O que realmente importa.

Aula na Educação Infantil em uma turminha da Fase II. Estávamos às vésperas do recesso escolar, seria a última aula de Inglês antes dos quinze dias de pausa. Sempre começo a aula fazendo uma retomada das nossas últimas aprendizagens e finalizo explicando para as crianças sobre o que aprenderemos na próxima semana, uma maneira de incentivar e despertar a curiosidade.
Estava então dizendo que teríamos uma pausa para descanso quando uma das crianças disse: “minha mãe queria me levar ao shopping, mas ela não tem dinheiro. Está trabalhando muito para juntar e eu também, já tenho dois reais”. Minha emoção imediata foi de tristeza e vontade de ajudar a realizar aquele desejo dele quanto ao passeio. Fiquei alguns minutos nesse sentimento, sem encontrar o que dizer. Porém pensei na minha infância, quando não havia shopping na cidade. Lembrei das brincadeiras no quintal, na pracinha, de ir até a praça no centro da cidade no domingo pra ver a banda tocar.
Olhei para aqueles dois olhinhos puros ainda esperando o que eu iria dizer sobre aquela vontade de ir ao famoso shopping. E então respondi. Disse que era muito bom ele estar economizando para passear, mas que o shopping não é tão legal quanto parece. Que lá não dá pra correr, jogar bola e brincar bem livre. Ele continuou observando-me, com muita atenção ao que eu dizia. Perguntei se não havia uma pracinha por perto de sua casa. Com uma carinha estranha ele perguntou-me: “pracinha?”. Eu expliquei que uma pracinha era um espaço com campinho, árvores, ao ar livre, onde dá pra soltar pipa, jogar bola, correr com os amigos. Falei que eu gostava muito de sentar na pracinha pra ver os passarinhos e conversar com as minhas amigas. Um sorriso brotou de seus lábios e ele disse que sim, que tinha uma pracinha e que ele gostava muito de jogar basquete ou futebol, e que no basquete era o melhor de todos. Expliquei que no shopping não tem uma quadra pra jogar basquete igual tem na pracinha e que por isso eu gostava muito mais das praças. Ele não disse mais nada, mas notei que ficou pensando enquanto sorria.
Vivemos em uma sociedade na qual o “ter” é de suma importância na vida de muitas pessoas. Claro, precisamos “ter” algumas coisas para nossa comodidade e até sobrevivência, porém há muitas coisas que não são necessárias para nossa felicidade e outras, tão esquecidas, sem custo algum, são capazes de se transformar em memórias especiais por toda a vida. Minhas lembranças mais felizes da infância tiveram baixíssimo custo: carimbos de quiabo num pano velho, um aviãozinho de papel amarrado em linha, guerras de bexiga de água, piquenique de bolacha e suco. Havia no entanto o mais importante em cada uma delas: carinho e atenção. Eu entendo que nossa rotina é enlouquecedora e que é bem mais prático colocar uma criança na frente de uma tela, assistindo algum vídeo para que os adultos possam dar conta de suas tarefas e também descansar. Mas… que boas memórias estamos criando com nossas crianças? O que estamos ensinando os pequenos a valorizar? Estamos assistindo jovens deprimidos, fechados em seus quartos, sem motivação. Muitos de nós vivemos uma infância e juventude financeiramente difícil, com o básico e sem extravagâncias. Com isso, queremos oferecer “tudo o que não tivemos”, mas esquecemos que ter tudo quando se quer não é saudável. É preciso aprender sobre o “não”, aprender sobre esperar, sobre dividir, aprender a superar as frustrações. Não é possível aprender sem vivenciar.
Nesses dias de férias que ainda restam, desejo para cada criança que possa receber o olhar atencioso e carinhoso de seus responsáveis. Que os adultos consigam encontrar um tempinho na rotina diária para uma breve pausa: uma rodada de jogo de tabuleiro, um passeio na praça, um novo aprendizado, uns minutinhos para dançar e cantar uma música, para fazer um bolo, uma guerra de travesseiros. Um tempo para abraços, sorrisos e presença. Esse é o melhor presente que uma criança pode receber!










Eu adorava carimbos de quiabo e batata. Realmente, precisamos valorizar mais as coisas simples, onde reside a felicidade mais pura!