Meu querido “ex”: para aquelas pessoas que escolhem ser um eterno sorriso em nossas vidas

Hoje tinha tudo pra ser um “dia daqueles” depois de uma noite sem dormir, numa crise alérgica absurda, que ainda não passou, e um dia cheio de obrigações.
Levantei-me com a pior cara possível e não fiz questão de escondê-la com maquiagem. Vesti qualquer roupa, a primeira que apareceu, peguei minha bolsa, mil papéis e tudo o mais que iria precisar e fui me irritar ainda mais (se é que fosse possível), dirigindo até os lugares todos em que necessitava ir. Quase acabando a etapa das tarefas da manhã, entrando no carro para ir almoçar, escuto alguém me chamando, aquela voz familiar há muito ausente dos meus dias. Virei-me e de longe vi seu sorriso, sempre tão contagiante, e não consegui deixar de sorrir também.
Ele fora um daqueles casos raros de namorados (pra mim o único), com quem consegui continuar “sendo só amigos”. Tivemos um relacionamento há muitos anos e que foi incrível. Não me lembro de nenhuma briga, as minhas lembranças estão carregadas das nossas gargalhadas, das brincadeiras, da aposta pra ver quanto tempo ficávamos nos beijando sem parar (contávamos o tempo pelas músicas que íamos ouvindo). Acredito que não tenhamos ficado um único dia sem nos encontrarmos, vivíamos colados, envolvidos em momentos de diversão e paixão.
Então ele veio ao meu encontro e me deu aquele abraço que toca a alma, quente, demorado e cheio de um carinho que o tempo nunca será capaz de nos roubar. Retribuí e o abracei forte, olhos fechados, aspirando seu cheiro e numa vontade de nunca mais sair dali. Pela demora, acho que também era a vontade dele. É engraçado pensar como que, de um dia para o outro, um possível amor ou paixão deu lugar para uma bela amizade.
Na época, nossas diferenças e ideais pesaram para que o relacionamento continuasse, mas nunca foram um empecilho para que haja uma festa a cada vez que nos reencontramos. Nunca houve raiva, mágoa ou qualquer sentimento negativo. Isso porque o carinho que sentíamos um pelo outro, nos impediu de dizer qualquer coisa que pudesse causar dor, tristeza, lágrimas. Apoiamos um ao outro por um bom tempo, de maneira mais presente, pois a vida assim permitiu. Assisti seu casamento, vi seus filhos nascerem e crescerem e ele também acompanhou o desenrolar da minha vida. Enfim, cada um seguiu seu caminho, o que nos afastou fisicamente depois de um tempo. Ainda assim, carregamos um ao outro no coração, num lugar muito especial, e cada vez que a vida nos permite esses reencontros, eu agradeço por tê-lo conhecido. Por mais que o tempo passe, ele continua aquele “moleque terrível” com quem eu rolava pela grama brincando de “lutinha” e jogando futebol, que me obrigava a dançar com ele no meio da rua, que me jogava pra cima e me pegava de novo nos braços, com quem eu fazia guerras deliciosas de sorvete, que me escrevia… bilhetes, cartas, músicas… que me levava flores roubadas pelo caminho. Ele continua com os mesmos olhos negros encantadores, que sorriem junto com seus lábios.
Depois que conversamos e nos despedimos com mais um longo abraço, comecei a pensar sobre como algumas pessoas escolhem ser em nossas vidas uma eterna alegria. Nos deixam boas lembranças, daquelas que quando buscamos nas gavetas da memória, sempre temos um sorriso nos lábios e suspiros que nos escapam do peito. São pessoas que, por mais que o tempo esteja frio e cinzento, quando surgem, brilham mais que o sol, iluminam e aquecem nosso dia, nos fazem sorrir e derrubam todas as nossas máscaras, tristezas, irritações.
Hoje tinha tudo pra ser “um dia daqueles”, mas então, quando nos abraçamos, quando ele envolveu minha alma com tanto carinho, meu dia se tornou o melhor entre os últimos tantos dias. E quando o vi se afastar, entre os carros, sob o céu azul sem nenhuma nuvem, eu, com os olhos marejados e um sorriso de alívio, ainda consegui sussurrar… “Obrigada!”










Que delícia de texto! Tão bom quando nossos relacionamentos são saudáveis. Amigos são presentes muito especiais.
Quanta leveza e doçura!