“Mãe”… assunto inesgotável né?
Eu sei que o dia das mães já passou… mas eu fiquei pensando cá com os meus botões que falar sobre mãe é uma coisa que não tem fim! Dá pra inserir a temática em qualquer ambiente científico ou artístico, gente! Pensem bem! Tem mãe na biologia – nós somos os melhores exemplos disso… tem mãe na literatura – aos montes em prosa e verso, tem mãe na história, na pintura, na culinária, na escultura, na dança e até na física! Sim… basta calcular o traço elíptico que o chinelo fará saindo da mão da sua mãe indo cair direitinho na sua nuca… daria até pra fazer uma equação!
E nesse manancial de opções para falar dessa criatura escolhi a música (por que será?), mais precisamente uma personagem de uma das mais célebres óperas da literatura. Estamos falando da ópera “A Flauta Mágica” de Mozart e a mãe/personagem é a “Die Königin der Nacht”- a “Rainha da Noite”. Até me dá um arrepio na coluna ao pensar nela.
A “Rainha da Noite” é uma personagem que apresenta diversas características intrigantes e muito interessantes. A começar pela escolha do timbre que está nas indicações do compositor. É o seguinte, quando um compositor concebe uma ópera ele deixará especificado qual o timbre que ele quer para cada personagem. As vozes femininas são “soprano, mezzo-soprano e contralto‟ com suas variantes do tipo “soprano lírico, soprano leggero, soprano dramático‟ e assim é em todas as outras vozes.
As vozes masculinas são “tenor, barítono e baixo‟ e também tem suas variantes como “tenor lírico, tenor dramático, baixo cantante‟ etc. Essas variantes são como os diversos modelos de um mesmo carro, sabe? É aquela sigla ou outro nome do lado do nome do carro, que diz se ele tem mais ou menos opcionais e se ele é mais ou menos veloz. Na ópera e no teatro havia regras para isso para tornar a credibilidade da personagem algo imediata.
O autor do século XVII não colocaria uma mocinha loirinha com voz agudinha para fazer o papel de uma vilã, ou escolheria uma anciã para ser a heroína da trama. Essa liberdade até mesmo desejada só veio nos tempos modernos, mas isso é outro babado, deixa pra outro texto. Mas falando de ópera, geralmente os heróis são “tenores‟ – a voz mais aguda dos homens, os vilões são barítonos ou baixos – vozes mais graves dos homens, bruxas e mulheres perigosas são mezzo-soprano – voz intermediária das mulheres e a heroína boazinha é quase sempre um soprano – voz mais aguda das mulheres.
Eu, como autor, tenho essa liberdade e necessidade de dizer que minha heroína é uma mulher frágil, de voz aguda, cabelos ruivos e longos e assim por diante, nunca foram regras fixas, mas meio que era um senso comum optar por tipos físicos e timbres específicos para caracterizar melhor as características de cada personagem.
Bom, dito isso vem a grande surpresa dessa tal rainha. Mozart diz na partitura que a “Rainha da noite‟ é um soprano dramático! Gente soprano dramático é a voz, dentro das vozes agudas, a mais escura e pesada! Ela é uma mulher que chega bem nos agudos, mas sua “cor‟ vocal é algo próximo do grave e do soturno. Até ai tudo bem, mas qual soprano dramático nascida nesse planeta Terra é capaz de executar todas aquelas notas agudíssimas e na velocidade em que Mozart escreveu? Uai gente é o mesmo que especificar que quero que um fusca entre numa pista de formula 1 e ganhe! Ele é carro que nem os outros, mas não tem a menor condição de atingir a velocidade de uma Ferrari, tadinho.
Eis que o bonitão do Mozart resolveu fazer isso porque dizem as más línguas que a Constanze, sua esposa era um soprano dramático que deve ter feito pacto com o Capiroto e cantava de tudo, desde os mais agudos até os mais graves, então ele achou que depois iriam nascer outras, mas estamos até hoje procurando um soprano dramático que possa fazer esse papel, mas quase três séculos depois, ainda não apareceu nenhuma.
Outro fato intrigante é que a rainha não tem um nome próprio! Temos na ópera a Pamina (filha da Rainha da Noite), o Tamino (o príncipe que irá resgatar Pamina, oh!), Sarastro, Papageno e Monostatos, mas ela não precisou ser batizada, ela é apenas a “Rainha da Noite”. Ela representa o lado perverso da humanidade, representa o mal e é temida pelos súditos, asseclas e todos que cruzarem seu caminho.
