O fim do Banespinha

A profissão de bancário, tão importante durante o século XX, foi diminuindo de tamanho com o avanço dos processos de informatização e financeirização da vida sob o capitalismo neoliberal. Os empregos na área se reduziram, as agências físicas que restaram tem cada vez menos funcionários. O poderoso Banco Itaú, que demoliu um patrimônio histórico como o antigo Hotel Francano no centro de Franca para erguer um enorme prédio para sua agência central, hoje ocupa apenas uma pequena parte do edifício que ficou obsoleto em poucos anos. Ao mesmo tempo se ampliaram os serviços bancários através de aplicativos em que o próprio correntista faz por conta própria o serviço que era dos trabalhadores bancários, como pagamentos e recebimentos de valores, assim como proliferaram e profissionalizaram a assessoria individualizada aos clientes para financiamentos e investimentos. Os bancos também avançaram muito na própria informatização, permitindo inclusive o trabalho dos funcionários a distância, o que reduziu ainda mais a necessidade de espaço físico em agências. Enfim, as mudanças tecnológicas digitais provocaram profundas alterações no quadro do mercado financeiro, com a disputa atual entre os chamados “bancões” mais antigos e os novos, basicamente digitais.
O dramaturgo e poeta alemão Bertold Brecht, em sua peça teatral musical “A ópera dos 3 vinténs” de 1928 já escrevia algo como “O que é roubar um banco comparado a fundar um banco?”, onde fazia uma crítica feroz ao capitalismo financeiro e à hipocrisia da burguesia. Cem anos atrás, já se sabia que os golpistas do setor estavam a espreita e, pelo jeito, até hoje, vide o caso do Banco Master, que nos surpreende a cada dia com a descoberta de uma nova e bilionária falcatrua.
No final dos anos 1970, fui procurado por um grupo de trabalhadores bancários que havia adquirido uma área rural para lotear próxima às margens da Rodovia Ronan Rocha, no sentido de Patrocínio Paulista. Seria uma espécie de “condomínio dos bancários”. Todos os compradores, acho que uns setenta, eram todos bancários do Banco do Estado de São Paulo – BANESPA, banco estatal paulista. Não era exatamente uma novidade, já haviam ocorrido ações nessa linha anteriormente. O segundo edifício alto construído em Franca (Edifício Brasília) conhecido por muito tempo como o “Prédio dos Bancários” foi erguido pelo IAPB (Instituto de Pensões e Aposentadoria dos Bancários) no final da década de 1950 no bairro da Estação e o conjunto habitacional conhecido como “Vila dos Bicões” no bairro Higienópolis, ocupado por invasores após sua paralisação, era destinado em parte aos trabalhadores do setor bancário.


Recebi o grupo no meu escritório para mostrar o estudo inicial de ocupação da gleba num sábado a tarde, não cabia de tanta gente. Como todos eram proprietários, a coisa virou uma balbúrdia, cada um queria uma coisa diferente. Resultado, não deu certo, foram procurar outros projetistas, mas nada prosperou na área até o início dos anos 1980, quando implantaram o clube conhecido como “Banespinha”, com piscinas, campos esportivos e outros equipamentos. Ao lado do clube, uma área institucional da Prefeitura foi escolhida para a construção de um ginásio de esportes com recursos públicos oriundo de solicitação ao governo estadual do então deputado Milton Baldochi, ex-bancário, na expectativa de ser usada também pelo clube, mas nunca chegou a ser concluído, paralisado durante a gestão do prefeito Ary Balieiro e nunca mais retomado.

Com as mudanças sociais e culturais que reduziram a sociabilidade promovida pelos clubes e a privatização do BANESPA no início dos anos 2000, o clube foi perdendo o sentido, pois a maioria dos bancários foi demitido ou se aposentou, tornando cada vez menor o número de associados. Os lotes onde seriam as moradias dos bancários foram vendidos para outras pessoas. Com as despesas de manutenção tornadas inviáveis pelo pequeno número de associados, a solução encontrada foi a venda do imóvel a uma grande incorporadora e construtora, que pretende implantar no local um novo condomínio residencial que em breve poderá se tornar realidade.
Infelizmente, a cidade perdeu a oportunidade de ganhar um grande parque público, pois a Prefeitura não se interessou em adquirir o clube para juntá-lo a sua área anexa, numa região que abriga população de baixa renda e muito carente de áreas verdes e lazer. É mais um equipamento de caráter comunitário que desaparece, como já ocorreu com o Clube dos Bagres. Pior ainda, a Prefeitura somente “descobriu” que era proprietária do ginásio de esportes inacabado quando da venda do terreno pelo clube, chegando a mover uma ação contra o clube por “esbulho possessório” ou algo do gênero. Na prática, a ação da Prefeitura apenas revelou a situação de inadmissível descalabro de seu controle sobre o cadastro de imóveis públicos, passando recibo que a atual gestão desconhecia a existência do edifício e até o momento não definiu nenhum reaproveitamento do local.

Sabemos que o atual prefeito é negacionista da crise climática, que acredita que a solução para os problemas decorrentes das alterações do regime e volume das chuvas e ventos pode vir exclusivamente de caríssimas obras de engenharia, ao passo que ignora a necessidade premente de ampliar os espaços verdes com novos parques que facilitem infiltração das águas no solo e a redução de sua velocidade nos fundos de vale.
O terreno onde está o clube é caudatária de cursos d´água que deságuam na lagoa do Castelinho, afluentes do córrego do Espraiado, bacia cuja ocupação recente aumentou muito as enchentes nas imediações da rotatória da Avenida Ismael Alonso junto ao Easy Center, onde se encontram as águas do Espraiado com o Cubatão. Ou seja, a falta de áreas verdes na cabeceira junto às nascentes dos afluentes do Espraiado vão ampliar problemas quilômetros abaixo. Só um alerta, ainda há tempo para evitar esse mesmo destino ao clube da AABB, que possui áreas de várzea junto ao Espraiado.
Espera-se que ao menos a Prefeitura passe a cuidar e dar manutenção adequada às suas áreas remanescentes no local, inclusive recuperando para o uso da comunidade os equipamentos esportivos que estão em degradação, em mais um episódio de descaso e abandono com os prédios públicos como vem ocorrendo com o prédio do Champagnat, o “esqueleto” da rotatória do Easy Center, a antiga sede da Secretaria de Ação Social, o edifício da Francal e tantos outros que mostram à exaustão o desperdício de recursos públicos escassos numa cidade com muitas carências de infraestrutura e serviços comunitários.










Você tem razão em tudo que escreveu. A maioria da população francana não percebe o descaso com o clima e a necessidade de reflorestamento e permanência das árvores já existentes.O atual prefeito Alexandre poderia fazer diferença com tais apontamentos, mas não tem interesse.Visão empobrecida ou equivocada.Interesses incompatíveis.