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Sai que é tua, Noel!

Vinha desconfiado desse velhinho desde pequeno, menino ainda.

Naquela época, memes e mimimis talvez justificassem um apelido familiar, um tratamento por nome totalmente sentimental, raramente como manifestação de carinho. Esses, menos o seriam modo de comunicação usual, a que se recorre a geração estressada da demoradamente cansativa duração das postagens de um TikTok, ou de um discurso interminável do orador da turma de faculdade, na via dos stories, para a qualificação e trolagem na narrativa e imitação de uma pessoa que reclama de tudo, por nada.

Os memes, o papel carbono da zoeira e da gozação, veículo zureta do fenômeno da viralização de um branco que deu na cabeça do que conversa com outro, de um vídeo engraçado, uma imagem impressionante, uma frase linda, a exemplo daquele em que se reinventa para fazer um agradecimento, com três palavras que sejam – pa-ra-béns (sic!), uma determinada música que, de tão ruim que não possa piorar, descreve boêmias e traições, levita corações, na esfera de uma Caneta Azul, espalha inocência e esculhamba sensíveis reputações na velocidade da luz, de brilho fosco, da inteligência sequelada pela covid-22.

Um homem não beijava o outro em público. Nem no rosto. Escondidos, aí eu não sei. Não estava lá. Não vi a briga. Testemunha não seria.

O velho de cabelos e barbas longas, tingidos de branco, a valer uma certidão de nascimento do tempo antigo, devia ter dois sacos, com e sem malícias, à parte – a critério de seus fãs, sendo o maior deles para guardar os presentes que teriam de ser distribuídos antes do parto do Menino.

Calado, bom velhinho! É de você que se fala!

Normal seguia o entendimento do koiné praticado entre as barrancas do Rio Grande e o réptil amarronzado e sujo do Sapucaí, de que velhinho dizia do ser humano bastante rodado nas catracas e esteiras do calendário, prestes a furar o dia e o mês dos anos vividos, com repetição prolongada, da cartela do clandestino bingo das quermesses e de outras benemerentes messes.

O motivo da desconfiança do moleque reside no fato de que desconhecia a chaminé, e a neve também. Casas do tipo americano, de duas águas grudadas, uma à outra, para dobrar a renda de aluguel do senhorio, estavam para as COHABs dos últimos trinta ou quarenta anos, com a vantagem das desvantagens de o inquilino não virar seu dono depois de extensos contratos de boca. Prevalecia a força da palavra empenhada; na moral!

A periferia abarcava os bairros nascentes, emergentes e o mais que estava dentro do perímetro urbano. Zona rural, que esperança! A salsicha gorda arramada pela cintura, a maquiar sua feiura com gorro da cor do amor e do coração, desconhecia-a por questões de higiene e asseio públicos, e para facilitar o roteiro de seu delivery ensacado. Gente fina é outra coisa.

O Centro dos núcleos citadinos lhe caía como a região dos sonhos dos sonhadores enricados, os quais podiam ficar sem a visita mais aguardada pelas crianças e mocinhos que cresciam como chuchu nas cercas de bambu, de fiadas de arame farpado e nos caramanchões.

O dinheiro não compra a felicidade. Os cobres a mandam buscar.

A população dos bairros tinha a ver com atestado de pouco afortunado, pobre mesmo. Minha família, de uma renca de filhos, neles morava. Graças a Deus, na vizinhança esparsa, as ruas de chão batido eram praças, logradouros, campos de futebol, de malhas (de cacos de telhas de barro).

Chegava a compreender esse sujeito do saco nas costas, que não fazia pose com crianças irritadas, por culpa dos pais (e dos avós, como eu!), em bancos e cadeiras imperiais de shoppings e de centros de compras atraentes. Esses aqui não existiam.

A conformação com o apartheid dos presentes natalinos estava a léguas e mais léguas da resignação, batizada, pela psiquiatria que, no atacado, tem dificuldades de entender a longanimidade pregada por Cristo, o próprio Natal. É que não tinha tu. Então, era tu mesmo, Toninho!

Uma dúvida se engarrancha na minha inquiridora cabeça: será que o São Nicolau de Mira – cá pra nós, Papai Nico – sabia que formávamos quase dois times de jogadores de futebol de salão e que, com mais dois (mamãe e papai, enredados nas minhas saudades), jogando na linha ou na defesa, debaixo de três paus, daríamos aperto para a Croácia?

Ele vazou, de quinta, por toda a nossa infância, adolescência e meia fase de adulto, de mim, dos meus germanos. Fiquei sabendo, com maior confiança, na idade de vestibulares, que o ancião, padroeiro de quem estuda, tinha nos discriminado a todos e, conseguintemente, aos meus iguais nas réguas sociais. Seu estoque acabaria em casa.

Chegada a maturidade, no processo de maturação da exposição ao sal e ao sol da preparação para a independência e constituição de família, o vermelho das roupas folgadas do barbudo barrigudo, folgou-me na maciez da textura da aceitação, pendurado no varal da esperança.

Vim a compreender que o mesmo explorador de renas em montanhas e vales congelados, o motor de seu trenó, também era o Bom Velhinho que a tantos de nós ignorava.

E o que a ignorância não faz?

Custava alguém ter me contado o causo por completo; ter me alertado do apelo criminosamente comercial e lucrativo do hábito das trocas de presentes, que tanto melhor seriam se tirados da sacola cereja comprida livre de alças; de que a desejada figura lendária do imaginário infantil veio da misericórdia de um religioso cristão que dava sua vida pelos carentes, e que, na calada da noite, dava um jeitinho de depositar moedas, de ouro, de prata, mas de valor, nas janelas, portas e perto das chaminés dos mesmos e inumeráveis desfavorecidos pela sorte, com inicial que há de ser grafada com o ‘esse’ de cifrão?

Deve ser o mesmo Velho do Inverno que chega se derretendo de suor nesse Brasilzão tropicaliente e que, por ofício, para dar o pão de cada dia aos seus, na escuridão do dia dos que os censos não tabulam, batia de casa em casa, pedindo comida.

O Papai Noel não deve ter nascido em berço de ouro.

Ao dono da festa de judeus e gentios, dos cascas grossas e gentis, coube vir ao mundo na estrebaria, na manjedoura, na fofura dos capins, no berço que é colo dos aflitos, esquecidos, discriminados, prostituídos, usuários e dependentes de drogas ilícitas, assassinos, malfeitores, inescrupulosos, exploradores de toda ordem, ditadores, impostores, altruístas, benfeitores, crentes nele, e santos pecadores.

Sai fora, agora, bom amigo. Fez o que tinha que fazer, Papai Noel!

“Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, e o governo está sobre os seus ombros. E ele será chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz.” (Isaías 9:6)

D’Ele não desconfio. Ele é amor; e justiça.

Dr. Theo Maia

Advogado Previdenciarista (OAB-SP 16.220); sócio-administrador da Théo Maia Advogados Associados; jornalista; influenciador social; diretor do Portal Notícias de Franca; bacharel em Teologia da Bíblia; servo do Senhor.

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