A empreitada de Testinha

A tempestade no fim do ano de 2017 entrou para a história francana não por ser a mais forte, duradoura ou quaisquer outras relevâncias. Ela ficou marcada por ser a possível culpada da queda do relógio do sol.
Testinha se encontrava entre as primeiras pessoas que avistaram a criação do Frei Germano, inaugurada em 1887, estropiada no centro da praça matriz, toda desconjuntada em peças soltas. Chamaram autoridades e profissionais responsáveis para acudir o moribundo relógio, que estava mais pra lá do que pra cá.
Até que Testinha gostaria de ter feito mais além de procurar por ajuda, todavia reparos históricos se encontravam fora de suas habilidades, mesmo com a experiência na construção civil. Poderia fornecer a parte de movimentar, o frete para o acidentado. Enfim.
Interessante como tudo começara com um relógio, mas daqueles com pulseira de elos prateados. Testinha não lembrava todos os detalhes, claro, tinha apenas seis anos ou menos. Sabia, com confiança, que ampliavam a cozinha da casa de seus pais, com terra vermelha, areia, cimento, ripas e todas as bagunças que uma obra gera.
Um dos pedreiros, colocando vários pregos afixados em uma tábua prontos para serem martelados, deixara seu relógio no chão ali perto. O objeto brilhava no sol, atiçando a curiosidade de Testinha que se aproximou com cautela inexistente. Analisou o objeto, o qual não continuou interessante assim que a primeira martelada ocorreu. Olhou assustada, encantada, prestando atenção no martelo que sumiu com os pregos num espirro.
No exato momento que o pedreiro virou as costas, a menina correu até a tábua, chegou pertinho de um dos pregos que ainda se destacavam e num arquejo profundo, meteu a testa naquela haste de metal. E o prego afundou! Sumiu!
O pai, do corredor lateral, viu tudo e disparou em socorro à filha, gritando nome de qualquer santo que ouvisse. A ergueu no colo e procurou algum ferimento: nada, nem qualquer marca na pele.
– Que testa é essa? – exclamou sorrindo para a doce gargalhada da filha.
Dali pra frente a menina pegou gosto. O que era brincadeira de construir casinhas, acabou se tornando irreverentes projetos de engenharia, com sua fama ultrapassando largamente as fronteiras de Franca.
Audaciosa e perspicaz, em 2014 Testinha reuniu uma equipe de construção nunca vista em toda a cidade e argumentou que faria uma edificação monumental para comemorar o vindouro bicentenário francano: um prédio de duzentos andares!
Era possível? Como e onde fariam? A notícia correu jornais do mundo todo. Por vários meses a movimentação e especulação voou pelas Três Colinas. E o tempo foi passando.
Dez longos anos fugiram pelas mãos. Se ainda havia pessoas que se lembravam do pronunciamento de Testinha, provavelmente dava para contar nos dedos. Com os anos que se seguiram e nenhum pilar surgindo no horizonte, a empreitada difamou-se, uma derrocada constrangedora para a grande empresária do ramo da construção.
E como tudo na vida tem uma conjunção adversativa antes de um expressivo ponto final, Testinha voltou para as mídias e anunciou o lançamento de seu famigerado edifício.
Sim, sim, não haviam pilares visíveis. Ela deixara apenas um marco, como a antiga fonte da Careta, acima de um portal em azul celeste: era a entrada para os duzentos andares, todos subterrâneos.





