Opiniões

A política entre a farsa, a tragédia e o poder

A afirmação de que a espécie humana é um animal social, deveria ser complementado de que a espécie humana é um animal social-político. Desde que a nossa espécie produziu seus primeiros instrumentos de trabalho e saiu da caverna para ganhar o mundo, nos organizamos de diversas formas e maneiras.

As contradições da sociedade, e a tentativa de transformar a natureza, fez com que os seres humanos se superassem a cada obstáculo. Para garantir questões básicas de reprodução e sobrevivência, nós criamos estrutura complexas, e para substituir a luta irracional, construímos o poder.

O poder em uma sociedade é regulado e manipulado pela política, mesmo em grupos que detém as armas, o que de fato determina o uso delas é a política. Ou seja, não há outro meio, seja em espaço institucional ou não, que para determinar o poder não seja pela ação da política.

No Brasil sempre foi propagado a ideia de que a política é coisa de bandido, corrupto, de desocupado, ou, que é melhor deixar para quem tenha dinheiro, e assim não se corrompe pelas benesses financeiras promovida e produzida pelo poder. Essa perspectiva não é à-toa, ela tem a mesma função de que manga com leite faz mal.

Quem nunca escutou a avó dizer para não beber leite e comer manga porque faria mal? O mito tem origem no período colonial brasileiro, onde o escravocrata, na impossibilidade de fiscalizar que os escravizados estavam comendo manga de plantações, espalhou essa inverdade para deixá-los longe de seus pés de manga.

No ideário da política aconteceu o mesmo processo, desde o período colonial e ganhou força no período imperial, a política é tratada como coisa de elite, ou daqueles que não tinham dinheiro entrava para enriquecer, e para isso se corrompiam. Assim, nascia na cultura-política brasileira a figura do político que estava apenas ligado aos seus interesses particulares.

A manipulação dessa figura sempre serviu para que as elites mantivessem longe da política tanto os setores populares como a classe trabalhadora. Não à-toa, sempre escutamos por aí: não gosto de política. Contudo, o movimento da história é contraditório e no Brasil, mesmo com a elite tentando manter longe o conjunto da população, essas classes populares tentaram assumir o protagonismo na política.

Em alguns momentos a elite tentou dirigir essa vontade popular, nos últimos anos levantaram a bandeira da moralidade e da anticorrupção para atrair setores da classe trabalhadora mais conservadora, funcionou, e a eleição do Bolsonaro é prova disso. Por outro lado, setores populares, identificados com a linha mais progressista, também se lançaram a disputa política, por isso, percebemos uma polarização crescente.

Na história brasileira, toda vez que as classes populares tentaram o protagonismo na política, a elite, via institucionalidade e o uso da força, tentou barrar o avanço desses setores. Foi, desta forma, com a lei áurea (1988), com a Proclamação da República (1989), com a “revolução de 1930”, com o Estado Novo (1937) e com o Golpe Militar (1964). Isso sem contar as tentativas em outros momentos históricos.

Como bem colocou Marx que a “história se repete a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa”, poderíamos completá-lo, usando como base a história brasileira, de que a nossa elite é a própria farsa.

Em 1930, o governador mineiro Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, que foi um dos articuladores do golpe que levou Vargas ao poder, dizia que: “A democracia seria boa se não fosse o sovaco”. Ele é o mesmo que usou o “slogan”: “façamos a revolução antes que o povo a faça”.

O golpe militar de 1964 levou ao poder presidentes militares toscos, aqui não estou nem me referindo ao intelecto de cada um, mas de suas ações exóticas frente ao governo, alguns deles era de verdade fantoches daqueles que realmente elaboravam a política. João Figueiredo foi outro a mostrar seu apreço ao povo, quando perguntado por um repórter foi categórico: “prefiro cheiro de cavalo”.

Atualmente, quando as classes populares voltaram a participar e tentar o protagonismo na política, a elite arrumou outra farsa: o Jair Bolsonaro. O mesmo que usou a medida arroba para se referir aos pretos, o mesmo que deixou morrer 700 mil pessoas, em sua grande maioria pobre, de COVID, enquanto usava o recurso para bancar agrados aos militares, o mesmo que levou o país a fila do osso. A única diferença dessa farsa atual das demais é que essa ao invés de cavalo gosta mesmo é dos brilhos das joias!

Justamente para combater farsas como essas que as classes populares e a classe trabalhadora têm que se apropriar e praticar cada vez mais dos processos políticos. A política em mãos erradas sempre serão tragedias e farsas, mas nas mãos da classe trabalhadora sempre será a arte da transformação e da liberdade.

Carlos Machado

É Professor Historiador e Militante do PCB.

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