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SOS Mulheres: francana registrou mais de 30 boletins antes de criar seu próprio grupo de apoio às mulheres

A história de Sandra Sofia, 46 anos, é parecida com a de diversas francanas que são ou que foram vítimas de violência doméstica. Além das feridas no corpo que cicatrizam com o tempo, as marcas psicológicas, indeléveis, são as que a fustigam até hoje. O ponto diferencial e a virada de chave em sua vida é exatamente a maneira com que lidou com as lembranças dos 19 anos de sofrimento e dor presa a um relacionamento de abuso e violência. Agora, Sandra usa sua experiência como fonte de apoio para outras mulheres que vivenciam a mesma situação através do SOS Mulheres.

A fundadora do grupo SOS Mulheres viveu na pele o drama da violência doméstica. Por isso, Sandra entende a dificuldade de se romper o ciclo de violência, que começa se inicia com xingamentos e humilhações verbais até os ataques físicos. Mas é a violência psicológica que mais repercute negativamente em sua vida.

“De todas as violências, talvez a psicológica seja aquela que mais nos afeta, que mais deixa marcas. Fui diversas vezes agredida fisicamente, tendo cortes no rosto e outros vários hematomas pelo corpo. Mas eu costumo falar que a violência psicológica é capaz de cortar as sete camadas de pele que temos. Com o tempo, você vai criando medo até dos passos do agressor, tamanho abalo psicológico. Quando o agressor percebe essa relação de submissão e medo, os episódios de violência tendem a aumentar”, relata Sandra.

A fundadora do SOS Mulheres conta que sempre sentiu a falta de grupos e movimentos que abordassem esse tema e que dessem respaldo as mulheres. “O primeiro lugar onde busquei isso foi na escola. Algum grupo de apoio, alguma roda de discussão sobre o tema. Foi muito triste porque na época não existia esse respaldo. Então foi difícil enfrentar tudo que enfrentei estando sozinha, só com a cara e a coragem”, descreve a mulher que somou 32 boletins de ocorrência registrando sua tragédia solitária de episódios de violência doméstica.

Foi a partir dessa falta de ajuda que Sandra resolveu ela mesmo arregaçar as mangas e ser pioneira do empoderamento feminino sobre violência doméstica na cidade de Franca. O grupo SOS Mulheres começou com Sandra e suas irmãs e amigas indo as ruas, abordando mães de família e conversando sobre o assunto. “Começamos fazendo cafés onde o tema central era o empoderamento. Seja diante da violência física, psicológica ou qualquer ato de submissão feminina”, conta.

Aos poucos, o trabalho de Sandra começou a ficar conhecido e já era procurada por diversas mulheres que queriam ajuda e, principalmente, queriam entender melhor sobre empoderamento feminino para se livrar dessa submissão. “Hoje o SOS Mulheres funciona a partir de rodas de conversas. O tema do empoderamento é sempre o principal. Estabelecemos dinâmicas onde a ideia é que essa mentalidade fique cada vez mais fixada nessas mulheres”, explica.

O SOS Mulheres trabalha com grupos de aproximadamente 30 pessoas, por cerca de três meses. As reuniões acontecem na casa própria líder, Sandra, no Jardim Aviação, em Franca. Como conta a própria fundadora: “Nossa dinâmica é trabalhar com 30 mulheres dentro de um período de 3 meses. Tempo que consideramos ideal para nossas ideologias e dinâmicas fazerem efeito. Mas além dos trabalhos também temos o atendimento individual, a depender do caso”.

Submissão

São muitas as situações que podem prender uma mulher em uma situação de violência. O fator submissão vem de vários lados. Comigo, por exemplo, o que me prendia a um relacionamento abusivo era o fator “maternidade”. “Talvez tenha sido determinante para eu aguentar todos esses anos. Entramos naquela de ‘ele é bom para o meu filho; ele consegue dar suporte financeiro bem mais que eu consigo’. Nisso, os anos passam e você vai aceitando, fazendo com que, assim, a submissão só aumente”, explica Sandra.

Para tirar a mulher dessa situação de prisão, segundo Sandra, é muito importante que sejam discutidas questões do empoderamento feminino. “O mais comum no pensamento de uma mulher que vive essa situação é ela ouvir coisas do tipo “você não vai conseguir viver sem mim”, “você vai passar fome, vai regredir na vida”, “terminar um casamento é dar um passo para trás”. As palavras de desestímulo parte não só do próprio agressor como também de pessoas próximas, parentes.

“É por isso que nós trabalhamos a questão do empoderamento. Mostrar que ela pode. Mostrar a força dessa mulher. Mostrar que ela não merece viver essas situações devido à pressão social, dependência financeira ou emocional. Colocamos em discussão a submissão feminina. Levantar na mulher a força que ela tem. A mulher é capaz de seguir seu próprio caminho, construir sua própria vida sem depender de ninguém, muito menos de um agressor”, diz Sandra.

O grupo SOS Mulheres disponibiliza todo sua teia de apoio para mulheres que estejam em situação de violência doméstica. Para ter acesso, basta entrar com contato o número (16) 99173-5136 para falar diretamente com a líder Sandra Sofia. A mesma irá dar auxílio e apresentar todo o cronograma de apoio do grupo.

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