A benzedeira

Quando criança, minha mãe tinha o hábito de nos levar à benzedeira. Apesar das décadas passadas, lembro-me perfeitamente da dona Joana, uma senhora forte, um pouco curvada, que arrastava um pouco os pés ao andar e que demonstrava uma seriedade grande com seus benzimentos. Eu adorava essas visitas, apesar de por alguns momentos também sentir um leve medo infantil. Sentávamos em sua varanda e então era preciso esperar… Esperar que ela se preparasse e também ao ramo da planta que iria utilizar. Tudo pronto, ela se aproximava com suas orações, batendo levemente aquele ramo sobre nós. Eu me sentia leve. Gostava tanto daquele ritual que brincava de benzer minhas bonecas dizendo frases que saiam sem qualquer sentido, por vezes um sussurro que se aproximava de uma oração. A brincadeira precisava acontecer em segredo, pois para os adultos aquilo não era coisa para se brincar.
Há alguns dias essas lembranças se fizeram fortes. Dores aqui e ali, exames a serem feitos e um certo medo. É difícil ter medo quando não se pode expressá-lo, quando se precisa ser forte pra dar conta da rotina, quando não há alguém pra segurar a barra enquanto a gente precisa chorar. Incertezas sempre nos assustam. A combinação das lembranças com esse medo calado no peito levou-me a buscar por uma benzedeira. Foi praticamente como procurar agulha no palheiro. Elas simplesmente desapareceram. Pedir indicação foi algo mais difícil ainda pois a maioria acaba por defender suas práticas religiosas sem nem mesmo ouvir por completo o motivo do pedido. Então, por puro acaso, descobri um evento na cidade que contaria com várias terapias e entre elas uma benzedeira. Era meu momento!
No espaço lindo, com várias opções de cura pra dores físicas e da alma, ela estava bem ali, na entrada, com suas plantas e suas orações poderosas. Coincidentemente reclamava das dores nas costas como a querida dona Joana das minhas lembranças. Aguardei minha vez que não demorou chegar. Sentei-me em sua frente. Ela perguntou meu nome. Preparou seus ramos, fechou os olhos e respirou fundo…
– Quantos filhos pequenos você tem?
Eu, que não esperava por uma conversa e já estava de olhos fechados mentalizando minha cura, abri-os depressa e respondi:
– Nenhum.
– Então por que carrega nos ombros o peso de tantas preocupações? Assim dor nenhuma vai embora.
Fingi espanto, não soube o que dizer, mas sabia muito bem o que ela estava me dizendo. Criei esse mau hábito que me acompanha há tanto tempo. Preocupo-me com tanta coisa e tanta gente, mesmo sabendo que minha preocupação não fará qualquer diferença na vida dos outros, mas sim, que me fará cada vez mais mal, levando minhas energias e saúde emocional. Vendo que eu não conseguiria responder, não por não saber a resposta, mas por saber a dor das palavras que eu iria dizer, ela começou o benzimento. A cada palavra que ela dizia eu imaginava todas aquelas coisas boas tomando conta de mim. Vi a fita da minha vida tendo seus nós desatados um por um, qualquer maldade dando espaço para luz, paz e positividade. Imaginei meu corpo forte e saudável.
Ao fim do benzimento e das broncas vieram algumas prescrições:
– Por hoje faça repouso em casa, mantenha a alma em equilíbrio, ouça um mantra de cura, deixe um incenso queimar. Nada de bebidas ou comida pesada, tudo tem que ser leve. É preciso cicatrizar as marcas dos nós que foram desatados. Aos poucos entregue os fardos que carrega para seus donos e daí pra frente carregue apenas o seu, fazendo com que ele seja o mais leve possível.
Sussurrei mais um amém e me senti melhor. Por algumas horas senti a cura, a paz, a alegria. O vento de fim de tarde dizia-me que tudo ficaria bem. Olhei para o céu azul e as poucas nuvens branquinhas que iam passando, deixei a música suave que tocava entrar pelos meus ouvidos e passear calmamente pelo meu corpo. Eu era novamente a menina que brincava de benzer suas bonecas e que carregava nos ombros apenas a alegria de viver. Aquela era a sensação que eu queria levar dali para todos os meus próximos dias, lembrando daquela menina e sabendo sempre que ela sou eu!










Carregar o mundo e as dores dos outros nas costas pesa ! Benzedeiras são seres iluminados que nos ajudam nessa travessia …
Texto sublime. Também íamos à benzedeira quando crianças, as médicas da alma!