O psicanalista como ser político – PARTE 2

Na entrevista de hoje, continuação da última edição desta coluna, a psicanalista e escritora Maria Luíza Lana Mattos Salomão fala sobre aspectos em que a formação psicanalítica institucional se assemelha a uma ‘provação’ e como se desvela o seu caráter iniciático. É dela a assertiva de que (…) “a atmosfera – por vezes efervescente, por vezes humilhante, por vezes narcisizante – vivida na Instituição é parte do que constitui o psicanalista: há que vivenciar a travessia.” (…)
Nesta etapa da entrevista ela discute formas de o psicanalista poder atuar num viés político em contexto social, cidadão. Fala sobre a espera de um Messias, “sempre negado, sempre procurado” definindo o âmbito político atual, até mesmo literalmente falando, a partir do texto “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, em que Freud explica o fenômeno da ascensão de autocratas despóticos.
Remissão ao psicanalista britânico Christopher Bollas Bollas que diz, em seu livro “Sendo um personagem”, “há um fascista em cada um de nós – um perfil reconhecível por este estado pessoal”. Ele conclui que existem sementes do Estado fascista em nós quando nos assentamos em certezas e convicções; quando eliminamos a dúvida, o autoquestionamento.
Sobre essas e outras questões ela nos fala belamente nessa entrevista.
Folha de Franca – Comente a atualidade a partir do texto “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, em que Freud explica o fenômeno da ascensão de autocratas despóticos.
Maria Luiza Salomão – Esta questão demanda uma reflexão pessoal. Como vejo a minha atuação possível e como lido, de modo reflexivo, com mentalidades, inserida na cultura a qual pertenço, e ao momento histórico que vivemos hoje, no mundo e no Brasil.
Freud, antes mesmo de ver tudo o que Hitler e o nazismo representaram na história da humanidade, foi capaz de descrever este fenômeno social, baseando-se em um profundo anseio individual, universal, de ter alguém, um messias, um modelo ideal pelo qual se pode morrer, um modelo que se apoia na identificação primitiva da criança, do infante, na figura do pai todo poderoso.
Bion expandiu este estudo em experiências com grupos sem líder e verificou algumas formas de organização social além desta, da espera do messias. A busca de um bode expiatório. A fragmentação dos grupos em que se formam pares, aparentemente com características idênticas, apenas para destruir a possibilidade de ter um líder e impedir a formação de um grupo operante.
É muito difícil transformar um grupo, onde imperam ideias destrutivas como estas mencionadas por Freud e por Bion, em um grupo cooperativo e que realiza tarefas produtivas e criativas. Com apenas duas pessoas temos um grupo e é difícil operar transformações, sempre instáveis e sujeitas a recuos e regressões a estados de mente muito destrutivos.
Folha de Franca – A partir da perspectiva de psicanalista e, portanto, ser político, como você vê o Brasil hoje?
Maria Luiza – Enfim, respondendo como psicanalista, e como cidadã, vejo aspectos destrutivos operando, como a destruição do meio ambiente, dos órgãos que sustentam nossa cultura, inclusive afro-brasileira, que lidam com a cultura indígena, e um desmantelamento geral da Saúde – vide a desorganização, o mau uso do que foi orgulho nacional por décadas (vacinação e o estabelecimento do SUS). Na Educação – bares e restaurantes abertos e escolas fechadas!
Isso me entristece e angustia sobremaneira. Porque é um estrago virulento que vai demandar muitas outras décadas para restabelecer algum tipo de rumo em direção à construção.
Vejo com horror a proposta de armar uma população violenta, como venho descobrindo que é a nossa sociedade brasileira, quando aprofundamos nossa história, através dos séculos.
O povo brasileiro não é pacífico. Vejo com perplexidade as demandas, em grupos nas ruas, que beiram e buscam o totalitarismo.
Palavras de ordem que assustam a mim – pacifista que sou, e esperançosa de desenvolvimento psíquico, social e espiritual das pessoas. Como por exemplo “armai-vos uns aos outros”, frase escrita em camiseta de manifestante na rua, em recente evento. O que é isso, senão um cultivo do Ódio, um fomento às milícias, um estímulo à destruição?
Vivemos em um país estruturado em uma desigualdade socio-econômica crescente. Um sistema que ainda abriga mentalidades colonialistas, de domínio de uns sobre os outros, como se fosse pessoas fossem coisas que pudessem ser manipuladas.
Vemos um descaso com a vida, um desrespeito às diferenças, um fomento crescente à formação de divisões dentro da sociedade. Grupos que clamam uma forma de governo – o da Ditadura – na crença em um Ditador-Deus, messias salvador. Em pleno século XXI, depois da II Guerra, e tudo o que vimos acontecer de catástrofe, holocausto, perseguição aos judeus.
Quem são os judeus de hoje, é a questão que temos que pensar. Para sair deste círculo nefasto de guerras, de caça às bruxas, de bodes expiatórios.
Podemos mais como brasileiros.
Por outro lado, há evolução social na conscientização. Vejo movimentos brotarem com mais força: o movimento indígena, o movimento dos negros, a aceitação mais ampla das plataformas que reivindicam liberdade sexual, a criminalização de homofobia, e outras ameaças ás diferenças individuais que não interessam o Estado, a não ser para efeitos totalitários de domínio e extermínio.
Gosto – e preciso, como psicanalista – ter fé nas pessoas, na sua força pessoal de transformação. Mesmo sabendo que as “sementes do mal” existem em todos nós, como seres humanos, e que existem grupos malignos no seio de qualquer sociedade, e o Brasil não está excluído, claro.
Hoje o mundo democrático vê – estarrecido – o surgimento de palavras de ordem, o surgimento de líderes de extrema direita ao redor do mundo todo. O Brasil é parte deste movimento planetário. Estamos á beira de situações irreversíveis do clima com chance de extinção da espécie humana, e há bilionários dando voltas orbitais, ou procurando meios de morar em algum outro planeta que não no nosso planeta azul – a Terra.
Poetas visionários vislumbraram em ficções científicas, em distopias, estes cenários de destruição do ambiente e estas relações predatórias humanas – uns com os outros. Mas eu ainda (quero) vislumbro que, a par da destrutividade inerente à precária e complexa condição humana, há a capacidade criativa, e capaz de virar este jogo mortal, de perde-perde.
Assisti a um filme – Adú – espanhol, filme que recomendo, extraordinário, que coloca uma questão – talvez um fator importante desta crise mundial – o advento de 70 milhões de refugiados que migram de país a outro buscando melhores condições de vida, e que lidam com o rechaço violento dos países em integrar estes imigrantes.
No início do século XX houve movimentação semelhante, guardadas as proporções, e sabemos como os países se enriqueceram com a chegada dos imigrantes, principalmente o Brasil, com italianos, japoneses, árabes, alemães. O que acontece agora, quando 35 milhões destes refugiados são crianças e não encontram guarida?

