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A arte da retórica

Na última semana li o livro “A importância do ethos do discurso político de José Sarney”, de autoria de Ismael Silva Cândido, intelectual e atual Prefeito Municipal de Ibiraci.

Ele apresenta uma análise dos discursos do ex-presidente José Sarney à luz de autores como Aristóteles, o linguista francês Patrick Charaudeau, dentre outros.

José Sarney é um político astuto, com faro e sensibilidade para descobrir o que a plateia deseja e deve ouvir. Não é necessário admirá-lo como pessoa e político para reconhecer o grande mérito de permanecer na vida pública, eleito pleito após pleito. É um domador de multidões.

O livro tem 4 anexos que transcrevem os discursos de Sarney, respectivamente, quando candidato à presidência do Senado Federal (2009), na posse provisória da Presidência da República (1985), na posse definitiva da Presidência com a morte de Tancredo Neves (1985) e a despedida do Senado Federal (2014).

Seu discurso, quando candidato à presidência do Senado em 2009, que flutua entre os campos da humildade, liderança, seriedade, virtuosidade e religiosidade, tem uma potência retórica impressionante.

A retórica é uma arma de convencimento, seja para o bem, seja para o mal, seja com o uso da verdade, seja usando meias verdades. O eleitor é uma onça, e como diz o ditado, para botar a onça dentro da jaula vale oferecer até filé mignon, depois dela presa a gente vê com qual tipo de carne ela se contenta.

Mas a força do convencimento através de palavras não está somente na política, está em todo lugar e no dia a dia. Inúmeras vezes somos convencidos a comprar um produto supérfluo em razão de uma propaganda. Coachs e influencers se alastram pelas redes sociais prometendo mudar a vida das pessoas com frases feitas que se resumem em “você consegue, basta querer”. Líderes religiosos prometem milagres e arrastam multidões.

Voltando ao livro, um capítulo interessante é o 4º, que trata do discurso político do medo. Uma forma conveniente de iludir o eleitor, uma vez que impingir medo é uma forma de dispensar a apresentação de propostas e o debate.

Nesse tipo de discurso, se atribui ao adversário pecha de agente do mal e propõe que a única alternativa segura e correta é o autor do discurso.

O autor do livro exemplifica com o famoso “eu tenho medo…”, que a atriz Regina Duarte expressou na televisão dentro do horário eleitoral gratuito de José Serra nas eleições presidenciais de 2002. Naquele momento ela atacava Lula, que viria a ser eleito, atribuindo-lhe a faceta de desestabilizador econômico e institucional.

Mas há inúmeros exemplos e nem sempre a palavra ‘medo’ vem expressa.

A meu ver, o próprio Lula usou desse artifício em 2006, quando comparou seus adversários tucanos a Hitler, insinuando que tirariam o direito de voto do “povo pobre’. Dilma Rousseff insinuou, em 2014, que o candidato Aécio Neves acabaria com programas sociais.

Nas campanhas eleitorais de 2018 e 2022, a campanha de Jair Bolsonaro afirmava que “o Brasil vai virar Venezuela” se ele perdesse as eleições. Lema que aumentou a polarização na sociedade brasileira, desembocando na estupidez e nos fatos lamentáveis e criminosos do dia 08/01/2023.

Atualmente, o discurso do medo é usado por membros do Poder Judiciário. O Supremo Tribunal Federal vem tomando decisões heterodoxas, objeto de críticas cada vez mais contundentes, sob a justificativa de “defender a Democracia”.

A boa retórica tem o poder de transformar o político, escondendo quem ele realmente é. Dessa forma ele se torna, aos olhos do cidadão comum, um ser mítico, quase intangível e digno de adoração.

Fiódor Dostoiévski escreveu em “Os Irmãos Karamázov” que pode resumir a ideia: “Para amar uma pessoa é preciso que esta esteja escondida, porque mal ela mostra o rosto o amor acaba”.

Só com um senso crítico afiado, através de leituras e informações de diversos campos de pensamento, a racionalidade pode sobrepor ao instinto.

É um ótimo livro. Minha leitura foi enriquecedora.

Michel Pinto Costa

É Oficial de Promotoria do Ministério Público do Estado de São Paulo, em Franca, e bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Franca.

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