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Empresas lucram com o massacre em Gaza

A guerra em Gaza, que já matou mais de 65 mil civis palestinos desde outubro de 2023, não é apenas uma tragédia humanitária. Segundo a jurista italiana Francesca Albanese, relatora especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados, trata-se de um genocídio sustentado por uma rede internacional de interesses corporativos.

Em seu relatório apresentado ao Conselho de Direitos Humanos da ONU em julho último, intitulado “Da Economia da Ocupação à Economia do Genocídio”, Albanese denuncia mais de 60 empresas multinacionais por cumplicidade direta ou indireta com crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

“Enquanto a vida em Gaza é devastada e a Cisjordânia sofre ataques crescentes, este relatório mostra por que o genocídio de Israel continua: porque é lucrativo para muitos”, afirma Albanese.

A engrenagem
corporativa
do genocídio

O relatório detalha como empresas de tecnologia, armamentos, logística, turismo, finanças e energia estão integradas à máquina de guerra israelense.

A jurista italiana denuncia que Microsoft, Alphabet (Google), Amazon, IBM, Palantir Technologies fornecem infraestrutura digital, algoritmos de vigilância e inteligência artificial usados em operações militares.

Lockheed Martin, Leonardo S.p.A são os fabricantes de caças e armamentos utilizados nos bombardeios a Gaza, segundo ela.

Caterpillar Inc, HD Hyundai fornecem escavadeiras e equipamentos usados na demolição de casas palestinas.

BNP Paribas, Barclays, BlackRock, Vanguard, PIMCO financiam títulos do Tesouro israelense que sustentam o orçamento militar.

Booking e Airbnb operam em assentamentos ilegais na Cisjordânia, ajudando a normalizar a ocupação.

Carrefour, AP Moller–Maersk: mantêm operações em territórios ocupados, violando o direito internacional.

O relatório aponta ainda que o
MIT (Universidade norte-americana de tecnologia) e algumas universidades europeias colaboram com projetos militares israelenses, como o controle de enxames de drones.

“Genocídio, ao que parece, é lucrativo”, denuncia Albanese. “A cumplicidade exposta no relatório é apenas a ponta do iceberg; isso não terminará sem responsabilizar o setor privado, incluindo seus executivos.”

“O que eu exponho não é uma lista, é um sistema. E isso precisa ser desmontado”, afirma Albanese.

Retaliação dos
Estados Unidos

A resposta do governo Trump foi imediata e agressiva. Albanese teve seus bens congelados nos Estados Unidos e seu visto revogado.

“Venho de um país com uma tradição de ilustres juristas (…) que defendem a justiça a grande custo e, muitas vezes, com a própria vida. Pretendo honrar essa tradição”, respondeu Albanese.

A Casa Branca exigiu sua demissão da ONU e ameaçou represálias institucionais. A ONU, por sua vez, defendeu a relatora e pediu a revogação imediata das sanções, classificando-as como “um ataque descarado” à independência dos mecanismos de direitos humanos.

Apoio global

O relatório foi entregue ao Tribunal Penal Internacional (TPI), que já investiga Israel por crimes de guerra. Albanese pede que executivos corporativos sejam responsabilizados por cumplicidade em genocídio, apartheid e anexação ilegal de território.

A Comissão de Inquérito da ONU concluiu que Israel cometeu quatro dos cinco atos que caracterizam genocídio, incluindo assassinato em massa, imposição de condições de vida destrutivas e danos físicos e mentais à população palestina.

Países como África do Sul, Colômbia e Irlanda apoiaram publicamente o relatório e pressionam por sanções. A Conferência Ministerial de Emergência sobre a Palestina, realizada em Bogotá, reforçou o apoio à atuação de Albanese e à Corte Internacional de Justiça.

Omissão da imprensa

Apesar da gravidade das denúncias e da repercussão internacional, a maioria da grande imprensa brasileira se calou. Veículos como Globo, Folha de S.Paulo e Estadão não deram destaque ao relatório, tampouco entrevistaram Francesca Albanese ou exploraram suas implicações jurídicas e econômicas.

Algumas publicações pontuais surgiram em Agência Brasil, Correio Braziliense, Valor Econômico, mas sem a profundidade que o tema exige. Nenhum editorial foi publicado. Nenhuma manchete de capa. Nenhuma investigação jornalística sobre as empresas citadas.

Francesca Albanese, que arriscou sua carreira e segurança pessoal para denunciar um sistema global de lucro sobre vidas palestinas, não foi ouvida pela imprensa brasileira como deveria. E o silêncio, neste caso, também é cumplicidade.

Antônio Coutinho

Antônio Coutinho é jornalista e autor de "Couro cru: origens do polo calçadista de Franca (1820-1950)".

2 Comentários

  1. A vida, que só é valorizada quando é a própria, transformou-se em mercadoria nas mãos de grandes empresas — e o mais alarmante é que muitos já naturalizam essa desumanização.

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