Da Lama ao Caos

Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida(Funeral de um Lavrador, de Chico Buarque)
Assistimos em choque a tragédia, ou melhor, ao crime que ocorreu no Litoral Norte de São Paulo, sobretudo no município de São Sebastião, onde bairros inteiros foram soterrados na parte sul do município. Notícias diferentes foram veiculadas, algumas tentando “democratizar” o impacto, ao afirmar que também os ricos foram atingidos, ou ainda “humanizando” os grandes milionários que teriam cedido seus helipontos para uso aberto.
Outras notícias, de certo modo, responsabilizaram as vítimas, que teriam vindo para a região após o boom imobiliário para trabalhar para os ricos, mas sem ter onde ir, teriam ocupado encostas e áreas de risco.
Praticamente não se tocou no ponto central do problema, nem se verificou de fato como a história da ocupação da região ocorreu.
Como caiçara de nascimento e coração, me vi na obrigação de traçar algumas linhas sobre a situação histórica e crônica que a população local sofre há décadas, com o turismo predatório e a especulação imobiliária desenfreada.
Quando falamos em Litoral Norte, nos deparamos com alguns dos metros quadrados mais caros do país. Esse fenômeno não foi espontâneo ou natural, mas decorrente da exploração financeira e capitalista que avançou brutalmente com a abertura da Rio-Santos, finalizada durante a ditadura militar.
Esse processo levou à expulsão e extermínio sistemático de povos originários e populações tradicionais, como os caiçaras, seja de forma violenta com o uso de capangas armados, seja com golpes de troca de rádios e bugigangas por terras, ou ainda pelo aumento brutal do IPTU que impede que a população pobre originária tenha condições de se manter em seu território.
Esse processo aparece no documentário “Pés na Areia – um retrato da resistência caiçara” de Antonio Penedo, disponível no Youtube. Há ainda uma excelente coleção organizada em 5 volumes por Antonio Carlos Diegues, a “Enciclopédia Caiçara”, produzida pelo Núcleo de Apoio à Pesquisa Sobre Populações Humanas e Áreas Úmidas Brasileiras e o Centro de Estudos Caiçaras da USP.
A privatização das praias, em seus condomínios de luxo, a opressão da população local, que ainda hoje sofre assédios físicos, legais e financeiros, não pode ser naturalizada. Aliás, a existência de helipontos nessas mansões, em contraste com o déficit e precariedade habitacional da maior parte da população local, é um escracho ofensivo que não deveria ser tolerado.
Não, essa tragédia não foi causada apenas pelas forças da natureza, nem atingiram por igual ricos e pobres. Os mais de 60 mortos ou desaparecidos são exclusivamente da classe trabalhadora, explorados no trabalho, oprimidos pelo cotidiano, espremidos entre morros e mangues pelos ricos, privados de suas praias e terras originais, e agora, enterrados vivos por um processo de concentração de riqueza e propriedades que seguirá alijando a população local de uma vida digna, rica, abundante e feliz, em detrimento do egoísmo de poucos.
Um exemplo fundamental de luta e resistência se dá pelo trabalho do Coletivo Caiçara de São Sebastião, Ilhabela e Caraguatatuba, que luta pelos direitos da população local, dos povos originários e tradicionais, retomando e fazendo as autodemarcações de territórios e tentando frear a especulação desenfreada. Um raio de luz em meio ao temporal, que se abate há décadas para quem vive no litoral.
Não, não nos iludamos, nem nos silenciemos. Os ricos que perderam bens materiais, certamente serão cobertos por seguros e recuperarão tudo rapidamente através da histórica rapinagem de riquezas em países como o nosso.
Já a população trabalhadora perdeu bens e vidas, e isso não será reparado, pois não há dinheiro que cubra uma perda humana. E, também seus bens, certamente não serão ressarcidos, a não ser com muita organização e luta que aponte um horizonte mais justo, igualitário e efetivamente democrático.
Que a onda de solidariedade que se abriu nesse período estimule e ilumine o terreno encharcado de água e sangue, abrindo caminho para esse presente e futuro necessários. Que as palavras proféticas de Chico Science sejam realizadas:
Posso sair daqui para me organizar
Posso sair daqui para desorganizar
Da lama ao caos, do caos à lama
Um homem roubado nunca se engana(Chico Science)















Diagnóstico preciso! Certeiro! No peito do capitalismo genocida! Muito bem colocado, Tito.
Vivo em Itanhaém, onde não há tantas áreas de risco, mas sempre vemos os mesmo tipos de problemas e suas causas: especulação imobiliária, concentração dos principais imóveis (especialmente no centro e bairros mais nobres) nas mãos de pouquíssimo “herdeiros”, muitos abandonados, ainda assim cobrando valores absurdos por aluguéis, impedindo o desenvolvimento real do município. Não há emprego, não há oportunidades reais a nenhum tipo de empreendimento, a não ser que você já seja rico ou que já possua algum imóvel. Os mais jovens não têm nem opções de ensino universitário decente, a não ser os precários EADs, ou então necessitam se deslocar até Santos arcando com a maior parte do valor de transporte, todo o custo de alimentação, além do tempo perdido em deslocamentos.
A tragédia de São Sebastião já estava anunciada: governos estaduais a ignoraram e a imprensa fez questão de destacar isso. Mas ninguém tocou no real motivo: a cumplicidade do estado com a classe privilegiada e dominante.