Durante toda a ópera, a Rainha aparece apenas duas vezes. Sua primeira aparição se dá logo no primeiro ato, momento em que entra ao som de trovões e nuvens pesadas escurecem o ambiente. Dissimulada e intrigante, se faz de vítima, contando a Tamino, um jovem príncipe quase herói (digo quase porque a ópera começa com Tamino pedindo socorro, correndo de medo de uma cobra gigante… péra lá!! Que herói é esse que se embanana todo de medo e acaba desmaiando?? Bom…mas isso é tema pra outro texto…talvez “A fragilidade masculina na ópera…”), então…prosseguindo….ela conta que sua jovem e indefesa filha havia sido sequestrada pelo malvado Sarastro, que a leva para longe impossibilitando que ela, a pobre mãe, possa usufruir do convívio com a filha….tudo balela, óbvio… Sarastro representa o bem e a sabedoria e retira Pamina da mãe por saber que a Rainha é uma bruxa pérfida e cruel, e não quer que a menina se transforme em algo assim também…Vale dizer aqui uma fofoquinha, parece que Sarastro é pai da Pamina! Não está escrito isso em lugar nenhum, ele não olha sequer na cara da suposta ex-amásia jabiraca, mas corre a boca miúda que eles tiveram um caso e nasceu essa fofa da Pamina… estudiosos dizem que no meio de taaaaaaaaaaantos símbolos presentes nesta ópera, porque gente, Mozart não poupa ninguém com a quantidade de símbolos maçônicos e exotéricos condensando tudo numa ópera só, há evidências veladas de que a relação de Sarastro e Rainha simbolizaria o bem e o mal, o escuro e o claro, o positivo e o negativo e assim por diante, essas coisas que fazem e explicam nossa existência nesse mundo… mas de novo, isso é pra outra oportunidade!
Voltando a falar da primeira aparição da Queen… então, nesta primeira ária ela acalma o jovem “herói” dizendo “O zittre nicht mein lieber Sohn!”, traduzindo: “Não trema, meu caro rapaz” (pera lá de novo??? Ele desmaiou por causa da cobra gigante, ao invés de tentar matar ou pelo menos correr dela, e agora tá tremendo por causa de uma mulher que ele acha ser uma mãe desesperada vítima de um homem mau??? vai entender…o que diria Paulo Silvino? kkk). Bom, Tamino parte em busca de Pamina e acaba descobrindo toda a farsa e vê que Pamina estava era sendo protegida e não o contrário, daí tem um monte de coisa na ópera, um caçador de pássaros abobado e engraçado, um tanto de ritos e provas que parecem as do Big Brother até ele encontrar a Pamina, por quem já estava apaixonado só porque viu uma pintura do rosto dela num camafeu (ai gente não dou conta disso! É muita viagem, mas é ópera pode tudo… foco Nazir, foco), é quando a Rainha da Noite entra em sua segunda bombástica aparição. Colérica e sentindo-se ludibriada, ela diz a Pamina que ela deve matar Sarastro, caso contrário será repudiada, odiada e todos os laços da natureza serão rompidos.. é a grande ária da Rainha da Noite, que diz que “A vingança infernal ferve em meu coração!‟
Essa ária é considerada uma das mais difíceis para a soprano coloratura e é de uma carga de ódio e vingança que tornam a parte dramática ainda mais complicada. Este exemplo de mãe dentro da ópera é outra questão interessante concernente à personagem. Enquanto todos buscam colocar a figura da mãe como um ser de inabalável capacidade de amar e de renúncia, Mozart resolve chocar colocando a figura materna justamente como fonte de ódio e vingança. Injusto? Irreal? Não sei dizer…só sei que temos tidos exemplos de mães bastante esquisitas hoje em dia, umas até matam seus filhos. Portanto não dá para avaliar se há ou não mães no estilo Rainha da Noite… acredito que sim, pois o ser humano é capaz de certas coisas que vou te contar viu, tem dó… mas como elemento instigador para que você procure mais informações sobre essa e outras óperas, acho que a Rainha da Noite será uma luz para o caminho totalmente viciante que é a ópera! Assistam a ópera “A Flauta Mágica”, tenho certeza de que irão gostar, inclusive crianças gostam demais porque são montagens ricas em cenários e figurinos e para quem não conhece muito sobre ópera, talvez seja um bom início!








