O dilema do sucesso: como tirar os sonhos do papel?

A mudança de ciclo causada pela chegada de um novo ano sempre desperta em muitas pessoas o desejo de traçar metas e reavaliar suas realizações do ano que chegou ao fim. Apesar disso, muitas pessoas têm dificuldade em conseguir ver seus sonhos realizados e seus objetivos alcançados. Frustradas, insistentemente ficam questionando a si mesmas: “por que não dá certo?”, “o que estou fazendo de errado?”, “por que é tão fácil para algumas pessoas e para mim não?”, apenas para citar alguns exemplos.
O alcance de objetivos, sejam pertencentes à vida pessoal ou à profissional, diz respeito primordialmente ao tipo de atitude que o próprio indivíduo se dispõe ou não a ter. Não apenas isso, está bastante relacionado aos fatores vinculados a esta atitude e a como o indivíduo lida com eles.
O dilema do sucesso, como pode ser chamado, povoa as fantasias de qualquer pessoa que deseje trazer à existência real seus sonhos e seus anseios. É bastante comum que as autocobranças se façam presentes quando os impedimentos às realizações surgirem. Isto, por sua vez, tende a nos levar a sentimentos obscuros de desvalor, de merecimento mediano – ou até nenhum –, iniciando, mais uma vez, o ciclo de “por que não dá certo?”.
Sampaio (2014, p. 38) nos diz que “os valores que desenvolvemos, bem como as referências de vida que temos e as crenças que alimentamos, acabam interferindo e limitando nossa percepção da realidade” e isto significa que embora nós, enquanto indivíduos, estejamos em constante processo de aprendizado e ressignificação de crenças e valores, somos, também, uma espécie de edificação, cujo alicerce é preparado desde a tenra infância e isso terá certos impactos no prosseguir da construção, que no caso, é o nosso “eu” adulto. Além disso, certas crenças pessoais que trazemos conosco tendem a impedir que nosso melhor seja dado a certas situações, o que nos leva a ter um rendimento inferior ao que poderíamos ter, caso nossa visão sobre a situação e sobre nós vemos não fosse distorcida.
Algumas etapas devem ser seguidas para que os sonhos possam ser tirados do papel. A primeira e mais importante é permitir-se querer verdadeiramente. E isso não é tão óbvio quanto possa aparentar. Querer algo verdadeiramente é dar a si mesmo liberdade o bastante para escolher fazer o que se quer, livre dos ruídos das opiniões de terceiros. Mesmo com as óbvias influências culturais a que todos nós somos submetidos, nossas identidade e personalidade são únicas e irrepetíveis e isso faz com que nossos sonhos e desejos sejam únicos no mundo. Além disso, todo mundo que em algum momento realizou algo, precisou sonhar com isso primeiro. Quando assumimos para nós mesmos que queremos aquilo que queremos, ficamos em condições de fazer acontecer.
Grinberg (2011, p. 56) alerta para o fato de que é comum as pessoas confundirem sonhos com objetivos. Para ele “sonhos são subjetivos, ou seja, levam em consideração apenas o que o sujeito deseja e acontecem apenas na imaginação”. E isto é uma grande verdade. Os objetivos, por outro lado, possuem características mais palpáveis. São, ainda, planejados, realistas e possuem prazo para acontecerem. Quando estabelecemos um prazo, que não precisa ser uma data específica, mas um período específico, o alcance do objetivo se mostra mais próximo da possibilidade de realização, dada a organização necessária para que nossa rotina caiba dentro do prazo previsto.
O próximo passo é submeter seu objetivo ao teste de realidade. Com isso, todos os fatores relacionados ao objetivo serão levados em consideração, bem como tudo que ainda distancia o indivíduo da concretização do que deseja alcançar. Neste momento é necessário ser totalmente honesto e sincero consigo mesmo. Para isso, a análise SWOT é um importante aliado. Nela, as particularidades do indivíduo e as de seu objetivo serão colocadas em cheque. Assim ficará totalmente explícito quais são as “cartas na manga” que se tem para fazer seu objetivo acontecer e quais são as deficiências que devem ser sanadas.
FORTALEZAS Em que você é bom? Quais são as suas competências que fazem de você um (a) profissional diferenciado (a) de outros da mesma categoria? Quais são as facilidades que seu perfil lhe oferece? O que torna você mais hábil que seus concorrentes? FRAQUEZAS Quais são as suas atuais dificuldades? Quais são as competências e habilidades que você precisa desenvolver ou maximizar? Sua condição financeira leva você facilmente ao seu objetivo? Se não, o que é preciso fazer a respeito? OPORTUNIDADES O que há, externamente, que lhe permite facilmente alcançar seu objetivo? O que seu objetivo agregará de bom à sua vida? Isso faz o esforço valer a pena? AMEAÇAS Como é o perfil dos seus concorrentes? O alcance do objetivo poderá trazer algum prejuízo de algum tipo, seja legal, moral ou financeiro?
