mais adiante, já nas margens da represa de Furnas, paramos novamente para o almoço na presença de saguis de tufo preto, que nos espreitavam desde os galhos das mangueiras preservadas no pátio do estabelecimento. Soubemos que os pequenos primatas, antes abundantes por toda parte, estão ameaçados de extinção. Em Minas Gerais, da rodovia é possível constatar que as florestas estão recuando a olhos vistos. Enquanto almoçávamos, assistimos a um funcionário alimentando os macaquinhos que, curiosamente se mantinham à distância dos clientes, enquanto pacientemente aguardavam a hora da refeição estirados nos galhos próximos. Esse sinal de interação entre nossa espécie e nossos primos é um alívio, um sinal de que há esperanças de reviravolta.

Um pouco mais adiante a última parada, para um pequeno descanso e um café num estabelecimento cuja especialidade é produtos à base de milho. Foi aí que notamos que o automóvel perdera um pouco de potência. Mas, como estávamos no último terço da viagem, prosseguimos com cuidado. Nesse local há um viveiro de plantas nativas com várias espécies do cerrado. Soubemos que a empresa investe na área ambiental, oferecendo produtos e serviços especializados em reflorestamento. Um outro alento, nesses tempos sombrios em que desflorestar e ridicularizar a proteção do meio ambiente se tornou objetivo institucional no Brasil.

O compromisso e a visita transcorreram otimamente. A boa comida, a prosa melhor ainda com os amigos e parentes, a sempre presente cordialidade mineira. Chamou a atenção a normalidade com que transcorreu a visita de um dos candidatos à presidência da república à cidade no domingo. Essa também uma outra característica marcante de Minas Gerais: o senso político. Um ato político sem algazarra ou violência. Não é à toa que dizem que quem ganha em Minas Gerais, ganha as eleições no Brasil. Talvez seja por isso que os candidatos que vão disputar o segundo turno nas eleições atuais estão priorizando o Estado Mineiro.

Mas havia o problema com o nosso carro. O meu filho agendou para segunda-feira o atendimento numa oficina mecânica conhecida. Naturalmente ficamos preocupados, por duas razões: somos de fora da cidade e o atendimento seria de emergência. Enfim, poderíamos ser explorados. Na oficina, uma senhora sorridente nos informou que o diagnóstico sairia em até quatro horas. Deixamos o automóvel e fomos tomar um café. Voltamos uma hora depois e nos surpreendemos com o veículo estacionado no lugar em que ficam aqueles consertados.

Outra senhora nos disse que não havia defeito. Que o problema de funcionamento decorria de uma mangueira fora de lugar! Pagamos pelo diagnóstico apenas. E constatamos que a oficina é dirigida só por mulheres, com extrema simpatia e presteza. E retomamos o caminho de volta. Talvez seja por consentido bairrismo – e peço sinceras desculpas por isso – mas desconfio que em Minas Gerais há algumas coisas que não encontramos noutros lugares. Enfim, fizemos uma viagem inesquecível!

Dr. José Borges

Advogado (Formado em Direito pela Faculdade de Direito de Franca); especialista em Direito Civil e Direito Processual Civil e em Direito Ambiental. Foi Procurador do Estado de São Paulo de 1989 a 2016 e Secretário de Negócios Jurídicos do Município de Franca. É membro da Academia Francana de Letras.

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