Opiniões

O Homo-sapiens e as cabras

A humanidade vive um momento singular da sua história. A frase não é nova e possivelmente já foi dita, ainda que a posteriori, sobre outros momentos importantes da civilização humana, como, por exemplo, quando da descoberta da roda, da invenção da escrita ou quando tiveram início as grandes navegações, inclusive a espacial. Mas o momento atual oferece à análise uma diferença fundamental: as mudanças produzidas pelo homem ao seu habitat podem levar a espécie à extinção! As evidências são tantas que dispensam explanações teóricas mais complexas. Até os negacionistas da ciência estão desconfiando de que alguma coisa não anda bem com o clima, porque os fatos têm falado por si mesmos, através de desastres naturais cada vez maiores e constantes. Vi um sujeito dizendo a um jornalista da TV que está preocupado, que o rio de perto da casa dele está secando: “não dá mais pra pescar” – reclamou.

Mas a questão que se impõe é: há alternativas para a espécie melhor adaptada ao planeta, que ocupou quase toda a sua superfície habitável, que se reproduziu aos bilhões? Hoje a ciência, especificamente a astronáutica, permite pensar em expandir o domínio humano para outros planetas e até para luas de outros planetas do Sistema Solar, como as de Saturno ou Júpiter, que contêm água.
O problema não é só a exaustão dos recursos naturais ou a eliminação da maioria das espécies que habitam o planeta com os humanos. Para isso o homem já domesticou e cria boa parte daquelas das quais se alimenta, sejam do reino animal sejam do reino vegetal. E os recursos de outra ordem, como os minerais e a água doce, também poderão ser obtidos de outros planetas e até da Lua, o satélite natural da Terra. A novidade é que a ação humana já interfere no principal segredo da Terra: a capacidade de regeneração natural dos seus ecossistemas. O complexo sistema de vida do planeta depende de vários elementos da natureza em interação. Qual será o limite para a regeneração natural do meio ambiente? Analisando o mosaico de reinos, espécies e formas de vida que povoaram a Terra no curso de suas eras, percebemos que para cada ambiente houve a adaptação de classes e espécies diferentes, com extinção de umas e o surgimento de outras.

Será que o homo-sapien sobreviverá a qualquer mudança de ambiente na Terra de hoje em diante? Será que sobreviveria em um ambiente totalmente artificial?
Experimentos já têm sido feitos nesse sentido nas estações espaciais. Mas, o homem teria de fazer concessões, muitas concessões. É bem provável, que as atuais gerações não sobrevivessem em um ambiente puramente artificial. A própria nostalgia, a saudade de nossos irmãos vivos da Terra nos fustigaria de modo implacável. Mas as novas gerações certamente terão maior chance, se forem adequadamente preparadas. Fato é que a Terra é um ambiente propício para seres que se adaptem ao seu ritmo, aos seus ciclos de renovação natural. A espécie humana vive hoje em um ritmo muito além da capacidade dos sistemas naturais. A impressão que se tem é que não é da Terra, mas foi introduzida como as cabras o foram nas ilhas oceânicas pelos primeiros navegadores. Animais vorazes, elas dizimaram os ecossistemas insulares, havendo casos em que também pereceram junto com as espécies locais. A imagem não é nada confortante, mas imaginemos que alguma civilização alienígena evoluída chegue por aqui e veja o que estamos fazendo…

O que intriga é que poderíamos fazer tudo o que temos feito de bom – conforto, alimentação abundante, tecnologia, (itens infelizmente mal distribuídos) – sem destruir o meio ambiente, mas não, optamos por fazer tudo do pior jeito possível. A esperança da espécie está nas mãos das novas gerações…

…parece mais fácil ao Homo-sapien dar adeus ao planeta azul. As viagens espaciais turísticas tiveram início com sucesso neste setembro de 2021!

Dr. José Borges

Advogado (Formado em Direito pela Faculdade de Direito de Franca); especialista em Direito Civil e Direito Processual Civil e em Direito Ambiental. Foi Procurador do Estado de São Paulo de 1989 a 2016 e Secretário de Negócios Jurídicos do Município de Franca. É membro da Academia Francana de Letras.

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