Opiniões

Recordar é viver! Será?

Por Nazir Bittar


Toda quinta-feira tenho a mesma sensação quando abro as redes sociais. Como estamos em plena pandemia (ainda!) sempre caio na pegadinha que eu mesmo me armo por não me lembrar de que quinta-feira é dia de se recordar de algum momento do passado. Quando falo da pegadinha é porque tem sempre um amigo da onça que coloca foto do churras na chácara ou aquela festa cheia de gente que dá suador só de olhar.. daí vem a minha indignação dizendo a mim mesmo ‘como pôde fulano fazer esse tipo de aglomeração nesse momento? Que inconsequente! Que isso! Que aquilo’ dai vem o Sérgio Mallandro interno que todos temos dizendo ‘ Ié ié! É uma pegadinha seu trouxa! é uma foto antiga’. Mas vamos dar um desconto né? Essa coisa de “TBT” é recente e como odeeeeeeeeeeeio essa mania que muitas pessoas têm em colocar tudo no inglês eu acho que fiz questão de ignorar que o tal TBT (Throuwback Thursday) significa um ‘regresso ao passado na quinta-feira’ bla bla bla (preguiça profunda…)

Como não vivo em Marte, pelo menos fisicamente, tenho que me adaptar aos novos costumes e percebo que o susto de ver um amigo atualmente careca de repente com cabelos ao vento numa jangada em Fortaleza, é um simples momento de lembrança de bons tempos que não voltam mais (assim como os cabelos) e ao mesmo tempo pagação de mico para mostrar o penteado mega ultra blaster cafona dos anos 90.

Mas o que significa então essa nova tendência? Não é culpa da pandemia querer se lembrar de momentos felizes, já que não temos tantos agora, porque isso começou no Twitter em 2012 e alcançou o Facebook e o Instagram posteriormente. Não quero fazer uma análise psicológica sobre o tema, pois além de não ter a formação necessária para tal, eu realmente não tenho muita paciência pra ficar elucubrando sobre novas tendências, conforme já dito ‘preguiça profunda’ dessas modinhas. Fato é que mais e mais as pessoas se dão a esse objetivo de mostrar ao mundo que foram felizes, que tiveram cabelo, que foram magras e que foram a Disney ou a Paris.

A busca atual por ‘likes’ e a confirmação de que meu sucesso e beleza de outrora possam ser dignos de aplausos no momento, fazem com que a gente, sim eu me incluo nessa, procure sempre valorizar um momento feliz do passado na esperança de que ele volte ao nosso presente em profusão que nem pulga que o cachorro trouxe para o tapete, é pulga mesmo!, pois ela sempre chega grávida e com 12 filhos, marido e amante! Eu quero momentos felizes ‘a la pulga’ e pronto, que se prolifere em abundância. Dureza é, todavia, para aquele que nunca foi à Disney ou Paris… e para aquele que nunca teve os cabelos do Caio Castro nem a barriga de tanquinho do Kauã Raymond. Dureza é para os que buscam esse aplauso em forma de comentários tão discutíveis e desconfiáveis quanto o próprio ato da postagem em si.

Mas como disse, isso é uma análise para pessoas da área comportamental, sociológica, psicológica e se eu me atrever vou ser tão risível quanto as fotos tiradas em 1986 numa praia cheinha de borrachudos sedentos que a gente finge não se lembrar do nome, mas o farofeiro, que lá no fundinho de nossas almas habita, sabe perfeitamente! Já que não vamos nos enveredar por esse caminho da análise, então falemos apenas dos mecanismos da memória. Eu sou conhecido pelos meus amigos e parentes como o detentor de uma memória invejável! E realmente tenho, não nego.

Lembro-me de tudo praticamente desde a mais tenra infância. Isso é bom obviamente para algumas coisas, para outras é um fardo absurdo que tenho que carregar, principalmente quando se trata de coisas, assuntos ou pessoas que gostaria que ficassem lá no passado mesmo, totalmente esquecidos. Claro que isso é um ‘dom’ natural meu, mas que foi potencializado com o aprendizado da música. Nós músicos estamos habituados a reproduzir obras imensas de cor. Usamos da memória auditiva, visual e a sinestésica (a memória muscular e de movimentos), para atingirmos essas proezas de decorar melodias, letras, encadeamentos harmônicos e muitos outros feitos que somente músicos conseguem entender. A memória é, portanto, além de um atributo inerente a todos os seres humanos, algo que pode ser treinado e aprimorado. Há inclusive várias técnicas para isso.

