A faixa, nem todos os presidentes a tiveram

A decisão de Jair Bolsonaro, de não passar a faixa presidencial a Lula, pode simbolizar a sua não concordância com o resultado das eleições ou simplesmente o lançamento de sua militância como líder da oposição ao governo que se instalará. O ato de passar a faixa simboliza a entrega do poder ao sucessor, o que agora não ocorrerá. Não o fazendo, o capitão estará mais solto para exercer suas atividades dos próximos anos e, até, construir a própria candidatura em 2026. Mas é bom lembrar que Lula não será o primeiro presidente a não receber o simbólico adereço. Dez que o antecederam também ficaram sem a faixa, por diferentes razões.
Nós, que, em 15 de março 1986, assistimos a transição do poder dos militares para os civis, vimos quando o general João Figueiredo se recusou a passar a faixa ao vice-presidente eleito José Sarney, que assumiu o governo no lugar de Tancredo Neves, internado na véspera com a moléstia que o levaria à morte no mês seguinte. Fiqueiredo defendia a posse do presidente da Câmara, Ulysses Guimarães, mas este foi vetado pelos militares, que preferiram Sarney, dirigente do partido governista até aderir a Tancredo..
Criada em 1910, pelo presidente Hermes da Fonseca, a faixa destina-se a simbolizar o poder do presidente da República. O primeiro eleito que não a recebeu foi Rodrigues Alves, que já havia governado o país entre 1902 e 1906 e, em 1918, foi eleito para um segundo mandato, mas morreu antes da posse, vitimado pela gripe pandemia da espanhola. Diferente de Sarney, que herdou todo o mandato de Tancredo, o vice Delfim Moreira assumiu mas só governou até 1919 porque a Constituição de então determinava no impedimento do titular a posse do vice e a realização de nova eleição.
Julio Prestes, eleito presidente foi o segundo “sem-faixa”, pois não chegou a assumir, derrubado pela Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder (onde permaneceu por 15 anos). Em 1945, depois do afastamento de Vargas, José Linhares (ministro do Supremo Tribunal Federal que assumiu o governo até as eleições) também não recebeu a faixa. O mesmo aconteceu em 1954 – depois do suicídio de Vargas – onde Café filho e Carlos Luz assumiram a presidência, também desenfaixados. Naqueles tempos bicudos não havia espaço para festas e formalidades e havia o risco de um golpe de Estado, que só não se concretizou por ação do então ministro da Guerra, marechal Teixeira Lott, que garantiu a posse do eleito Juscelino Kubistchek.
O deputado Ranieri Mazzili, que assumiu a presidência interinamente na renúncia de Jânio Quadros (1961) e na derrubada de João Goulart (1964), também não teve a faixa colocada em seu peito. O outro preterido foi Pedro Aleixo, o vice-presidente de Costa e Silva. Quando a doença impediu o militar de continuar governando, assumiu a junta formada pelos comandantes do Exército, Marinha e Aeronautica) e o vice foi mandado de volta para casa.
Existem, nos bastidores, muitas narrativas sobre a faixa presidencial. Numa delas, conta-se que Juscelino prometeu, no seu círculo familiar e de auxiliares mais próximos, que, quando fosse passar a faixa a Jãnio Quadros, daria um sopapo no sucessor se este falasse mal dele ou de seu governo. Como a faixa foi passada e o incidente não ocorreu, restam diferentes versões do que teria ocorrido, inclusive a de que Jânio foi bem comportado porque alguém o teria alertado sobre o risco.
O poder é, tradicionalmente, cercado de intrigas e histórias, algumas verdadeiras e outras nem tanto. Os que assumem precisam ter o cuidado de não se levar pela emoção ou raiva, pois isso pode atrapalhar nas suas tarefas de governar. Nesse momento, que vivemos o ponto alto da polarização política, gostaria de poder pedir ao presidente Lula que – com sua experiência oriunda de tanto tempo de militância – fizesse o possível (e até o impossível) para conter os arroubos de seus auxiliares. Isso poderá evitar problemas para seu governo e ser bom para todos os brasileiros.







