Benevolente

Era cedo no bairro Vila Formosa. Bem, o mais cedo possível para que a menina Benevolente estivesse na rua, atravessando a Lauriano Antônio do Vale até o pequeno ipê que se preparava para ser uma árvore.
Ele estava com folhas ímpares de um lado e pares de outro! Inconcebível aos pensamentos da menina.
O ipê fora avistado por Benevolente na tarde do dia anterior, quando voltava da escola segurando a mão de seu pai. Contou e recontou as folhas e quis executar a pequena poda.
– Para de bobeira – dissera o pai lhe puxando em direção à casa.
Teve uma terrível noite, acordando intranquilamente dezenas de vezes. Estava errado! Tudo estava errado. Era preciso equilíbrio de um lado e do outro.
Quando, depois da infinita espera pelo pai sair para trabalhar, conseguiu deixar o ipêzinho a seu gosto, Benevolente flutuou por alguns segundos no ar de tão feliz e aliviada que ficara.
Semanas depois, se mudaram para o outro lado da cidade.
E aí o tempo veio e fez Benevolente crescer.
Apaixonou, para combinar com o ipê citado, na flor da juventude. Aquele rubor gostoso que marca o rosto ao ver a pessoa amada; e era lógico que teve casamento e duas pimpolhas no carretel. Par em par, equilíbrio tão leve…
Em sua graciosidade, Benevolente sorria ao mundo que lhe saudava bom dia, mesmo em tempos difíceis como na época que trabalhara sendo caixa de mercado, ouvindo diariamente “’tá caro, em”, “essa fila não anda”, “rápido, que estou atrasado!” Deixava carimbado o sorriso e vamos à uma luta de cada vez, um leão por dia.
Não existe ninguém perfeito, nem é preciso salientar. A obsessão ao controle, pelo destacado equilíbrio fazia-se presente na vida familiar, ocasionalmente até fora dela.
Num desses dias que todos iam pagar conta no banco, pois nada se resolvia pela internet, estava Benevolente na fila, logo atrás de uma mulher mais velha que vestia roupas escuras. Um pelo branco faiscava no ombro direito da senhora, travando a visão de Benevolente para aquele único ponto, como criança querendo doce. Equilíbrio!
Zero era neutro, não contava. Conseguiu outro pelo e o colocou, delicadamente, do lado direito de sua colega da fila. Alívio!
Essas coisas são perenes. Sempre há perdas de controle e para Benevolente ocorreu quando trabalhava em um edifício na rua Paulo César Pacheco.
Aquele em que se apoiara, que construíram um lar e de mil promessas… esse mesmo lhe fizera sentir como chumbo, cravada no chão sem caminhos a seguir.
Ela chorou, se recolheu… Suas filhas, adultas e muito bem formadas, mitigaram onde foi possível… Sugeriram que passasse um tempo na casa paterna.
Abraço de pai, se esconder em um quartinho que lhe forneceram e deixar todo o controle se esvair de suas mãos…
Vários e vários meses se passaram até decidir se aprumar. Em um domingo, colocou a netinha no carro – espantando todo mundo quando descobriam que era uma avó tão moça – e, inconscientemente, voltou ao velho bairro de outros tempos.
O ipê, amarelo como o sol, estava demarcando todo seu esplendor para Benevolente. Enorme nos incontáveis galhos, folhas e flores.
Ele não estava simétrico, não havia um equilíbrio perfeito.
– Mas é tão belo – refletiu a menina da Vila Formosa.
Sentiu seus pés bem leves e flutuou um pouquinho.







Não deu não consegui guardar as lágrimas 😭
Lá na Formosa dizem que esse ipê foi plantado pelo pai da Núbia Poison
O controle que queremos nem sempre vem e nem sempre é o que precisamos, esse rabisco me vez pensar e questionar, me lembrando de outros rabiscos. Ótimo final, espero que todos encontrem esse equilibrio e que consigam flutuar, mesmo que pouquinho sem ser arrastado ao vento e viver apenas voando.
O ipê nos lembra que as vezes precisamos de poda .
Nos lembra também que nossa beleza nasce da presença de Deus e não das circunstâncias que enfrentamos no dia a dia . Mesmo depois de decepções, Deus continua capaz de fazer florescer aquilo que parecia morto .
As pessoas costumam admirar uma árvore carregada de flores , sem imaginar quantas noites ela passou sendo silenciosamente regada e muitas vezes com lágrimas.
Nem tudo tem que estar no nosso controle, na verdade nada está, esse cinto e uma lição de que não precisamos estar no controle, apenas apreciar.
Que história linda,os ipês são tão lindos principalmente quando florescem muitas pessoas estão ocupadas de mais para apreciar o quão bonito é na cidade de franca tem vários lindos