Minha Cidade

Nessa nossa pequena cidade do nordeste paulista, parte da região metropolitana de Franca, tem em seu brasão a expressão em latim “super rivos aquarum” a qual significa “sobre as águas”. Nesse pedaço de chão que fica a margem esquerda do córrego dos Mendes, formou-se o vilarejo ao redor da capela Santa Cruz. Comandada por barões do café, da pecuária e comerciantes, ocorreu fatos únicos de morte, traição, formação de famílias tradicionais, entrevos políticos e formação oligárquica de poder. Em decorrência da ausência de mão de obra para o manejo dos cafezais nesta região, iniciou a migração de pessoas do norte de minas e sul da Bahia para labutar nesta terra da Santa Cruz de Ribeirão Corrente.
Hoje cidade, Ribeirão Corrente tem a expressão da miscigenado de seu povo. Composta de pessoas simples, tranquilas, de pouco anseio segue feito um barco “sobre as águas”. Aqui teve a tradicional padaria do Seu Tião (Sebastião Figueiredo), onde fazia o melhor lanche de pão com mortadela do Brasil – na minha avaliação (risos). Aquele senhor de bigodes grisalho e entradas marcadas na cabeça, tinha uma técnica própria: Escolhia o pão ao gosto do freguês, fatiava na hora a mortadela, colocava aquele molho de pimenta caseiro, e dava um tapa no lanche para amassar. Acho que era esse tapa o segredo daquela delícia. Sem contar o rocambole e o picolé de coco queimado caseiro.
Nesta mesma padaria, foi também o ponto de ônibus durante muitos anos. Foi ponto de conversa dos tradicionais da cidade. Outra personalidade marcante foi um homem chamado Nenê Lourenço. Ouvi várias histórias dele, mas a que marcou foi a do professor Luiz Cruz (escritor e membro da academia francana de letras), que escreveu em seu livro Minha Aldeia, onde coloca um sermão dado por Lourenço a ele por ter pego um chocolate sem pedir. Segundo o escritor ecoa até hoje em sua memória a retidão do “tio Nenê” (expressão de seus sobrinhos) que tem sua foto na secretaria da Escola Estadual que leva seu nome.
Lembro também da Dona Benedita que sonhava e aprendeu a ler e escrever, hoje tem seu nome na biblioteca municipal – onde passei minha adolescência. Benzia como ninguém. Essa eu tive o prazer de conhecer. Nasci aqui, sou daqui, e quero o bem. Terra do Seu Zé Cândido, um excelente trovador que nos inveja a memória e criatividade, um verdadeiro artista popular. Chão do Tio Nego que alegrava a criançada com seu folclórico personagem de carnaval “Mulinha”. Vilarejo de meu avô Zé Mudança, ao qual carrego meu sobre nome Castro, homem sistemático e de muitos filhos. Isso, sou filho de mineira e neto de lavrador, componho esta formação social, e aqui é o meu lugar, terra santa de Ribeirão Corrente, SP.








Gostei bastante do texto.
Não sou de Ribeirão Corrente, mas passei parte da minha infância aí. O texto conseguiu transmitir bastante a sensação de nostalgia.