Órfãos da pandemia

Não é novidade para (quase) ninguém que a saúde reprodutiva das mulheres brasileiras corre sério risco na atualidade. As dificuldades na circulação das informações corretas aliadas à pandemia agravaram o que já era complexo.
Vivemos o ano 21 do século XXI e pensar nisso é assustador diante do compartilhamento diário de mentiras (fakes news). As mulheres precisam ser informadas constantemente sobre seus direitos para que não sejam alijadas deles. Tudo é motivo para cobrar das mulheres ações que nem sempre elas estão preparadas. Por isso, o assunto desta coluna é a saúde reprodutiva.
É urgente ficar alerta, porque em março, mês que normalmente é escolhido para ‘comemorar’ avanços sobre os direitos, o governo brasileiro se recusou a assinar documento a respeito da saúde feminina – ao lado de países marcados pelo conservadorismo como Polônia, Hungria, Arábia Saudita e China.
Na prática, o Brasil tenta negar conquistas que vieram junto com a democratização do sistema de saúde. A mais nova pérola veio do secretário de atenção primária à saúde do Ministério da Saúde, Raphael Parente, que disse recentemente que as mulheres deveriam adiar a maternidade durante a pandemia. A recomendação pode ter várias interpretações. Mas a meu ver é tardia é joga a responsabilidade mais uma vez no colo nas mulheres, ou melhor, no útero. O Estado não se responsabiliza por não ter feito sua parte desde 2020.
É inegável que houve mortes indesejadas de mais de 380 mil brasileiros, incluindo mulheres grávidas ou puérperas (que tiveram filhos recentemente) – todos vítimas da Covid-19. As mortes de grávidas e puérperas poderiam ter sido evitadas? Acredito que sim, porque desde o início da pandemia me parecia que elas não deveriam estar circulando por aí.
Mas o velho ditado que ‘gravidez não é doença’ pode ter deixado mulheres mais vulneráveis e tristemente entraram para as estatísticas oficiais. Seus filhos, no futuro, serão conhecidos como ‘órfãos da pandemia’, a última coisa que, qualquer família não queria.
Pedir para as mulheres adiarem a maternidade, não é novidade. Em 2015, durante a epidemia de dengue, zika e outras doenças, elas receberam o mesmo pedido. É possível adiar a maternidade? Sim, é possível. Mas a contrapartida tem que vir com a acessibilidade aos métodos contraceptivos pelo próprio Ministério da Saúde. É preciso facilitar o acesso e não desmantelar serviços que funcionam bem como os Centros de Saúde da Mulher. Nós, mulheres, precisamos ficar atentas. O que ainda está por vir é assustador.
PS1: As mulheres sabem como evitar filhos. Seja pelos métodos farmacêuticos ou naturais elas sabem o que precisam fazer quando não querem filhos. As mais velhas ensinam as mais novas. Por isso, eles têm tanto medo do nosso conhecimento.
PS2: O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece contraceptivos como DIU, camisinha feminina, camisinha masculina, anticoncepcional. Cabe à mulher decidir junto ao médico(a) ginecologista qual o melhor método para preservar sua saúde. Pelo SUS é possível fazer vasectomia e laqueadura. Mas em ambos os casos a regulamentação é atrelada a idade, ao número de filhos e aos partos normais.








