Um franco-marroquino em Franca

Uma das mais enriquecedoras experiências daquilo a que chamamos civilização, em sentido coletivo, é a troca entre as culturas. Interessada nesse aspecto do olhar estrangeiro que se entrelace ao brasileiro e promova intercâmbio de conhecimentos, afetos, visões para ambos, a Folha de Franca entrevistou Hamza El Moumen, de 34 anos, marroquino e francês, muçulmano, cuja relação com a cidade de Franca está no fato de ser casado com a francana Sofia Salomão, com quem tem um filho.
Formado em Engenharia de Produção, Hamza trabalhou na auditoria interna do Carrefour durante cinco anos, metade na França (rodando quase todos os países onde o Carrefour atua) e a outra metade no Brasil. Depois, trabalhou por quatro anos nas áreas de M&A (Mergers and Acquisitions), parcerias e, então, no planejamento estratégico. Em 2020 foi convidado a ir para a Via (antiga Via Varejo, proprietária das marcas Casas Bahia, Ponto Frio etc.) como líder da área de M&A, onde está desde então.
Com um percurso de sucesso profissional e pessoal, leia abaixo sua visão muito especial e certamente agregadora de mundo, de humanidade, sua crítica ao colonialismo. Diz ele sobre Brasil-Marrocos: “as duas culturas, marroquina e brasileira, são de natureza aberta, acolhedora, acho que é isso que facilita essa integração cultural”.

Folha de Franca- O Brasil foi uma escolha pessoal? Quando e por que veio viver aqui?
Hamza El Moumen – O Brasil, sim, foi uma escolha pessoal. Cheguei no Brasil em novembro de 2012, pelo meu trabalho. Na época estava já me preparando para voltar para o Marrocos, perto da minha família, mas no meio do caminho surgiu uma oportunidade de me expatriar para o Brasil para a qual me candidatei. Confesso que inicialmente era para ser para um período de dois ou três anos, o tempo de consolidar uma experiência internacional no currículo e também para conhecer e visitar o pais. Só que não esperava ser tão bem acolhido.
Folha de Franca –Como você, um franco-marroquino, enxerga o Brasil, do ponto de vista político e cultural?
Hamza El Moumen – Charles De Gaulle, antigo presidente da França falou do Brasil o seguinte «Le Brésil est le pays de l’avenir et il le restera», tentando traduzir seria “o Brasil é o país do futuro e sempre será”. Não sei qual foi o contexto dessa fala, nem o que ele quis dizer exatamente, mas a minha leitura dessa frase resume como enxergo o Brasil: um país rico de matéria-prima no sentido amplo do termo: recursos naturais, capital humano, diversidade cultural etc. Em teoria, tem tudo para dar certo e em vários aspectos e critérios, está dando certo! Mas é um país que anda muito aquém do seu potencial, limitado por problemas estruturais (políticos, sociais, entre outros) que vários países em desenvolvimento enfrentam também.
Mas, de um outro lado, é o país da felicidade. Quando meus pais vieram me visitar em 2018, eu os levei à avenida Paulista num domingo à tarde, algumas semanas antes do Carnaval e ficaram chocados (no sentido positivo da palavra) pela felicidade que transbordava dos bloquinhos de carnaval. Monte de gente dançando, felizes, aproveitando intensamente do momento, sem nenhuma preocupação. Nem a chuva conseguiu atrapalhar as festividades.
De um ponto de vista cultural, fico sempre admirativo da diversidade que há no Brasil. Pela história demográfica do país, que recebeu em momentos diferentes fluxos migratórios da África, Europa e Ásia, se construiu uma sociedade muito diversa. Na minha opinião, essa diversidade faz a riqueza humana e cultural do Brasil. Em outros países, diferença cultural pode ser um fator discriminatório, gerar desconfiança. No Brasil não senti isso. Quando falo que sou marroquino, 100% das reações são positivas: gera curiosidade, as pessoas querem saber mais, perguntam sobre a cultura marroquina, a culinária, pedem dicas de viagem, contam como a viagem lá foi maravilhosa. Aliás, falar do Marrocos me ajuda muito a quebrar o gelo em uma primeira conversa. O brasileiro é naturalmente muito aberto e acolhedor com o estrangeiro, porque justamente a grande maioria da população brasileira tem alguma origem em outro país (italiana, japonesa, libanesa etc.). É tão acolhedor que adaptou as culturas de outros países aos gostos dele: os sushis com cream cheese e a pizza com catupiry são exemplos perfeitos .
