A janela no ar

Quando se está na Estação, ali onde era a Mogiana, há muitos caminhos que lhe permitem perambular por uma das Três Colinas ou mesmo ir de uma à outra.
Oras, descendo pela rua General Carneiro com certeza e com considerável rapidez, chegaria no centro em algumas quadras ao redor do Terminal Ayrton Senna; caso se empolgasse, atravessaria a colina, desembocando na Major Nicácio.
Também era possível rodar pela av. Antônio Barbosa Filho, bastando, na citada Carneiro, virar à esquerda pela rua Homero Pacheco Alves e seguir até o cruzamento com o outro general: Osório.
Como todo cruzamento da cidade, ou assim era pra ser, há um pare. Ao lado direito, uma edificação de dois andares se projeta na esquina. Simples, não se destacando. Porém, na fachada posterior, que é a visível a quem venha pela Homero, verá a moldura de uma janela, no canto do segundo andar.
Dizem que ela existe muito antes da edificação de dois andares, da Chá Verde, da bruxa Carmesim ou mesmo dos bandeirantes em suas rotas de exploração e comércio. Não a moldura, mas a janela, o espaço no ar como um reflexo no espelho, um ponto profundo num lago.
Os mais velhos, naquilo de quando tudo era mato, são veementes em repreender quem se atreve a manter os olhos na janela. Sempre uma história, uma lenda que se alastrou por Franca: “é uma boca, ela te devora”, “um olho que vê e julga seus pecados”, “perdição, danação”.
O último que duvidou e desafiou fora o estridente Ramos.
Com apenas uma década de vida, Ramos era um garoto muito grande para idade e isso inflava seu ego: se sentia igual a um adulto, medo era coisa de criancinha.
No dia que seu avô lhe falou dos causos da cidade, como o homem feio, o pé de jaca e a janela, Ramos teve que tirar isso a limpo.
Colocou um boné para proteger do sol, botina e com a bicicleta sem freios, pedalou do Jardim Primavera até a famigerada esquina.
A construção ainda não existia e, no ângulo certo era fácil encontrar aquela fissura no ar, estranhamente parada acima da cabeça de Ramos.
O garoto olhou em seu imprudente desafio. Tentou não piscar, ardendo e lacrimejando o globo ocular até que… o olharam de volta.
A única testemunha que carregava uma sombrinha, afirmou que vira o corpo do menino sendo puxado como por um vento.
– A pele, os músculos e por fim os ossos… e então eu desmaiei – contara para qualquer um que queria ouvir.
Os jornais apenas noticiaram que Ramos estava desaparecido.
O tempo passou, nem se lembravam mais do nome do garoto e por fim, construíram a edificação.
Mas alguém ainda acreditava e deixou a moldura como uma memória, um aviso.







Um conto sensível que faz a gente refletir sobre o que é real e o que só existe dentro de nós. Simples, mas cheio de significado.
Uma janela de isekai, endereço na minha mesa até as 14, por favor.
Sinto que meu moto club pode utilizar seus contos como mapa de pontos turísticos. E avisos de partes que cachorros pulam em moto kkk
Gostei do rabisco, ansioso pelo próximo!!
Não tinha ouvido falar mas que legal
Ai adorei mas legal é saber que esse lugar existe de verdade mas eu não irei lá arriscar kkkkkkk
Um ótimo conto que nos faz refletir sobre aconselhamento. Muitas vezes não queremos ouvir, pois acreditamos que a verdade é somente aquilo que vemos.
Texto envolvente demais kk você pega um cenário comum e injeta um mistério que vai crescendo sem pressa, até dar aquele arrepio final. A imagem da janela ficou forte, quase hipnótica. Dá vontade de continuar explorando essa Franca meio assombrada.
Mistérios de Franca…