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Conto de um minuto…porque o tempo é escasso

Por Regina Ribeiro

Ela, por um minuto se pega pensando que já não sabia mais sobre o amor romântico, talvez fosse o destino ou o universo dando sua volta e reclamando seu riso, sua intenção de ser feliz, suas cartas de amor não enviadas e sua filosofia, que aguarda a hora de ser posta na roda e discutida.

Talvez ela nunca venha a saber de onde veem os homens que conquistam as mulheres, que ajeitam os sentimentos e que de algum modo as tornam responsáveis pelo outro, mas não responsável pelo próprio amor, por isso ficam perdidas… as vidas, as chaves do carro, os caderninhos de nota, os documentos da casa. Com tudo isso não é possível perder-se um do outro, visto que procurar pelos objetos, pelos sonhos abandonados e pela certeza redundantemente absoluta do amor incondicional, torna-se inviável e supostamente desnecessário. Constroem-se a barreira de resistência a duas mãos, coloca-se o cadeado na corrente do portão que separa tudo, com duas cópias de chave. E por fim deixa-se de comer o que gosta para não satisfazer o próprio gosto, e dorme-se torto para dar braço ao abraço. É o seu próprio conto de fada ao contrário, a delicadeza do amor que já acabou. Devaneia.

A cópia das iluminuras nas paredes a olham na sombra de fim de tarde, ela não olha de volta, transita de um lado para outro ignorando sua presença, elas fazem barulho na sua mente, mas ela não responde. Olha os desenhos feios e mal feitos que faz, e que estão pendurados junto de quadros importantes, de diplomas do ensino médio, de fotos felizes de outros tempos, e da folhinha calendário do ano, já anotados nela o dia do cardiologista, o aniversário da tia Catarina e o feriado prolongado.

Pensa em fazer uma xícara de café, tem ainda alguns minutos até o alvoroço recomeçar. Enquanto aquece a água, recolhe as meias do chão, guarda o caderno de poesia, apaga os vestígios do pensamento impuro, organiza o prato com os enfeites da mesa, abre cortinas, perfuma a casa, as partes e o banheiro. Todo o conjunto pronto para a chegada da rotina diária, semanal, mensal, eterna. Chora. Cortando cebola para a janta. Não sucumbe. É uma mulher.

                                                                         

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