Onda de fake news sobre massacre deixa escolas, famílias e polícia em alerta
CLAUDINEI QUEIROZ e ALESSANDRO MACEDO
Uma nova onda de fake news, iniciada no começo de abril, tem assustado pais, professores e alunos em todas as regiões do país, mobilizando a polícia e até o poder público. O padrão é o mesmo: o aluno picha em algum lugar da escola, normalmente no banheiro: “Massacre dia X”. A maioria tira foto, apaga a frase e depois publica nas redes sociais ou distribui em grupos de WhatsApp, usualmente em um perfil anônimo. A veiculação da mensagem acaba por chegar aos pais e à escola, provocando um clima de apreensão. Seria uma ameaça real? Para se precaver, os colégios acabam fazendo um boletim de ocorrência, deixando a investigação a cargo das forças públicas.
Na maioria das vezes não é possível identificar o pichador e o caso fica sem solução. Nem mesmo as câmeras de segurança ajudam, uma vez que é proibido colocar monitoramento nos banheiros. Já em casos em que os responsáveis foram descobertos, todos deram a mesma explicação: uma brincadeira para assustar a comunidade escolar.
Franca
Em Franca os efeitos da “brincadeira” também foram de terror entre pais e alunos. A pichação que trazia a mensagem “Massacre – 30/05/2022” ocorreu no banheiro da EETC (Escola Estadual Torquato Caleiro), mas foi distribuída em redes sociais e mensagens por Whatsapp para estudantes de outras escolas, o que causou temor e apreensão por toda a comunidade escolar local. A Seduc (Secretaria de Educação do Estado de São Paulo) confirmou a veracidade da mensagem e informou que tomou “providências imediatas para tranquilizar a comunidade escolar”.
A denúncia de que os jovens teriam recebido mensagens ameaçadoras na semana anterior à data descrita na pichação partiu da mãe de um aluno. Ela se dizia preocupada com a segurança de seus filhos, que são estudantes da EETC. Segundo ela, alguns alunos levaram na brincadeira enquanto outros perceberam a gravidade da mensagem. “Eu fiquei com medo e não consegui conversar com ninguém da escola para saber se era verdade a mensagem e o que eles (diretoria) iriam fazer em relação ao assunto”, disse a mãe de alunos da escola que pediu para não ser identificada.
Na manhã do dia 30 de maio, um pai de aluno de outra unidade escolar, a Professor Hélio Palermo, também recebeu a informação de seu filho sobre as mensagens. “Meu filho ficou muito assustado com as mensagens que circularam nas redes sociais e pelos aplicativos de mensagens. Eu também fiquei com muito medo”, disse o pai do estudante sob anonimato. Abaixo as mensagens enviadas por seu filho, desesperado para saber o que fazer.

Procurada, a diretoria da EETC pediu para que as informações fossem direcionadas à Seduc. Enviadas as perguntas à Secretaria Estadual, a Folha de Franca recebeu a resposta logo abaixo.
“A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo tomou providências imediatas para tranquilizar a comunidade escolar, garantindo a segurança de alunos, professores e funcionários sem interromper aulas. Após registros de boletim de ocorrência e comunicação às autoridades de segurança pública, as pichações foram apagadas e a página com ameaças saiu do ar.
Dirigentes de ensino e autoridades policiais atuam em todas as regiões do estado para conscientizar comunidades escolares e identificar qualquer tipo de ameaça, ainda que todos os casos recentes tenham sido esclarecidos como trotes. O Gabinete Integrado de Segurança e Proteção Escolar promove estudos permanentes sobre casos de violência nas regiões escolares, além de estratégias para conter ameaças e fomentar a cultura da paz.”
A Seduc não informou se o responsável pela mensagem foi descoberto pela direção da EETC.
Como começou
Essa onda de fake news a respeito de massacres em escolas surgiu nos Estados Unidos, em dezembro passado, quando grupos passaram a divulgar essas mensagens pelo aplicativo TikTok. Lá, no entanto, são comuns esses atos de violência, como o ocorrido recentemente em uma escola em Uvalde, no Texas, quando um jovem de 18 anos matou a tiros ao menos 19 crianças e 2 adultos.
Em dezembro, muitas escolas americanas cancelaram suas aulas após ameaças, principalmente as de cidades do interior do país, e a polícia aumentou seu efetivo. O TikTok chegou a divulgar uma nota afirmando que trabalha para identificar fake news e mensagens ofensivas. “Lidamos com os rumores de ameaças com a maior seriedade, razão pela qual estamos trabalhando com as autoridades policiais para investigar as advertências de possíveis atos de violência nas escolas”, disse a empresa no comunicado. “Não encontramos evidências de que tais ameaças se originaram ou se espalharam pelo TikTok”, acrescentou.
No Brasil, o caso que mais deixou os pais e os funcionários dos colégios preocupados se deu na Escola Estadual Professor Manoel Abreu, em Linhares (ES). Dois adolescentes, de 13 e 15 anos, postaram em grupos de WhatsApp a ameaça ao colégio. Um deles chegou a publicar uma foto de um revólver que, segundo a polícia, seria do irmão dele.
Os alunos prestaram depoimento na delegacia, juntamente com seus responsáveis e representantes do Conselho Tutelar. “Com todo o procedimento de investigação das polícias civil e militar, os dois alunos foram identificados e falaram que postaram as ameaças em contexto de brincadeira”, conta o diretor Jean Carlos Borghi de Andrade, 30, revelando que a punição dos dois foi a transferência compulsória para outro colégio.