Folha de Franca – Como você colocaria o dilema freudiano de Eros x Thanatos no contexto atual?
Maria Luiza – Freud disse em Mal Estar da civilização, em um último parágrafo, em 1937, dois anos antes de morrer, sua dúvida de quem iria vencer – Eros, o amor, ou Thanatos, a morte, a destruição da possibilidade de sustentar o amor, as ligações intra e entre pessoas.
Talvez estejamos, hoje, século XXI, no mesmo questionamento e duvidando da nossa capacidade amorosa. Em qualquer sociedade, agrupamento humano, na família contemporânea, Instituições (quaisquer que sejam), corporações, empresas, até mesmo no plano amoroso e de amizade – saberemos ser guardiães de metamorfoses necessárias para a sobrevivência de nossa espécie?.
Em qualquer época, o ser humano enfrentou a crueldade, o domínio de um ser por outro, a escravidão, o uso de seres humanos como se coisas fossem, é só ler a História da Humanidade para ver os requintes destrutivos que o chamado “ser humano” é capaz.
Por outro lado, a humanidade sobreviveu a tudo isso, e tem se organizado, o que também demonstra uma capacidade amorosa e criativa, capaz de metamorfoses.
Fico com este ato de FÉ – talvez dos bebês que nascem e veem o mundo pela primeira vez – há que acreditar na compaixão e na solidariedade, na empatia e na necessidade que temos de nos amparar, sustentar, desenvolver a partir do vínculo que temos com o outro.
Este Outro do qual dependemos e que continuamente nos desafia, por não ser espelho, por mostrar a alteridade essencial que pode ser complementar e não necessariamente adversária.









Ficou inteira a entrevista! Q respeito fabuloso! Obrigada, Vanessa!
Excelentes considerações! Editá-la seria uma mutilação.
Abraço!
Adorei a entrevista 🙂 parabéns para as duas!
Obrigada, filha! Bjs