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A morte do livro

Se formos ser sinceros, o livro é um assassino natural. Algumas árvores são derrubadas para fabricá-lo. Mas, não serei politicamente correto a ponto de ‘cancelar’ ou condenar o livro por ‘arvorecídio’.

Apesar de sua origem vegetal, o gostoso aroma de livro novo é químico, uma droga viciante: ‘pegue meu dinheiro que eu preciso cheirar’.

O velho livro, mofado, páginas amareladas, possuindo pequenos furos feitos por leitores marginais e com alterações sofridas pelo espaço e pelo tempo, me agrada, não fosse meu terrível hábito de ser alérgico.

Ambos atiçam leitores naturais, artificiais e estéticos da leitura.

No bairro onde moro, quase todos os dias de manhã, eu topava na rua com um homem voltando do mercadinho. Um sujeito típico do interior, usando camisa com alguns botões abertos, calça social surrada e chinelo de dedo nos pés. A peculiaridade do caipira é que ele carregava uma sacolinha de compras numa mão e segurava um livro na outra. O homem caminhava lendo.

Nos cumprimentávamos com um ‘bom dia’, que aqui nessa intrincada divisa de MG com SP é dado ininterrupta e repetidas vezes até o meio-dia (passou um minuto já é ‘boa tarde’).

Nunca perguntei qual livro ele lia, não ousaria atrapalhar o seu ritual além do cumprimento protocolar.

Por questões de rotina, passei muito tempo sem encontrá-lo nessa pequena jornada mercado e casa. Vivemos naqueles tempos que não observamos nem a nós mesmos, que dirá o próximo.

Hoje o encontrei. Mas, infelizmente, foi no velório do livro. Dia triste!

Ele andava com suas compras em uma mão e na outra carregava o celular, o coveiro.

Um coveiro competente, aliás, pois além de sepultar o livro, enterrou junto o ‘bom dia’ do velho caipira.

Nunca saberei qual livro ele lia. Espero que tenha sido uma boa obra, pois mesmo sendo autor de alguns ‘arvorecídios’, como juiz justo que sou, vou inocentá-lo.

Michel Pinto Costa

É Oficial de Promotoria do Ministério Público do Estado de São Paulo, em Franca, e bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Franca.

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