Colunas

Krankenhaus e suas investigações

Num compilado de anotações, regiamente averiguadas em todas as auroras, a jornalista Krankenhaus conferia a curta e única entrevista que fizera com o poeta Marte.

Ele começara com uma frase clichê de memórias adormecidas, naquilo de “Me lembro como se fosse ontem”. A jornalista cogitou em florear, só que é aquilo, né: não seriam as palavras do poeta.

Emaranhou os dedos pelas madeixas prateadas, colocou os óculos sobre a mesa, perpassando os quase trinta anos de carreira – quase tudo em Franca – e, bem, deixe estar.

Depois Marte relembrara a data, salientando o domingo, Dia dos Pais, como o início de sua problemática. Krankenhaus recolocou os óculos no rosto para ter certeza de que escrevera sobre aquilo. O poeta Marte alegara que caíra em algo parecido com um buraco negro nas proximidades de Miguelópolis.

“Não se parecia com, era realmente um buraco negro”, afirmara.

Ele falara com tanta certeza, uma imposição na voz, que Krankenhaus quase não duvidou. Mas, como boa jornalista que era, insistiu na pergunta, contudo dessa vez usufruindo de sua esplêndida capacidade de obrigar as pessoas a dizerem apenas a verdade. Marte repetira a afirmação sem titubear.

– Se ele acredita que é verdade, não tem muito o que fazer – exclamou Krankenhaus para si, olhando o teto e se espreguiçando.

Mudou o foco da atenção para o computador, analisando as colunas que seriam publicadas naquele dia, no Relatos Sinceros, jornal que fundara com um sócio e do qual era diretora. Tudo correto, ok.

Segurou e depois soltou a respiração aos poucos, mordendo levemente os lábios no final, e decidiu que não levaria a entrevista para os olhos públicos. Talvez, algum dia, escrevesse uma crônica sobre a “viagem ao passado”. Segundo o poeta, voltara no tempo bem na época em que os Irmãos Maristas se preparavam para a vindoura fundação do Colégio Champagnat. Isto era antes de 1917! Marte possuía provas?

“Sim, tenho”, respondera o poeta, pedindo licença para acender um charuto e, por fim, lhe dar todas as orientações comprobatórias da tal viagem.

A curiosidade que atiça a investigação.

Vestiu um jeans, uma blusa confortável, tênis e bolsa cheia de canetas e bloquinhos de notas. Iria conferir, certamente. Nunca que sair de casa era do ponto A ao B. Franca sempre tinha notícias a serem anotadas e fotografadas. Krankenhaus saiu de carro para a rua e, quando deu por si, as construções do bairro Vera Cruz se destacavam ao lado da rodovia Cândido Portinari, marcada por um acidente de caminhão. Voltou, desviou longe, passando pela Santos Dumont e contornando o shopping.

Quando estava pelos lados do bairro Noêmia, percebeu que era bem tarde, quase escurecendo. Fez ligação a uns conhecidos no colégio e conseguiu permissão para o visitar à noite. E foi direto para lá? Não!

Dirigiu rapidinho até o UniFacef para prestigiar o lançamento de um livro organizado pelo fotógrafo Lodewijk. Quase duas horas depois, estacionava próximo ao Colégio Champagnat.

O vigia noturno a recebeu e a deixou à vontade. Mesmo no escuro, com a precária luz do celular, pelas explicações de Marte, ela sabia onde ir.

Engoliu em seco, sentindo o estômago clamar por um dia todo de ausência alimentar e o cérebro aceitando uma realidade:

Krankenhaus encontrara uma prova incontestável da viagem no tempo que o poeta alegara.

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

2 Comentários

  1. A senhora Krankenhaus experimentou a lógica, examinou a metafísica e os paradoxos de mover-se pelo tempo?

    Será que ela descobriu como a causa e o efeito funcionam e, de que maneira a identidade pessoal sobrevive as mudanças geradas pela “viagem no tempo”?

    “O passado e o presente são reais, mas o futuro continua indefinido”.

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