Opiniões

Safari francano – ‘Queuredo in curuiz’

Franca é uma cidade carente no turismo. Não é raro ouvir alguém falando sobre Shopping do Calçado, Fonte da Careta (que ninguém sabe se já existiu um dia) e Rifaina como pontos turísticos locais.

O desespero está tão grande que tem gente falando em Capitólio como ponto de visita para quem vem à cidade de Franca.

Um renomado empresário local, dos poucos que não perdeu dinheiro financiando acampamentos defronte aos quartéis, decidiu investir no setor e tentou uma experiência inovadora e inimaginável denominada ‘Safari Francano’.

Apresentar a rica fauna francana a turistas estrangeiros dispostos a gastar dólares, libras esterlinas, euros, yuans, ienes e pesos argentinos na nossa terra.


Inicialmente, foram chamadas 9 pessoas escolhidas a dedo por conhecerem lugares diversos e que poderiam dar um ‘feedback’ sobre a experiência.

Participaram um casal francês, um português de bigode, uma senhora americana que não tirava um charuto da boca, um argentino com a cara do Maradona, um italiano elegante usando terno Armani, um senhor inglês gordo e careca que falava um português com forte sotaque britânico, um chinês engraçado e um japonês calado.

O guia teve muita dificuldade de determinar qual era o japonês e o chinês, e não raro os chamava de coreanos, causando grande desconforto.

Na falta de ‘routmasters’ preparados para um ‘sightseeing’, os ônibus de dois andares sem capota de Londres, e para reduzir custos, foi alugada a ‘Carreta Furacão’, mas sem o Fofão, para o passeio turístico. Colocaram algumas almofadinhas nos bancos de madeira para melhor conforto dos estrangeiros.

O pioneiro safari dos destemidos turistas teve início próximo a um centro de treinamento de tiros, onde puderam ver espécimes exóticos, usando óculos escuros, calças apertadas e camisas polo. Os animais andavam em bando mugiam ‘mitou, mitou, mitôôôô’.

Um argentino quis alimentar um animal dócil que se aproximou do veículo, mas o guia o advertiu. Explicou que os ‘Cacs’, como são conhecidos, têm comportamento irracional, se informam por grupos de Whatsapp, são imprevisíveis, tendo explosões de raiva e podem causar ferimentos mortais na cabeça ou no peito.

O britânico, que entendia bem a nossa língua, mas falava com um português engraçado com sotaque carregadíssimo disse: “queuredo in curuiz”.

Depois de muitas fotos, o veículo com os turistas se dirigiu para a Avenida Eufrásia Monteiro Petráglia onde um grupo de criaturas exuberantes de topete vermelho andava por ali sem muito o que fazer. Alguns soltavam fumacinha pelos narizes.

O italiano comentou que por viverem próximos a uma universidade deviam ser extremamente inteligentes. O guia disse que elas apenas repetem falas prontas e decoradas, são como papagaios.

Ao se aproximarem do grupo exótico, os turistas puderam conferir que não eram penachos, mas sim bonés do MST feitos com strass.

Uma mulher do grupo tentou entrar em contato verbal com alguns bichos que se aproximaram curiosos: “I am american”.

Os bichos se assustaram e se pode ouvir o grito estridente: ‘americano não, estadunidense’, ‘ziáfediii, burguêziáfedii’.

E o britânico: “queuredo in curuiz”.

O passeio estava lento e um sem graça, os animais vistos até aquele momento estavam arredios.

Os turistas pediram um pouco de adrenalina, o que lhes foi proporcionado. O ‘Carreta Furacão’ entrou nas correntezas selvagens da Rua Francisco Marques e Avenida Abrahão Brickmann.

A americana, que é do Texas, viu um Voyage CL rebaixado de escapamento aberto e achou um veículo bem original.

Reanimados, os turistas foram conhecer um famoso supermercado localizado na Avenida Presidente Vargas. Dentro do local, no 16º corredor, na prateleira LCVII, sob o esqueleto de um Cruzado do século XI, havia uma carta escrita em latim. O italiano a traduziu:

“Rumo a Jerusalém

Em busca da Terra Santa

E seus tesouros,

Segui rastro ditoso

E me deparei com essa terra,

Cheia de sapatos e do capim mimoso”

Após lida a misteriosa carta, ouviu-se um eco entre os milhares de corredores do local: “queuredo in curuiz”.

Reagrupados, os turistas combinaram que o último ponto do safari seria a famosa e histórica Estação de Trem de Franca.

A “Estação”.

No local, parada no semáforo, a carreta teve seus vidros embaçados por um líquido estranho.

O destemido condutor desceu do veículo e enquanto limpava os vidros, o turista britânico de sotaque carregado foi abordado por um animal estranho, que lhe ofereceu a oportunidade de conhecer um craque francano.

Amante do futebol e ex-hooligan do West Ham United, o britânico, de início, recusou. Mas foi encorajado pelo argentino, ‘barra brava’ do Rosario Central, e ambos experimentaram o crack francano.

O saldo do safari foi o fracasso total. Um desastre que quase levou à falência o visionário empresário francano.

O casal francês foi agredido em frente a um banco. Disseram que os protestos em Paris são um clube de criança perto do que vivenciaram.

O português, sem perceber, ajudou num assalto a uma loja de peças. Foi detido e liberado depois da intervenção do consulado.

O charuto da americana foi usado para colocar fogo num barracão abandonado no centro da cidade.

Com sucesso, o chinês e o japonês estão vendendo produtos falsificados no Leporace e estão expandindo o negócio.

O italiano voltou ao famoso supermercado para ler os outros documentos deixados pelo Cruzado morto. Nunca mais foi visto naqueles misteriosos corredores.

O argentino, já acostumado com crack, são os atuais campeões do mundo, prometeu naturalizar argentino o crack francano. Voltou para casa, não sem antes pegar uma praia em Santa Catarina.

O britânico se perdeu na selva francana. Alguns dizem que o viram roubando fios elétricos, outros juraram tê-lo visto no Centro Pop. Outro dia dizem que foi ele que ameaçou um artista de rua em um semáforo. Outro tem certeza de que o viu comprando um corote com libras esterlinas numa corrida hípica em Claraval. E todos que o avistaram dizem ter ouvido a frase que marcou aquela fatídica excursão: “queuredo in curuiz”.

Michel Pinto Costa

É Oficial de Promotoria do Ministério Público do Estado de São Paulo, em Franca, e bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Franca.

2 Comentários

  1. Já temos um substituto (mais velho) para as crônicas de Luís Fernando Veríssimo com um leve toque de Nelson Rodrigues e uma pitada de Leo Lins hahahaha
    SENSACIONAL!

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