Folha de Franca-Você é casado e tem um filho com uma brasileira. Em que medida as culturas convergem e em que medida conflitam entre si? Onde a complementaridade?
Hamza El Moumen – Na minha opinião, o que importa em um casamento é compartilhar o mesmo jogo de valores e princípios, que considero fazer parte da cultura. Nesse sentido, do momento que têm isso em comum, não importa se o casal não fala a mesma língua ou não compartilha os mesmos gostos musicais. E se a gente considera o conceito de cultura no seu sentido amplo, considero que há muito mais convergência que diferenças culturais entre mim e a minha esposa. Agora obviamente que a cultura marroquina tem várias diferenças com a brasileira, mas isso nunca foi uma barreira ou algo que gerou fricção entre nós.
Para as famílias respectivas, imagino que foi diferente, pelo menos no começo da relação. Tinha alguns preconceitos dos dois lados (nada contra ter preconceito aqui, somos todos preconceituosos de alguma forma), e alguns deles muito engraçados! Mas nenhum preconceito sobrevive a convivência com a outra cultura. E com a convivência, o preconceito deixa o espaço a compreensão e algumas vezes até a admiração. E foi lindo ver esse processo acontecer. A sorte é que as duas culturas, marroquina e brasileira, são de natureza aberta, acolhedora, acho que é isso que facilita essa integração cultural entre as duas famílias.
Vejo a maior complementaridade na riqueza cultural onde nosso filho vai crescer. O meu sonho seria dele saber falar e ler árabe, e sambar.
Folha de Franca –O que você estranha profundamente no Brasil?
Hamza El Moumen – Quando cheguei no Brasil, fui surpreendido pelo jeito extravertido do brasileiro (obviamente não dá para generalizar, é uma percepção da média). Quer seja no ambiente de trabalho ou fora. Engajar uma conversa com uma pessoa desconhecida é fácil, comum, não tem nada de errado.
A cultura de trabalho é também bastante diferente do que conheci na França. As reuniões sempre começam com cinco minutos de conversa que não tem nada a ver com a pauta da reunião. Brincava com meus colegas que parece que eles precisam de cinco minutos para esquentarem antes de atacarem os temas sérios. E o pior é que os temas desse esquenta são totalmente aleatórios. Pode ser sobre futebol, como pode ser sobre a subida do preço da gasolina, ou pior, sobre algum programa do tipo BBB. Mas precisa ser um tema leve, com um viés humorístico. Nesse esquenta geralmente saem a melhores piadas do dia. Pessoalmente não demorei muito para me acostumar.
Outro tema que dificultou a minha vida no Brasil nos primeiros meses é o número absurdo de gírias que as pessoas usam para se comunicar. É impressionante. E para alguém que está aprendendo a língua, dificulta bastante.

Folha de Franca- O que, do Brasil, você incorporou em si como qualidade?
Hamza El Moumen – Otimismo! No Brasil, mesmo em um cenário adverso, as pessoas têm muito otimismo. E esse otimismo deixa tudo mais leve. Falo de otimismo porque a diferença nesse capítulo com a França é grande. O brasileiro vai sempre olhar para o lado positivo até nas situações mais complicadas.
Folha de Franca- Você é muçulmano. Por favor, fale extensivamente sobre isso. (significados, preconceitos, intolerância religiosa etc.)
Hamza El Moumen – O nome da religião Islam é derivado da palavra Salam, que quer dizer paz. Acho que isso resume muito bem a filosofia dessa religião que é minha. Tenho muitas conversas sobre religião com amigos no Brasil, até porque não é uma religião muito espalhada no país, e poucas pessoas têm interação com ela. Mas conceitualmente o Islam têm muito mais pontos em comum com a religião cristã que diferencias. As duas religiões têm os mesmos grandes princípios. As diferenças estão nos ritos e jeitos de aplicar os princípios. E mesmo nos ritos têm muita semelhança: por exemplo, quando os cristãos têm o rito de ir para missa na igreja cada domingo, os muçulmanos têm o rito de ir para salat al jumuaa na mesquita a cada sexta-feira. Jesus é um profeta na religião muçulmana também. Mas, infelizmente, todo mundo foca só nas diferenças entre as religiões. O que acho uma pena.
