A interjeição “ufa!” é pedagógica

Alívio. Para o acaso, se for possível percebê-lo, pronuncie uma palavra de ordem: ufa.
Bons dias.
Sábado, às dez horas, no interior do Estado de São Paulo, um sujeito curioso, que vinha da cidade grande, juntou-se a um grupo que se autointitula “desbravadores da mente”. Por extensão, no sentido figurado, são seres que desejam polir a inteligência de alguém. Neste caso, exploram sensações cerebrais e físicas, deixando que o tato e a visão sejam afetadas a partir da engolição de um suco de limão mágico. Uma receita simples!
O céu azul da primavera dos anos dois mil parece brilhar mais forte. O sujeito percebe as montanhas ao seu redor se movimentarem como uma dança sincronizada, balé contemporâneo dos bons, ensaiado e apresentados por flores e galhos. As árvores, em sincronia, abrem e fecham suas pencas e sorriem. Então, percebe, que, ufa, os desbravadores conseguem cumprir sua missão.
No corpo, alguns arrepios frios, mesmo num sol de trinta e dois graus, a barriga gelada e um sorriso desponta no mesmo estômago antítese do tempo presente. Associa o passado numa ação-dádiva, desejo de futuro no agora.
Deita-se.
Gargalha risos em horas alteradas por sensações visuais e sensoriais. Sua autoconfiança desponta e a posição vertical para o seu corpo nunca foi tão difícil. O chão parece ser seguro para as costas e não os pés. Encontra-se com a figura materna numa relação vaca-bezerro, tão poética e regada de beleza, que transforma tais bichos em potências. Ali não há nenhuma vaca muito menos bezerros, mas estão e caminham, vivem, pastam. Bucólico.
Quebra. Uma menina com um celular na mão para na porta, manda uma mensagem, se movimenta cuidadosamente. Simplesmente vive. Ele gargalha.
Retoma.
Depois que o corpo encorajou-se novamente a ficar de pé, salta pela janela, anda em círculos. Epifania! As voltas desnecessárias para as chegadas, mas os atalhos para atingir-tocar o mesmo espaço-tempo. Homem erectus.
Salta pela janela, gargalha, senta na janela, observa da janela. Se encanta e apaixona-se pela janela-da janela. Dali tudo acontece e as possibilidades se materializam.
Boas tardes.
Ufa, mais uma vez a palavra de ordem retoma as coisas para os seus devidos lugares. A sobriedade passa como uma brisa que logo vai embora e devolve o entusiasmo, transformando a consciência, implicando em sonolência. Gargalha. Gargalham. Achincalha. Achincalham. Troça. Troçam. Riem.
Abre e fecha às mãos e encontra um par de pés. Pés com cinco dedos, pés que carregam em si histórias e parecem formar um enredo em quadrinhos. Pés com dedos cheios de unhas. Pés que aguçam curiosidade. Pés macios, leves. Pés. Se encanta com os pés e os massageia, brinca com os dedos, gostaria de morder… durante alguns momentos mordê-lós parecia uma delícia!
O sujeito, então, clama ao ser Divino, numa loucura compreensão de sua existência, que lhe salve dos besouros e formigas e permita que muitas outras vezes seja possível alucinar-se como num sonho bom. E vai descarregando… e descarregado e já com o rosto pintado, assimila tudo: algumas coisas esvaem-se em esquecimentos. ficou no presente. outras estão latentes na memória.
Coube coragem, descascou medos. E depois daquele suco de limão dormiu os próximos três dias em êxtase, pronto, para uma vida que continua. Os “desbravadores da mente” mais uma vez realizam sua missão e satisfeitos continuam sua caminhada buscando outros sujeitos para lhes apresentar o infinito.
Boas noites.


