Ela da pra qualquer um, maldita Anora

Por Naiara Alves
Na semana de comemoração pelo Dia Internacional da Mulher, um de nossos grandes feitos foi questionar talento e mérito de Mikey Madison, vencedora do Oscar na categoria de melhor atriz por sua atuação no filme Anora.
Somamos o clima de copa do mundo a um domingo de carnaval e reduzimos o feminismo a mera alegoria. Em uma fração de segundos, nos transformamos nos maiores críticos da indústria cinematográfica, pautando argumentos em causas politicamente corretas para soar plausível condenar um longa que conta a história de uma profissional do sexo.
Evocamos também o etarismo para manifestar revolta com os 25 anos de Madison, como se fosse inverossímil conquistar um grande prêmio nessa idade. Começo por mim, em um grupo de WhatsApp repleto de amigas feministas “não saiu nem das fralda ainda”. Não tardou até que o susto diante do meu próprio veneno me ferroasse a pele.
Foi o ponto de partida para eu me desafiar. Busquei críticas que transcendessem os clichês “história de uma puta”, “comédia pastelão” ou “mulher que espera ser salva por um homem”. “É uma história muito triste”, foi dito em um vídeo e, aí sim, despertei: sou bem mais íntima da tristeza que de qualquer alegria.
Li sobre Sean Baker, diretor do longa. Até então, só havia acessado comentários que afirmavam se tratar de mais uma produção dirigida por um homem branco com o intuito de hipersexualizar corpos femininos. Mas o tema principal do trabalho de Baker habita as margens da sociedade americana – o que fica evidente em Anora.
Nessa altura do texto, já assisti ao filme – e gostei. Considero a obra um convite para mergulharmos nas camadas desses corpos tão vívidos quanto descartáveis. Ani não queria ou esperava ser salva por um homem. Seu desejo foi sinalizado em uma das primeiras cenas, quando a amiga pede para ver suas unhas, enfeitadas com borboletas. Nas garras, o sonho da mudança.
Vibrei com os pulmões para que Fernanda e Ainda estou aqui levassem o prêmio em todas as categorias indicadas, e me senti um tanto frustrada com parte do resultado. Esse texto não é uma ode aos méritos do Oscar. Como qualquer outra premiação, os critérios são questionáveis. O que me assusta é o massacre.
Bárbara Krauss, do Instagram @bdebarbarie, fez uma publicação pertinente a respeito, cujo título é Os tempos mudaram: agora são as mulheres empoderadas que apedrejam as putas. No fim das contas, agimos como a família de Ivan, e nosso feminismo é um espelho da echarpe vermelha, cuja função é adornar o pescoço de mulheres – uma bela coleira – mas que, no corpo de garotas como Ani, se transforma em mordaça e silenciamento.
Em contrapartida, vale ressaltar que nenhum sujeito do sexo masculino teve sua vitória tão questionada. Pensar sobre isso me convoca uma frase que li dias atrás: “como mulher, você sempre será jovem ou velha demais para as coisas, porque a idade perfeita é quando você é homem”.






