Viver no Canadá

O Canadá é um país que tem facilitado muito a imigração, sobretudo de jovens profissionais. Para saber mais sobre o assunto, a Folha de Franca conversou com Júlia de Paola Almeida Carvalho e Gabriel Veríssimo, francanos que vivem e trabalham no Canadá.
Eles nos contam como é a realidade naquele país e dão uma ideia, para os interessados em viver no exterior, de como se pode projetar uma vida profissional num dos locais mais modernos e com melhor qualidade de vida do mundo.

Formada pela Faculdade de Direito de Franca e Relações Internacionais pela Unesp Júlia de Paola Almeida Carvalho vive no Canadá desde 2015 explicou a demanda canadense por profissionais: “O Canadá tem uma falta de mão de obra, acho que provavelmente em razão da pequena população. Eles consideram imigração como estratégica no plano de crescimento do PIB com metas anuais de número de imigrantes. Atualmente os programas são mais voltados a mão de obra qualificada, e pessoas mais jovens. Tanto que no programa express entry que é o mais geral, quanto mais velho, menor a pontuação dada no quesito idade. Por esse perfil, o governo é bem aberto aos imigrantes, com políticas públicas internas. E por ser bem comum o número de imigrantes, a população já está mais acostumada e também é mais aberta”.
Ela diz ainda que após três meses no Canadá conseguiu o emprego na Universidade de Waterloo, uma vaga administrativa no departamento de pesquisa da universidade (Office of Research), especificamente na área de funding de empresas privadas. “Minha longa experiência na área jurídica foi um diferencial. Isso tornou possível minha promoção para o cargo de gerente de contratos em 2017, cargo que ocupo até hoje. Minha experiência na universidade tem sido incrível. Estar no departamento de pesquisa me coloca muito próxima do que há de mais novo em termos de pesquisa acadêmica – desde pesquisas sobre veículos autônomos a estudos sobre câncer; inteligência artificial até gamificação e linguagem de jogos; de comportamento do ártico a pesquisas relacionadas ao novo corona vírus. A cada contrato, preciso entender o escopo da pesquisa, o que será entregue pelos professores. Fazer parte desse processo de inovação é mesmo único. A Universidade é muito forte nas áreas de engenharia e computação, mas também é bem reconhecida pelos cursos nas áreas de humanas e biológicas.
Um dos benefícios que a universidade concede aos seus empregados é a mensalidade gratuita para qualquer um de seus cursos. Isso tornou possível que fizesse meu mestrado na área de ciências políticas, concluído em 2018. Este ano comecei um doutorado na área de meio ambiente e sustentabilidade, que também está sendo 100% custeado pela universidade”, explica.