O que mais me encanta nessa questão dos sentimentos evocados a partir de um elemento gatilho é perceber o quão indefesos somos diante dos poderes da memória. Indefesos porque não podemos controlar alguns tipos de memória…

Eu vou explicar: se abrimos um álbum de fotografias da infância ou da turma da faculdade, estamos conscientemente fazendo isso para que venham os sentimentos e impressões daquela época e, já que sou o ator principal neste ato, então estou disposto a sentir aquilo que vier. Mas e quando se trata da memória olfativa? O perfume da avó já falecida, o cheiro do cachorro da infância ou o cheirinho da terra molhada do sítio do padrinho e tantos outros odores que podem nos levar numa viagem imediata para lugares e tempos. Um dia, andando por uma rua na Alemanha senti o cheiro das favas de uma árvore que tinha em frente a minha casa no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro….

Péra lá! Eu, um homem de 35 anos, volto num segundo a Travessa Pinto da Rocha 36 só porque essa fava, já há muito esquecida, resolveu brincar com meus sensores olfativos? Cruel né? E a memória auditiva? Há uns anos eu estava passando a vista no meu Facebook e um amigo postou uma foto com os dizeres ‘que saudades desse dia em Buenos Aires’, caí na besteira de abrir o vídeo e era simplesmente o bolero que meu pai mais cantava. O choro imediato me levou até seu abraço aconchegante e pude até sentir seu cheiro e seus beijos múltiplos na minha cabeça. Cruel e lindo né? E com essas e outras poderíamos divagar aqui eternamente falando sobre os artifícios com os quais nossa memória nos faz viajar. É um tema interminável, pois citei dois exemplos de boas lembranças, mas certamente há cheiros, sons, gostos e tantos outros sentidos que são a chave para lugares que deveriam estar lacrados em nossas memórias.

E foi pensando nesse tal de TBT é que resolvi fazer esse convite aos nossos momentos dignos de lembrança e trago a vocês um conto que escrevi já tem um tempinho! Espero que gostem!

Não perca o batom!

Revirou a bolsa e não o encontrou. Tentou novamente e se sentia já beirando a histeria, pois como pode um batom ter sumido assim? Resolveu então dar uma trégua para a bolsa e rumou até a garagem. Assumiu que teria que ficar naquela posição terrível para procurar embaixo dos bancos. Já não tinha mais idade para estes malabarismos e peripécias físicas, e apenas sentar-se num dos bancos e confiar que o alongamento do braço pudesse trazer de volta o batom fugitivo seria utópico. Então era se ajoelhar mesmo e enfiar a cara no piso do banco de trás e iniciar a busca, inalando famílias e colônias de ácaros que ali habitavam desde a última lavada.

Já na tal posição incômoda e até humilhante, percebeu que embaixo dos bancos de seu carro só faltava uma criancinha remelenta, pois o resto tinha. Encontrou ticket da área azul, todo pisoteado, mas ainda bom para o uso! Pensar que fora multada outro dia por não ter colocado o maldito bilhete. Encontrou colarzinho furta cor, dado na festa de casamento da amiga de infância.. ah se aquele colarzinho falasse! Contaria um porre delicioso que terminou numa aurora nos braços daquele garçom tão simpático. E esboçando um sorrisinho maroto, nem mais se importava com a lombar que já dava sinal de vida, e ali continuou como se folheasse um álbum de fotografias.

Foi quando avistou a cor nacarada e carmim do batom que certamente teria tentado a liberdade daquela bolsa tão apertada, rolando num momento de deslize enquanto sua dona pegava o celular, sendo multada mais uma vez, só que desta vez sem saber. Esticou o braço o mais que pôde e com dedos de bailarina tailandesa capturou o fujão. Para sua surpresa, algo a mais veio no meio de seus dedos: um galhinho de arruda, já seco e sem cheiro que deveria estar ali desde o último réveillon passado na praia, certamente há uns cinco anos logo que comprara o carro, seu primeiro “zero”.

Pensou nos filhos ainda pequenos, no marido que ainda não havia trocado ela por outra, pensou no mar e na alegria que sentia naquela época. Pensou na satisfação sem alardes de saber que estavam todos vivos e saudáveis e que havia tempo para pensar apenas no futuro, que era muito mais instigante do que o que vinha antes. Devolveu o galhinho de arruda ao seu lugar como se fosse um talismã, enxugou a lágrima que insistiu em descer pela face empoeirada, virou para o batom e disse: “morfético! Quase me aleija!”.

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