Para tentar coibir novos casos, Andrade diz que a escola passou a controlar o uso de celulares pelos estudantes em suas dependências.
Outro colégio que identificou os estudantes foi o Nossa Senhora das Graças, o Gracinha, do Itaim Bibi, zona sul da capital paulista. Segundo o diretor Wagner Cafagni Borja, 59, quatro alunos foram identificados e alegaram estar seguindo um desafio de um grupo do Tiktok, de como parar sua escola por um dia.
“Os estudantes foram punidos de acordo com nosso regimento. Foram suspensos por quatro dias, durante os quais fizeram três encontros com a direção/orientação, dois dos quais na presença das famílias, e estão produzindo um trabalho sobre a questão das mídias sociais e o comportamento das massas”, conta Borja.
Como os responsáveis foram localizados e punidos, o colégio não chegou a fazer boletim de ocorrência.
No levantamento feito pela Folha nos colégios com casos do tipo, apenas um teve as aulas canceladas no dia em que a pichação anunciava o suposto massacre: o Colégio Estadual Raphael Serravalle, no bairro da Pituba, em Salvador (BA). Mas não foi a direção que tomou essa decisão e, sim, o grêmio estudantil.
“O pessoal do grêmio avisou da mensagem do massacre no WhatsApp. Aí eles postaram mensagens dizendo aos alunos que seria melhor ficar em casa, que não precisavam vir ao colégio. Não houve pronunciamento da direção. A escola funcionou normalmente, e o grêmio tomou essa decisão”, conta a vice-diretora Denise Lago de Miranda, 57. “Por conta desse evento, a gestão anterior da escola foi exonerada”, diz Miranda.
O responsável pela pichação não foi localizado, mas alguns alunos falaram que a mensagem se referia às provas, que seriam na semana seguinte. “A avaliação seria um ‘massacre’, foi o que a gente apurou”, finaliza.
No Colégio Universitário USCS, de São Caetano do Sul (SP), a pichação foi na porta de um dos banheiros da universidade, a que os alunos do colégio têm acesso. Por isso, até mesmo alunos de graduação pediram para que as aulas fossem suspensas, o que não aconteceu.
“O termo ‘massacre’, escrito na parede de um dos banheiros (apesar da compreensível aflição causada junto à comunidade acadêmica) mostrou-se ser apenas isso: uma pichação de banheiro”, diz o colégio em nota à reportagem.
Na cidade de Primavera do Leste (MT), a 234 km de Cuiabá, uma estudante de 12 anos criou um perfil falso no Instagram para disseminar as mensagens de massacre no colégio particular San Petrus. No entanto, a Polícia Civil conseguiu sua identificação.
“A menor foi localizada e conduzida à delegacia, onde foi ouvida. Na presença da sua mãe, ela confessou que criou o perfil com a intenção de fazer uma ‘brincadeira’, assustando as pessoas”, afirma a Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso, em nota.
Primavera do Leste é uma das várias cidades pequenas que sofreram com ameaças em escolas recentemente. Nesses casos, a população acaba sendo afetada mais diretamente, e as autoridades precisam se pronunciar para acalmar os pais. Foi o que fez o prefeito de Passos, no sul mineiro.
Diego Rodrigo de Oliveira (PSL) recorreu às redes sociais para explicar o ocorrido. “Trata-se realmente de uma fake news. Você pai, você mãe, pode ter certeza que seus filhos estarão seguros em nossas escolas. E, qualquer tipo de afronta às nossas escolas, as forças de segurança já estão preparadas”, alertou.
Na cidade de Atibaia, a 66 km de São Paulo, foi a Secretaria de Segurança Pública da prefeitura que divulgou um comunicado nas redes sociais informando que “não há qualquer evidência de suspeita de real ocorrência, considerando os estudos já realizados em todo o país de fake news gerados por adolescentes com o intuito de provocar pânico entre os pais e alunos”.
Comunicado da Secretaria de Segurança Pública de Atibaia (SP) para acalmar a população depois dos casos de pichação nas escolas do município Divulgação Comunicado da Secretaria de Segurança Pública de Atibaia (SP) para acalmar a população depois dos casos de pichação nas escolas do município ** Segundo os órgãos de segurança pública, um dos maiores problemas desse tipo de fake news, além do terror que provoca na comunidade, é a necessidade de deslocamento de grande aparato policial para a investigação, tirando as forças de outras ações.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, em nota, diz que todas as denúncias são investigadas e o trabalho de campo dos policiais tem constatado a improcedência das ameaças. O órgão destaca que esse tipo de fake news é crime.
“Os responsáveis por denúncias falsas às polícias podem responder por ato infracional, se o autor for menor de idade, ou crime de ameaça, caso alguém se sinta lesado e resolva representá-lo”, diz ainda a nota.
A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, por sua vez, afirma que atua em parceria com os órgãos de segurança pública em todo estado “para a conscientização das comunidades escolares em relação à proliferação deste tipo de conteúdo”.
“A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo conta com o Gispec (Gabinete Integrado de Segurança e Proteção Escolar), que realiza estudos sobre a violência na área de segurança das escolas e o planejamento de estratégias, e monitora diariamente as escolas”, diz a pasta.