Gabriel Veríssimo cursou Biologia na Universidade de Franca e, sonhando em sair do país, começou a procurar saber como e para onde gostaria de ir. “A mão de obra no Canadá é muito valorizada por ser um país em sua grande maioria formado por uma geração mais velha, então, a mão de obra pesada é uma área a ser explorada pelos imigrantes em procura de condições melhores e de acelerar o processo de adaptação e segurança financeira. Passei por várias áreas da construção civil como carpinteiro, fazendo casas em madeiras, instalação de drywall como acabamento interno, como “framer” instalação estrutural em metal, paredes e divisórias em salas comerciais e grandes escritórios comerciais. Hoje atuo como foreman em uma companhia de Drywall especializada em projetos residenciais. Sou responsável por quatro setores da construção civil residencial (Design de unidades “layout”, construção de toda a parte estrutural em metal “framing”, instalação de drywall (gesso envelopado), e a aplicação e acabamento em massa “taping”, dessas unidade. E toda coordenação e desenvolvimento do projeto em modo geral”.
Em termos de adaptação, Gabriel considera o Canadá um país aberto e multicultural, o que facilita muito. “Como vim direto para a maior cidade do país, tive contato com isso logo nas primeiras caminhadas pela cidade de Toronto. Muitos imigrantes e comunidades gigantes e bem estruturadas. Isso ajuda muito os novos imigrantes se adaptarem com mais facilidade nas novas atividades e rotinas no país, como ir ao banco, ao mercado, comprar um carro, arrumar um emprego, mesmo que ainda não domine a língua inglesa, ou francesa, já que é um país bilíngue. A cultura canadense, pode se dizer que é muito semelhante à nossa brasileira, apesar dos extremos no clima: passamos de 40 graus positivos no verão a 40 graus negativos no inverno. A vegetação é muito rica em verdes, florestas e campos, muitos rios e lagos de agua doce, ‘praias’ como eles chamam as beiradas desses lagos e desses rios, estão sempre lotadas no verão. O povo é bem menos agitado e menos festeiro que o brasileiro de uma forma geral”, observa ele.
Júlia também faz as ressalvas sobre as diferenças culturais. “O canadense não se preocupa com marcas, carro, roupa ou estética. Aqui vigora a cultura do DIY – do it yourself, ou faça você mesmo. Aqui geralmente o canadense irá fazer a faxina da sua casa, muitas vezes reformar a casa, tirar a neve e cortar a grama, não importa quanto ganha ou como vive. Nós mesmos reformamos a nossa casa, trocando até o piso. Mudamos também bastante a questão dos horários. Tudo acontece mais cedo. Jantamos as 6 da tarde. Aqui às onze da noite não tem mais ninguém na rua. E uma última coisa que realmente mudou na nossa rotina é o aproveitar bem o verão. Ficamos juntos, na rua, em parques até bem tarde, quando o sol se põe. Como temos dias bem curtos no inverno, e passamos bastante tempo dentro de casa, no verão tentamos passar o máximo de tempo fora, fazer refeições, brincar com as crianças. No Brasil simplesmente não valorizávamos isso já que o clima no Brasil é maravilhoso o ano todo”.
Enfrentamento à pandemia
Em relação à pandemia do Covid-19, Júlia considera que há falhas nas políticas de enfrentamento. “A maior tenha sido a dependência da vacina vinda de outros países, ao invés de ter investido no desenvolvimento de uma vacina própria no início da pandemia. O governo fez bastante propaganda do número de vacinas adquiridas (algo em torno de sete vezes a população do Canadá), mas agora enfrenta um problema na entrega dessas vacinas devido às limitações de oferta e alta demanda. Até agora o Canadá aplicou 12.3 milhões de doses da vacina, sendo que mais ou menos 29% da população total que é de 37.6 milhões de habitantes recebeu ao menos a primeira dose da vacina.
Em termos de isolamento social, o Canadá decretou desde o início da pandemia regras de distanciamento. Desde dezembro já passamos por dois lockdowns e o chamado stay-at-home, que é o nível mais restrito de todos, no qual você só deve sair de casa para coisas essenciais como comprar comida e ir a consultas médicas. No geral a população tem seguido as normas. Mas ainda assim os casos têm aumentado e o governo de Ontario em particular tem sofrido recentes críticas pelo número de casos que tem crescido muito”, comenta.

Gabriel corrobora isso. “A pandemia tem sido muito mal administrada por todos, de um modo geral, com exceção de alguns países que fizeram o que tinha que ser feito no começo de tudo, a grande maioria deixou a desejar. O Canadá, assim como o Brasil, levou alguns meses para ter os primeiros casos e não fechou as fronteiras. Hoje ainda estamos contando com números altos de casos diários e de boa parte do comércio ainda fechado. Há poucas semanas, entramos em um novo lockdown e com “STAY HOME” order, o “fique em casa” caso não seja linha de frente ou essencial. Não sei se ainda estamos próximos de acabar com isso.

Como ir para o Canadá?
Ainda assim, ambos concordaram que a qualidade de vida no país seja acima da média e Júlia explicou que o brasileiro que queira viver no Canadá deve antes de tudo pesquisar muito sobre os programas de imigração, sobretudo o Express Entry. “É um programa baseado em pontuação que leva em consideração idade, formação, experiência profissional e nível de inglês/francês. Esse último item super importante. Você se cadastra no site e mensalmente eles chamam algumas pessoas no sistema com base nos pontos. Para quem quer imigrar sugiro, antes de mais nada, se cadastrar, para saber onde a pessoa está e investir no inglês/francês, que faz muita diferença. Essa é a forma de vir como residente permanente direto. Há também a possibilidade de vir como estudante para um curso superior ou técnico. Nesse caso, o tempo aqui estudando e trabalhando contam muito na pontuação para depois aplicar para a residência. A grande maioria das pessoas segue esse caminho”, finalizou ela.






