Ponto G, aliás, GG.

É bom ser o que se quer parecer.
O ditado popular que desengaveto nos transmite conhecimentos e, mais que isso, é fonte de água leve, mineral, de sabedoria para a molecada, coração pulsante da raça que se orgulha pensante e que se não ressente egoísta.
Gerações se informam e formam por veios abertos de auras e ouros.
Emocionado, ponho-me a fazer arte, arte sentimental. Fácil de entender o estrago que a morte desencadeia, para aprisionar em um túmulo ou a transformar em cinzas, o que tinha CPF ativo na Receita Federal do Brasil. A decomposição é questão temporal.
De composição falarei loguinho.
A arte deflui de correntes, que provém dos riachos e rios da cultura, com força suficiente para abrir frestas e dutos de cores tantas, de dar inveja ao pavão, como se ele não fosse dono de longas e coloridas caudas, e de um peito que os gatos marombados ralam para ter e ostentar. As gatinhas, muitas gatonas, não perdem nada. Malham. Amam-se todos pela lente da selfie. Senão, condenariam à pena capital o abestado que inventou o espelho, o do seu guarda-roupa, penteadeira ou do banheiro, estúdio íntimo do Insta, por instantes.
E o que tem a ver Genésio com Jesus? Tudo.
Segue a legenda para GG:
G, de Gigante. Outro G, de Gentil, grandão mesmo!
Morou?
Deve estar sacando bulhufas.
O cara era boa pinta. Para arrematar, encarnava o fã número um de Elvis Aaron Presley, o ícone musical do século passado. Considerando o palco o copo do liquidificador, indico uma boa dose de country, uma xícara de show, digo, chá, de rhythm e, para adoçar, o quanto de blues desejar. Aperte o play e dê start em algo tremendamente dançante, em um jogo de corpo provocante, ao creme e na espuma do milk-shake de influências preparadas desde a cozinha do borogodó.
Erasmo Carlos vidrou no Rei do Rock and Roll.
A bola estava com a Jovem Guarda, um musical da televisão que esteve nas telas de preto e branco de 1965 a 1968, tendo Roberto Carlos, Wanderléia e Ele, o GG, no comando na TV Record. Esse troço virou movimento cultural, irradiado, com a ousada sensação de Elvis, do Mississipi para o Brasil, e o mundo.
A contagiante influência do Pop dos Pops chegava arrebentando e arrebatando pela extravagância dos figurinos e atrevimento das danças, que saciavam corpos na adorada maneira romântica de engabelar corações pelos botões dos ouvidos.
Todo aquele agito fez vítimas. Erasmo, a maior delas. Não é tremendo?
Parecia o MegaStar desse Brasil brasileiro, do samba e do pandeiro. A viola, dos portugueses, se é que tinha chegado, estava guardada no saco, sacou?
As roupas, cortes de cabelo, penteado, costeletas, trejeitos de palco, GG imitava um a um do cara que apreciava cantar na penumbra, na total escuridão, na companhia de seu violão.
O nosso Erasmo tratou de passar sebo nas canelas. Cópia perfeita de seu maior ídolo, caprichava tremendamente, nos memoráveis anos mil novecentos e sessenta.
O rock, por seu som e estilo, do designer das notas e passos, modelo das apresentações transformadas em passarelas e salões de danças, sacudiu tanto a Erasmo Carlos, por dentro e por fora, carimbando-o com o apelido autoexplicativo de Tremendão!
Conservadores, diferentes dos insuflados dos dias ideologicamente separatistas do ano findante, de ambos os lados intolerantes à luz magenta, a qual tem ondas tanto de vermelho quanto de azul, na mesma quantidade, ficavam amarelos de vergonha dos modismos e produtos da Jovem Guarda, foram para a geral dos cafonas.
A estética pagou pau. A juventude pirou legal.
Pena que o que é bom dura pouco. Ao cabo daquela década e princípio dos anos setenta, pintou mudança no quadro e paradas de sucesso. Erasmo, o boa pinta, se sai com a “Gatinha Manhosa”. Era o mesmo que pedir para eu falar como um oftalmologista em consulta ou celebrante de homenagens maçônicas. Nada a ver, pô!
O movimento musical que tira para balançar em festas de cinquentões, sessentões e outros entões, no esquenta de baladas, que são naves nas névoas de viagens no trem da saudade, solta fumaça. O fim do calendário das festas de arromba estaria próximo. Elvis seguiria em seu percurso.
O amigo de fé, irmão e camarada de Roberto Carlos estrearia novo curso de suas carreiras. Realmente, dos dois.
Um bolachão, do tipo LP, daria uma palhinha de interpretações diametralmente opostas de sua nova fase. O cobrador da referida composição ferroviária, alertado pelo maquinista, anunciava que estava chegando o momento da parada da próxima estação musical. Uma nova moda estava no ar; sinal para o DJ liberar a brilhantina da discothèque. Ninguém topava segurar a criança!
