Opiniões

Suspensa compra de arroz na quitanda, sorveteria e locadora de carros

Aos 44 minutos do segundo tempo – como se diz no futebol quando falta só um minuto para terminar o jogo – o governo livrou-se da CPI do Arroz, cuja instalação era articulada pot parlamentares gaúchos e já contava com mais de cem das 171 assinaturas para sua proposição na Câmara dos Deputados. Logo pela manhã desta terça-feira (11), o governo suspendeu o leilão de compra do cereal e justificou estar tomando essa providência por não ter garantias de que as empresas classificadas para o fornecimento teriam condições de honrar o compromisso. O certame realizado no dia 06 havia escolhido como fornecedores empresas estranhas ao setor de cereais, como uma loja de queijos, um comércio de frutas, uma fábrica de sorvetes e até uma locadora de veículos. Espera-se que também se apure possíveis irregularidades nessa transação e a população seja devidamente informada.

Desde que, ainda durante a catástrofe climática do Rio Grande do Sul, o governo anunciou o propósito de importar arroz para garantir o abastecimento nacional – já que o estado sulino é responsável por 70% do produto servido aos brasileiros – os produtores gaúchos advertiram que não há necessidade porque quando as cheias começaram já haviam colhido entre 70 e 80% da safra arrozeira gaúcha e a única dificuldade para a mercadoria chegar ao consumidor estava nas estradas interditadas. Quando foi confirmada a importação, os produtores sentiram-se prejudicados e até especularam a possibilidade de o arroz vindo do exterior prejudicar a colocação do nacional. Esse descontentamento, somado à classificação de fornecedores estranhos ao setor levou os parlamentares a articularem a Comissão Parlamentar de Inquérito.

A disposição do governo de importar produtos que possam faltar para o abastecimento da população é legítima. Mas deve ser algo efetivamente comprovado pois se a mercadoria chegar do exterior e provocar encalhe no produto nacional, em vez de ajudar, estará trazendo problemas à economia nacional. No caso em tela, ainda havia a agravante dos potenciais fornecedores não terem relação com o meio cerealista.

O quadro criado oferece mais uma oportunidade para o governo, através dos seus órgãos, confirmar a efetiva necessidade de buscar o arroz no mercado externo. Seria interessante que, além das verificações, também se mantivesse entendimentos com os produtores para evitar ressentimentos e protestos. Nada é mais poderoso do que a verdade. Se houver a possibilidade de desabastecimento inicialmente prevista, há que se buscar o cereal onde estiver disponível e colocá-lo à disposição da população consumidora. E, por outro lado, caso se confirme não haver o risco, bastará reconhecer que os produtores tinha razão e abortar definitivamente a operação.

O governo, pelos seus órgãos, tem o dever de garantir a disponibilidade de gêneros alimentícios para a população. O arroz, todos sabemos, é um dos principais componentes do cardápio brasileiro. A máquina pública, que tantos serviços presta para sustentar a produção, tem também a tarefa de proteger os produtores que investem tudo o que possuem na atividade. Trazer mercadorias de fora, só emergencialmente, quando comprovadamente não houver a nacional para colocar na mesa da população. A entrada de dinheiro público e sua participação no abastecimento pode trazer problemas aos produtores e isso é contrário a todos os bons princípios da produção e da economia.

Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves

É dirigente da Aspomil (Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo).

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