A minha religião sofre infelizmente de vários preconceitos/estigmatização no mundo inteiro, desde algumas décadas, e só piorou desde os atentados do 11 de setembro. Mas no Brasil sinto que esse preconceito é muito mais leve. Talvez pela presença importante da comunidade árabe no Brasil, ou porque o Brasil foi menos exposto a esse tipo de violência. Em 9 anos no Brasil, nunca senti intolerância. No máximo foram comentários julgando a prática do ramadã como extremista e nefasta para o corpo (feito do jeito certo, pode ser até benéfico em alguns aspectos). Falo do ramadã porque é a prática religiosa mais “perceptível” e diferente do conhecido. Para quem não conhece, o ramadã é o nome de um dos 12 meses do calendário muçulmano. Durante esse mês, qualquer muçulmano adulto em capacidade física e mental de fazer, deve fazer um jejum total entre o nascer do sol e o por do sol, e isso durante todo o mês. Conceitualmente, é um tempo de renovação da fé, da prática mais intensa da caridade, e vivência profunda da fraternidade e dos valores da vida familiar. Neste período pede-se ao crente maior proximidade dos valores sagrados, frequência da oração na mesquita, correção pessoal e autodomínio.
Agora um fato importante também é que a prática da religião muçulmana difere muito de um individuo para outro, de um país para outro e de uma família para outra. E como qualquer religião, tem de tudo em termos de prática. Na Arábia Saudita por exemplo, a prática da religião muçulmana é bem mais rígida. No Marrocos a prática é menos rígida, e também mais diversa.
Uma coisa que quero deixar claro aqui é que a violência e o terrorismo que o mundo conheceu nas últimas décadas não tem nada a ver com a religião muçulmana, e que se perguntar para qualquer muçulmano ao redor do mundo, não vai considerar como muçulmano quem cometeu qualquer crime em nome da religião.
Folha de Franca- Como você sente/avalia a cidade de Franca, cidade natal de sua esposa?
Hamza El Moumen – O primeiro comentário que fiz chegando pela primeira vez em Franca é que achei parecida com Rabat, minha cidade no Marrocos, em alguns aspectos. É uma cidade que me pareceu agradável na sua tranquilidade. É uma cidade que não é tão grande na escala do Brasil, mas tem o mesmo tamanho que a décima cidade marroquina em termos de população (Agadir).
Por essa tranquilidade, eu brinco que é o lugar onde mais consigo descansar. É uma cidade que tira o peso e estresse que São Paulo coloca nas costas. Admito que pode ser que essa percepção seja enviesada pelo fato que só vou para Franca durante os finais de semana, sem pressão ou estresse do trabalho.
Vejo também que é uma cidade com muito potencial de crescimento e de influencia. Já que é o berço de uma das maiores e mais respeitadas empresas do país (não vou citar o nome, pois é a concorrente direta da empresa onde trabalho).
Folha de Franca- O Marrocos é hoje um bom país para se viver hoje em dia? Acolhe bem os imigrantes?
Hamza El Moumen – A minha resposta é com certeza enviesada porque é onde eu mais me sinto em casa, mas sim, é um país muito bom para se viver. Primeiramente porque o marroquino é muito acolhedor, muito parecido com o jeito brasileiro de acolher. Ainda mais quando é com brasileiros. Mas cuidado, o melhor e o pior do Marrocos é o marroquino! Pode ser que alguns (não todos) comerciantes na medina apliquem preços altos para gringos, tentando passar a perna. Fica a dica: se um preço não está escrito, quer dizer que é negociável.
É um pais também que oferece um clima tranquilo, sem temperaturas extremamente frias no inverno. Bom, durante o verão as temperaturas podem ultrapassar os 40°C em algumas cidades no sul, inclusive em Marrakech. Além disso, tem uma riqueza de paisagens grande, e tem de tudo: deserto, montanhas altas, praias (não tão bonitas que as praias brasileiras, mas merecem ser mencionadas aqui), florestas. A proximidade com Europa também é um ponto positivo, e abre muitas opções de viagem acessíveis.
A estabilidade também é um diferencial importante. E o que ajuda muito nessa estabilidade é o regime de monarquia constitucional com um parlamento eleito.
Agora tem que lembrar que é um país em desenvolvimento, que tem também os seus problemas estruturais. Lá, os meus maiores problemas foram com a burocracia, a lentidão dos procedimentos administrativos, etc.
Folha de Franca – Eu sou fascinada pelas variações de matizes culturais no Marrocos. Vocês têm as cidades imperiais, mais tradicionalistas e têm Casablanca e o Tânger, que na literatura e no cinema ficaram muito associadas a um certo tom ‘exotique mundano’. O que você diria dessas representações e dessas variantes e estereótipos culturais?
Hamza El Moumen – Marrocos é repleto de variações culturais, devido a história do pais que recebeu, em vários períodos, fluxos migratórios que vieram abastecer esse balde cultural.