Feita a análise SWOT, o objetivo estará lapidado pelo teste de realidade e assim, a decisão de seguir em frente ou adiar temporariamente sua execução já terá sido tomada.
A próxima etapa deve ser uma constante na vida de qualquer pessoa que deseja alcançar sucesso em sua empreitada.
Considerando os múltiplos desafios que inevitavelmente aparecerão durante o trajeto, deve-se sempre observar a profundidade com que o indivíduo compreende e lida com os seguintes aspectos de si mesmo (a):
AUTOCONHECIMENTO: O que você conhece a seu respeito? Quando alguém pergunta “quem é você?”, ou, mais tradicionalmente, quando numa entrevista de emprego o psicólogo do RH pede para que você cite uma qualidade e um ponto a ser melhorado, o que vem à sua mente como resposta? Conhecer a si mesmo (a) é um processo que jamais estará concluído, visto que é uma jornada de compreensão de si que exige esforço diário e, permitir-se desejar algo verdadeiramente faz parte do processo.
Uma das dificuldades que muitos encontram no aprofundamento de seu autoconhecimento está no discurso errôneo das outras pessoas. As expectativas das outras pessoas, em particular dos adultos com quem se lidou durante a infância, tende a produzir alguns ecos e um entendimento errado de si mesmo. Na medida em que o autoconhecimento avança estes ecos vão sendo dissipados e uma liberdade interna vai sendo construída e fortalecida e assim, os objetivos podem ser alcançados (BUZONI, 2021).
Ainda sobre este tema Sampaio (2014, p. 89) dá o alerta: “o mais importante é ter consciência das características que de fato são suas e distingui-las daquelas que, na sua trajetória, foram projetadas por outras pessoas e assimiladas por você sem que desejasse”.
AUTOESTIMA: São os afetos que alguém nutre por si mesmo (a). É como ele ou ela se sente sendo quem se é. É a qualidade do relacionamento que a pessoa tem com ela mesma. Pensar a respeito disso clarifica os impedimentos que tantas vezes o próprio indivíduo colocou para sabotar seus próprios planos. Assim como acontece ao autoconhecimento, a autoestima costuma estar impregnada de distorções oriundas das opiniões de terceiros. Novamente o teste de realidade é importante, visto que quando mais realisticamente olharmos para nós mesmos, mais teremos clareza de quem realmente somos e do que queremos.
AUTOCONFIANÇA: Esta é uma consequência da caminhada que se tem com os dois últimos itens. A autoconfiança pautada numa relação honesta e verdadeira consigo mesmo lança o indivíduo na direção de seus objetivos. Uma autoconfiança baseada no narcisismo, por outro lado, traz consequências desastrosas.
A autoconfiança consciente faz do indivíduo resiliente, capaz de lidar com as frustrações da vida sem se deixar abater pelo momento atual, focando em seus objetivos, estando em condições de encontrar novos caminhos para fazê-los realizados. Sampaio (2014, p. 95) complementa esta tese, afirmando que “é importante não apenas nos conhecermos a fundo como também encontrarmos uma maneira de expor com segurança aquilo que realmente somos”.
O investimento contínuo nos aprendizados que conhecer a si mesmo são capazes de trazer permitirão a quem quer que tenha coragem de perseguir seus objetivos manter o foco na direção daquilo que se quer, saindo sempre mais fortalecido e amadurecido pela caminhada, em condições de trazer à luz novos sonhos e, a partir deles, novos objetivos. O sucesso, então, não será mais um dilema, mas uma experiência real e frequente.
REFERÊNCIAS
BUZONI, Douglas. Consciência emocional: o manual do paciente. Rio de Janeiro: Autografia, 2021.
GRINBERG, Renato. A estratégia do olho de tigre: atitudes poderosas para o sucesso na carreira e nos negócios. São Paulo: Editora Gente, 2011. SAMPAIO, Mara. Atitude empreendedora: descubra com Alice seu País das Maravilhas. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2014.
SOBRE O AUTOR
Douglas Marcel da Silva Buzoni é psicólogo pela Universidade de Franca com especialização em Gestão de Marketing e Recursos Humanos pela Faculdade de Ciências Econômicas do Triângulo Mineiro. É autor do livro “Consciência Emocional: o Manual do Paciente”.







