Cotiah

Em um choro contido, Cotiah nascia ali na rua Júlio Cardoso, nos quartos da Santa Casa. Era o fim do terceiro trimestre, dia três e a menina dava o ar de sua graça com apenas seis meses.
– Leve para casa, não há o que fazer – desacreditavam os médicos entregando a criança para uma mãe cansada, mas retumbando em esperança.
Muito amor, leite materno e caldo de feijão fizeram a receita para que Cotiah crescesse forte e bastante saudável. E tinha pressa, viu; querendo sempre adquirir rápido conhecimento e fazer coisas novas.
Teve uma vez, ao retornar do primeiro dia de aula na escolinha, ficara muito brava, pois não tinha aprendido a ler! Pra quê servia escola? Não iria mais.
Carinhosamente e segurando o riso, a mãe colocou uma cheirosa e suculenta refeição para o jantar na frente da filha. Chamou o pai e o irmão afim de povoarem a mesa e, depois da barriguinha cheia, explicou para Cotiah sobre tempo e paciência.
Nem sempre era hora de calma e conversa. Um dia, vai lá saber o porquê, Cotiah cravou os dentes no braço de sua mãe. Com mil coisas na cabeça, a mulher se abaixou e imitou a filha: mordeu o braço da menina.
– Dói, não é? – questionou arqueando as sobrancelhas para Cotiah.
Ela nunca mais mordeu ninguém.
Anos mais à frente, Cotiah teve a certeza de que gostava das artes, sobremaneira as cênicas. Fez curso no Senac, apresentações no Sesi e se juntou a um grupo de improviso teatral.
Oras, mas isso não aquietou sua mente. Tentava o que via, fazendo aulas de guitarra, malabares, contorcionismo, ioga. Tentou copiar o Mimicão nas suas mímicas e aprendeu um pouco de palhaçaria com Passer Domesticus.
Gostou muito! Conseguiu um nariz de palhaço todo rosa e vamos ao figurino. Macacão azul sobre uma camisa rosa; Maquiagem? Vai essa aqui – pó de estrela cadente com pétalas de cerejeira. Presilha no cabelo e hora de se apresentar!
Pensou, pensou e escolheu a praça Sabino Lourenço para sua estreia.
Chegou nervosa, mas disfarçando muito bem com sorrisos e acenos. Pegou um espelho, pouco maior que sua mão, e de lá puxou um picadeiro de lona e o esticou ao lado do coreto. Ali já chamou a atenção de alguns. Olhou distraída ao ponto onde a estátua do Menino Tirando o Estrepe ficava… uma lástima à história francana…
Se aprumou; do espelho tirou várias bugigangas e acabou escolhendo três bolinhas. As jogou no ar, que se incendiaram enquanto fazia malabares. Obviamente se fez plateia!
Juntou alguns compridos balões e começou a torcer em algo. Nesse momento, uma garotinha de tranças se aproximou e preparou os dentes para uma mordida no braço da palhaça. Antes que a boca se fechasse, Cotiah moldou um esquilo de balão e ele correu pelo ombro da mordedora, que caiu na gargalhada contagiando a todos.
Orgulhosa do que acontecera, novamente Cotiah estendeu a mão pelo espelho, puxou um jaleco branco e o vestiu.
– Podem me chamar de doutora Cotiah – exclamou pedalando sobre um monociclo. – Médica de risos! Mesmo que tudo pareça perdido, sempre há o que fazer!
Abriu uma sombrinha roxa e a girou com toda a força, deixando subir aos céus, indo para onde os ventos soprassem.










Ahhh que emocionante! Adorei conhecer a Cotiah! Dra. Cotiah!
Gratidão pela Linda supresa!!
Caso não saibam leitores hoje é meu aniversario também 🥰
Carambaaaaa eu sorri com a doutora que encanto que fofura