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Ensaio – Anônimos agressores

Por que as chacinas perpetradas em escolas têm se tornado alarmantemente frequentes nas últimas décadas?

Os jornais brasileiros publicaram na última semana a notícia de que uma jovem de 19 anos, do Distrito Federal, foi autuada como suspeita de planejar um atentado no colégio onde estuda, no Recanto das Emas, em Brasília.

A mãe da garota afirmou que ela sofre de transtornos psiquiátricos, diagnosticada como esquizofrênica e bipolar. Foram encontrados na residência da jovem simulacros de armas de fogo que estariam sendo utilizados como treinamento; duas máscaras; celulares e cadernos de anotações.

Essa investigação se iniciou a partir de mensagens trocadas pela internet interceptadas por serviços de inteligência norte americanos, que informaram então à polícia do DF sobre os planos do massacre – tais serviços trabalham com o cruzamento de dados algorítmicos e palavras-chave e têm prevenido grandes tragédias.

Saiba mais sobre esse trabalho dos serviços de inteligência nesse link: https://www.correiobraziliense.com.br/cidades-df/2021/05/amp/4926203-saiba-tudo-sobre-o-plano-de-massacre-em-uma-escola-do-recanto-das-emas.html

Pouco antes, a notícia do massacre de Santa Catarina em que três crianças, uma professora e uma monitora foram mortas a facadas numa creche chocou o país. Outros casos de jovens que cometeram chacinas em escolas como em Suzano (SP); Realengo (RJ); em Columbine (EUA); em Oslo (Noruega) também abalaram o mundo e colocaram a humanidade a repensar o que possa se passar em tais circunstâncias. Em comum, todas essas ocorrências possuem o fato de terem sido cometidas por jovens mental e emocionalmente comprometidos, cujo potencial destrutivo, no entanto, passou despercebido pela família ou pela escola.

Faltou olhar? Faltou refinar o cuidado? Certamente.

Seja da família, seja da escola. O livro de Lionel Shriver, “Precisamos falar sobre Kevin”, é uma ficção com lastro na realidade e que tornou-se filme ilustrando com precisão a gênese o desenvolvimento da psiquê de um jovem sociopata que comete um massacre escolar.

Ainda que extremamente inteligentes e ardilosos, via de regra, tais jovens sinalizam paranoia (acreditam em inimigos invisíveis), radicalismos, pouca flexibilidade, delírios de poder e, ao mesmo tempo, sentimentos de desvalor; demonstram disfuncionalidades comportamentais, agressividade.

Em seu funcionamento mecanizado, burocrático, as escolas têm deixado a desejar no que tange às questões psicológicas, relegando as relações humanas à esfera da desimportância, sem priorização,nem tampouco preocupação efetiva com tais aspectos para os devidos encaminhamentos – escolas públicas, aliás, não contam com psicólogos em seus quadros.

A família, enquanto instituição, vive uma crise sem precedentes, desarranjada, sem figuras parentais claramente delineadas do ponto de vista simbólico, de modo que os filhos não possam introjetar noções de autoridade, hierarquia, limites.

Em seu livro “Os homens do terror: ensaio sobre o perdedor radical”, o ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger faz, a meu ver, o melhor perfilamento para a reflexão sobre o ‘tresloucado solitário’ ou o ‘perdedor radical’ ou, ainda, ‘agressores prepotentes anônimos’. Seres solitários que se gestam na invisibilidade. “Será que há traços comuns entre o tresloucado solitário, que numa escola dispara em seu redor e o criminoso de uma organização islamita clandestina? A mania das grandezas e a sede de vingança, a loucura humana e o desejo de morrer constituem uma mistura altamente explosiva na procura desesperada de um bode expiatório, até que o perdedor radical se revela e se castiga a si mesmo e aos outros e pode explodir a qualquer momento”, diz o autor, que adiante confirmará contundentemente tal tese. Quando se investiga a vida pregressa desses jovens assassinos e terroristas, tem-se quase um padrão: figuras que se isolam, tornam-se invisíveis, alimentam seus fantasmas (os quais, inclusive, os justificam em seus atos por sentirem-se injustiçados e incompreendidos) e concentram a sua energia e espera pela sua hora. Explica Enzensberger que a única saída de seus conflitos de ‘os outros são culpados e eu sou responsável’ (isto é, o humilhado colocado como culpado da sua própria humilhação) seria pela “fusão da destruição com a autodestruição, da agressão com a autoagressão. Por um lado, o perdedor experimenta no momento da sua explosão uma plenitude única de poder. O seu ato permite-lhe triunfar sobre os outros, aniquilando-os. Por outro lado, dá-se conta do reverso desta plenitude de poder, da ideia de que a sua existência podia não ter valor, pela ação de lhe pôr fim.

Um bônus é o fato de o mundo exterior, que nunca antes queria saber dele, passar a dar-lhe atenção a partir do momento em que ele agarra uma arma”. O crime então se desvelando como a sua “hora da estrela”.

Leiam Enzensberger para a compreensão de quem são, por que matam e morrem os terroristas de hoje. Um livro fundamental para começarmos, enquanto sociedade, a pensar sobre como estamos criando pequenos monstros silenciosos em busca de uma celebridade letal.

Vanessa Maranha

É Psicóloga, Jornalista, Escritora Premiada, colunista da FF.

2 Comentários

  1. Obrigado, Vanessa Maranha, por abrir esse diálogo dos embotados que desejariam ser botões, de uma flor que fosse, e que, no deserto social, em casa sua mesmo, não vêem quem enterre a semente, não sufoque a muda da plantinha na terra, desconhece o enxerto, temendo o espinho do que não vingou, vingando-se de si próprio na poda ou arranquio da existência do outro, porque lhe é semelhante. Seu termômetro é estetoscópio.

  2. Grata pela proposição da pauta e leitura precisa, Dr. Theo!
    Semear a reflexão é preciso, se desejamos alguma mudança! Abraço!

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