
Por Mauro Ferreira
Deve contar-se no máximo em três dígitos o número de pessoas realmente interessadas na preservação do patrimônio histórico de Franca e que se mobilizam por suas causas. Por isso, não é de estranhar a constante destruição e descaracterização da paisagem urbana local. É conhecido o processo de deterioração de vários prédios históricos que estão em risco evidente, como o antigo Colégio de Lourdes, o Champagnat e o Museu Histórico. Por isso, é triste o gosto amargo que ficamos quando se poderia festejar o maior investimento recente do poder público em uma edificação histórica da cidade, a obra que a prefeitura iniciou na antiga estação ferroviária e que vai custar no mínimo 3 milhões de reais.
A estação ferroviária foi tombada em 1997, no início do governo Gilmar Dominici, um dos poucos que de fato se preocuparam com a preservação da memória histórica da cidade. Inaugurada com pompa e circunstância no distante ano de 1887, a estação foi o marco inicial de uma nova era para a cidade. Sem a ferrovia, não teria havido a cidade do café e do calçado, as molas propulsoras do seu desenvolvimento econômico. Foi também a ferrovia que proporcionou a criação das primeiras escolas, como o Colégio de Lourdes.
Sua feição foi se modificando com o tempo. A estação inicial foi modificada várias vezes, a mais significativa dessas intervenções foi a de 1937, que lhe deu as principais características da atualidade. Quando a ferrovia foi desativada nos anos 1970 e o governo começou a negociar a venda dos prédios e terrenos para a prefeitura, fomos perdendo oportunidades, quase sempre para os automóveis. No governo Maurício, foram demolidos os galpões das oficinas para ampliar a Rua Frei Germano. Depois, Ary Balieiro abriu a Avenida da Integração, toda ela dedicada ao “deus automóvel” e estacionamentos. Pior, deixou duas áreas sem desapropriar: a vila ferroviária, hoje totalmente destruída e uma faixa de terreno que impediu a ciclovia de ter continuidade na praça 1º de Maio. Nesse meio tempo, um vereador que se dizia representante do bairro da Estação chegou a sugerir a demolição do prédio da própria estação para abrir uma nova ligação viária com a Vila Nova. Felizmente sua sugestão foi recusada, mas o prédio acabou cedido em parte para uma empresa de ônibus.
Foi o começo do fim. Sem um projeto de restauração e de ocupação consistente pelo poder público, o prédio foi dividido para diversos usos e instituições. Os sucessivos governos assistiram quietos a deterioração do prédio histórico até a situação insustentável em que se encontrava, de abandono mesmo. Por isso, a ação do atual prefeito é louvável, ao mesmo tempo em que se torna uma oportunidade perdida pelo formato adotado por falta de diálogo com setores que poderiam criar novas e criativas perspectivas de uso. O prédio começou a ser reformado com equívocos conceituais. Adianto que sempre defendi prioridade ao uso cultural. A administração preferiu outro caminho, o galpão de maiores dimensões foi fatiado em boxes comerciais a serem locados. Ainda assim, não teria sido preferível locar o galpão vazio para a iniciativa privada dar-lhe o uso possível? Ao engessar o local com um desenho inflexível, além de custos maiores na obra, podem inviabilizar sua ocupação.
Há previsão para uma cafeteria no saguão da antiga estação. Haverá viabilidade comercial? O local histórico, o mais preservado do prédio, deveria ter uso mais nobre. Manteve-se a área da biblioteca existente inalterada e o restante do prédio para um ainda obscuro uso “cultural”, sem que a sociedade saiba o que significa tal destinação. Se for para exposições de arte, por exemplo, o que seria elogiável, não há no projeto previsão de iluminação e ar condicionado para isso, o que significa novos aditamentos e despesas e atraso na ocupação. É a mesma falta de diálogo que ocorreu no governo Sidnei Rocha que, ao invés de preservar o prédio da AEC, investiu milhões numa Casa da Cultura, obra inadequada para a sua finalidade que, pouco tempo depois de inaugurada, já está envelhecida.
Mauro Ferreira é arquiteto.







