Pequena odisseia de Tarcísio

O poeta Marte estava empolgado naquele dia. Seu novo livro findava as amarrações e ele convidara Tarcísio para uma apreciação de seus textos.
– Talvez um talharim de massa fresca com molho feito na hora para acompanhar tantas palavras – alegara o poeta ao celular.
Tarcísio chegou por volta das sete da noite no Elimar II. O poeta o recebera ao som de um disco de jazz, enquanto se sentaram no sofá defrontando anotações em um velho caderno e uma cascata de textos na tela de um notebook.
Onze da noite, Tarcísio partiu alcançando a rodovia Ronan Rocha na primeira saída à esquerda, com a ideia de ir por fora da cidade até o posto da av. Antônio Barbosa Filho. Todavia, na descida em frente à Unifran, um dos pneus estourou numa grande onomatopeia, seguida de várias outras menores. Assustado, entrou pela primeira alça de acesso e estacionou na av. dos Sapateiros, embaixo de um poste de luz onde comprovou o estrago.
Com o pequeno macaco hidráulico em mãos, tentou erguer o carro e nada! O macaco estava sem forças, nem conseguindo levantar o próprio braço, pedindo para o deixar dormindo no maleiro e que não lhe importunasse tão tarde.
Não perdendo mais tempo com aquele senhorzinho preguiçoso, ligou para alguns amigos e, por uma sorte de quem gosta de tomar cerveja depois do expediente, um deles veio em seu socorro.
– Ê, Tarcísio! Perdido por esses lados? – gracejou o amigo antes mesmo de estacionar o próprio carro.
– Rasqueado, agradeço demais!
E sorrindo com cara de quem já estava relaxado, Rasqueado nem pediu permissão: trocou o pneu pelo estepe num tapa. Porém, quem disse que o estepe colaborou? Assim que tocou o asfalto, descolou e murchou. Levaram em algum lugar para encher e nem brisa ficou dentro. Borracheiro 24 horas? Não naquele dia! Tarcísio agradeceu mais uma vez Rasqueado e, sem escolha, deixou seu carro sozinho para voltar no outro dia.
Mal dormiu uma horinha!
Acordou num cheiro de café, tomando uma xícara fumegante e pronto para chamar alguém que lhe ajudasse. Nesse momento, um passo pesado, causando leve tremor no chão, gritou pela atenção de Tarcísio: era o gigante Igorovitch com seus cinco metros de altura, recém-chegado do Rio de Janeiro.
Correu à rua, pediu ajuda ao gigante que, dando um bocejo de acordar o bairro todo, se disponibilizou a colaborar. Guardou a surrada versão da Divina Comédia no enorme bolso da calça, ajeitou Tarcísio em um de seus ombros e segurou o estepe com dois dedos da mão direita.
Foram no borracheiro, o qual velozmente deixou o estepe como novo. Assim, nem dez minutos depois estavam na avenida da Unifran.
Tudo resolvido, agradecimentos ao gigante e, cansado, Tarcísio voltou para casa, dormindo até o outro dia.
De manhã, com os olhos semicerrado, visou o estepe antes de fazer qualquer coisa: estava murcho.
Respirou fundo, xingou baixinho e decidiu comprar pneus novos.
Os estouros que a vida dava…







Dizem que o estouro do pneu foi ouvido até pelos lados do Miramontes
Teve um leve tremor em Ribeirão preto senti que algo estava errado
Adorei o conto muito bom kkkkkk quem nunca passou por isso né ainda bem que ele conseguiu ajuda mas sempre bom lembra de conferir o estepe
Foi uma pena que o rasqueado não conseguiu resolver o problema no mesmo dia….. Mas se precisar novamente estou pronto para outra aventura….
Ass: rasqueado cuiabano….
Um novo conto, uma nova lição. A vida nos surpreende quando menos esperamos, tentamos resolver problemas e incidentes, quando achamos que resolvemos, a segurança é nossa inimiga, mas a solução pode tá sempre na próxima decisão. E frustrações fazem parte da vida também.
Me emocionei demais
Lembranças de um estepe em falta, sono e falta de vontade de trocar um pneu de noite kkkkk
Ótimo conto, fato cotidiano rabiscado em uma historia gostosa de se ler! Muito bom!!
E, assim, como os pneus…
Seguimos a vida…
Eu amo como ele começa no jazz e no talharim artesanal e termina com um gigante de cinco metros carregando um homem no ombro como se fosse terça-feira comum em Franca 😂