Primeiramente, a cultura marroquina tem a sua fonte na cultura berbere. Antes da chegada dos árabes, o norte da Africa (do Marrocos até Egito) era a terra dos berberes, que falavam (e ainda bastante falam) uma língua diferente do árabe. São vários dialetos em função das regiões, mas que a gente chama de línguas berberes ou amazigh. A identidade berbere é mais ampla que a língua ou a etnicidade, e abrange toda a região norte africana. É muito comparável com os índios no Brasil. Estudos apontam que a grande maioria da população norte africana é de origem berbere, mas muitos não se identificam mais assim, pela dominância da língua e dos costumes árabes. No Marrocos, o amazigh é uma língua oficial do país, junto com o árabe, e se divide em três dialetos, dependendo da região. No meu caso, sou descendente de berbere pelo meu pai, mas infelizmente não falo.
Os árabes chegaram no século VII, trazendo a cultura e a religião muçulmana com eles. A conquista do norte da Africa se fez de maneira gradual, e se expandiu até a península ibérica. Cinco séculos depois, na reconquista da península ibérica pelos cristãos, um fluxo grande de árabes foram banidos da península, e se estabeleceram no Marrocos, trazendo uma cultura rica desenvolvida na península. Hoje em dia, os azulejos coloridos que decoram as casas, e várias artes foram trazidos com esse fluxo migratório.
Pela situação geográfica, sendo uma etapa obrigatória para as rotas comerciais entre África, Europa e Asia, o Marrocos se beneficiou dos fluxos comerciais, e os intercâmbios culturais decorrentes disso. Com certeza isso explica em parte porque usamos tantas especiarias na comida tradicional.
Na história recente, a ocupação francesa e espanhola do Marrocos trouxe uma cultura muito diferente, ocidental, que contrasta com a cultura tradicional. A coexistência entre os dois mundos criou esse contraste grande entre os centros das cidades que são um labirinto á céu aberto, e bairros novos bem planejados, com um estilo arquitetônico europeu moderno. França e Espanha, em poucas décadas deixaram um rastro cultural muito forte no Marrocos, para o bem e para o mal.
Tem tantos exemplos para demonstrar essa mistura cultural, mas o mais representativo é a língua que falamos no Marrocos. Tem que saber que no Marrocos o árabe falado no dia a dia é diferente do árabe clássico que estudamos na escola. O árabe falado no Marrocos é uma mistura de árabe, francês, e espanhol (dependendo das regiões). É muito comum também que na mesma frase a gente use o árabe e o francês.

Folha de Franca- O que você diz da presença francesa histórica no Marrocos? O que trouxe de positivo e negativo ao país?
Hamza El Moumen – A presença francesa no Marrocos foi uma colonização, só para deixar claro o contexto dessa presença. Com todo o peso moral que isso implica, além do aproveitamento dos recursos e desapropriação dos bens. Nenhuma ocupação se fez de graça. E o preço disso se paga durante gerações do lado da população ocupada. Gosto de comparar a colonização com uma situação onde de um dia pro outro, seu vizinho rico invadisse a sua casa com o pretexto que você não tem a capacidade financeira de manter a casa. E fala que a casa agora é dele. Ele pega a posse do seu quarto, e te deixa dormir no sofá com seus filhos. Claro que ele aproveita para reformar a casa, coloca uma decoração mais moderna. Mas a casa não é mais sua, e você não tem ninguém com quem reclamar.
Mas se for pensar positivamente sobre a colonização, acho que foi um acelerador de desenvolvimento para o país. Sem essa ocupação, não sei se o Marrocos teria a mesma infraestrutura, o mesmo nível de alfabetização (mesmo se ainda tem muito para melhorar nessa questão), ou a mesma abertura para o mundo.
Folha de Franca- Têm planos de voltar a viver e trabalhar no Norte da África? Ou mesmo de viver em Franca?
Hamza El Moumen – Sempre tive planos de voltar para Marrocos, e ainda tenho. Morar longe da família sempre foi difícil. E com todos os defeitos que conheço do Marrocos, é a minha terra. Gosto muito da famosa frase do Tom Jobim “Viver no exterior é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom” que se aplica perfeitamente para o Marrocos também. Agora não é para o curto prazo, mas a gente está pensando nisso no médio prazo.
Franca para mim é tranquila demais para morar, pelo menos é a minha percepção hoje. Cidade pequena nunca me atraiu. Mas, acho que poderia ser uma opção mais na frente, quando chega o momento de vida que tranquilidade é mais valiosa que a energia e agitação que procuro hoje.