A paisagista Narinha, esposa, e a mão amiga de Roberto, abririam o futuro de Erasmo para Além do Horizonte.
Seu frenesi deu de namoro com a MPB de nível respeitável. Beirou à chatice, de Saudosismo de Cae. Melhorou com Barroso, que não é o do STF. Perdeu, Mané!!!
Tiro tempo para os bons, se é que me entende. Ary Barroso veio a público, com a corda toda, em Aquarela do Brasil, no gogó do tremendo Tremendão, prolífico e trigueiro.
Ator convidado de Roberto, em 1971, o seu vigoroso talento de compositor tinha cliente certo, exclusivo até se pode dizer. Rodava o filme. A dupla estava feita e abençoada. O casamento perfeito com que a música brasileira sonhava, com os seus brotinhos carentes das mexidas tentadoras das cinturas e da sensualidade das brincadeiras regadas a rock e twist.
A Trezentos Quilômetros por Hora, Roberto cantava Erasmo, Erasmo contava com Roberto; e Roberto e Erasmo encantavam.
O Calhambeque, bi, bi. Vou buzinar o Calhambeque: bi, bi!
Atônito na pista, esburacada pelas tempestades da providencial peregrinação, topo com uma blitz. Começava a tarde desta terça-feira. Tive de parar. O sinal de parada obrigatória me veio pela notícia do falecimento do eterno e grandalhão roqueiro. Morria Erasmo. Pura ignorância de suas doenças cardíacas, renais e vasculares.
Nos dias próximos, teria apresentação aqui na nossa Franca. Arrastaria fãs e seguidores de um punhado de cidades destas redondezas.
O invisível empresário mandou publicar aviso, pré-composto e gravado pelo galã das cordas da guitarra elétrica: o show já terminou.
Toda a patota entrou pelos canos.
E eu que, ao fazer story para o meu Instagram e tomar emprestados os ombros do portal da Folha de Franca, flagrei-me soluçando por ter rompida a certeza de que ele estaria a ensaiar, cantarolando, em acústico, Sentado à Beira do Caminho.
Preciso acabar logo com isso, … Erasmo ESTEVES entre nós.
Playlist
10 músicas de Erasmo Carlos para relembrar
É Proibido Fumar (1964)
Escrita com Roberto Carlos, a canção foi lançada no álbum de mesmo nome do parceiro de composição. Em 1994, ganhou uma versão gravada pela banda Skank, que entrou no disco Calango.
Minha Fama de Mau (1965)
A canção é um dos sucessos do álbum de estreia do Tremendão, A Pescaria. A composição marcou tanto a carreira de Erasmo que se tornou o título de um filme biográfico do músico, lançado em 2019, com Chay Suede no papel principal.
Festa de Arromba (1965)
Outro hit do primeiro disco de estúdio do cantor, a composição também é uma parceria com o amigo Roberto Carlos. Bem no estilo iê-iê-iê do rock brasileiro, a letra da música imagina uma festa reunindo diversos nomes jovens da música da época.
Gatinha Manhosa (1966)
Música do álbum Você Me Acende, a balada foi lançada anteriormente pela banda Renato e seus Blue Caps, um ano antes. Composição de Erasmo e Roberto, a canção já ganhou versões de Leo Jaime e Adriana Calcanhoto.
Vem Quente que Eu Estou Fervendo (1967)
Lançada no disco O Tremendão, é composição de Carlos Imperial e Eduardo Araújo, que se popularizou na voz de Erasmo. A música também ganhou uma versão do Barão Vermelho em 1996, que deu nova vida à obra entre as gerações mais jovens.
É Preciso Saber Viver (1974)
Mais uma parceria de Roberto e Erasmo, a música foi lançada no disco Roberto Carlos, mas também ganhou gravações do próprio Erasmo, em 1996, e dos Titãs, em 1998, que entrou na trilha sonora da novela Pecado Capital, da Globo, ajudando a popularizar ainda mais a canção.
Além do Horizonte (1975)
Composta em parceria com Roberto Carlos e famosa tanto na voz dele quanto em gravação com Tim Maia e Erasmo, a música ganhou uma versão da banda Jota Questa, gravada para a trilha da novela com o mesmo nome da canção, que foi ao ar entre 2013 e 2014.
Sentado à Beira do Caminho (1980)
Música lançada no álbum Erasmo Carlos Convida, é mais uma das composições do Tremendão com Roberto. Teve versões gravadas pela banda Blitz, em 1994, e Lulu santos, em 2013.
Pega na Mentira (1981)
Canção do disco Mulher, de Erasmo, com um tom irreverente, que se tornou um hit do tipo chiclete no anos 1980 e é lembrada até hoje sempre que alguém é flagrado faltando com a verdade.
Mesmo que Seja Eu (1982)
Composição do artista com Roberto Carlos, que entrou no disco Amar Pra Viver ou Morrer de Amor. A música fala sofre um relacionamento em conflito e também ganhou uma versão da cantora Marina Lima.



