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Laboratório das artes: 40 anos de uma Utopia

Por Mauro Ferreira

Em meados dos anos 70, Franca era uma pacata cidade com pouco mais de 100 mil habitantes. A vida cultural era pautada pelos cinemas de rua e pelos clubes, já que o movimento artístico modernizador iniciado nos anos 1960 por pioneiros como Dante Finatti e Oscar Kellner dentre outros havia sido brutalmente interrompido pela ditadura militar, pela censura e perseguição às artes. Foi por volta de 1977 que Luiz Cruz organizou um grupo de literatura (Veredas) e começou a publicar livros, Nalini e os Derruci fizeram a Feira de Arte – FEARTE e Atalie Rodrigues Alves e Mauro Ferreira começaram a organizar em torno da Pinacoteca Municipal alguns artistas plásticos modernos da cidade como Ricardo Augusto, Rodolfo Chiaverini, Gerson Oliveira e Salles Dounner.

Era plena ditadura. A luta contra o regime militar pela democracia se intensificou e voltou o pluripartidarismo. No final dos anos 70 e início dos 80, um grupo de artistas plásticos em boa parte ligados ao recém-fundado PT resolveu fazer exposições na periferia da cidade e criar um movimento cultural mais amplo. A ideia foi encampada pelo grupo de Cruz e por entusiastas do cinema. Surgia o Laboratório das Artes de Franca, fundado oficialmente em setembro de 1982.

O entusiasmo da época e a liberdade que se avizinhava com o fim da ditadura levaram Mauro e Atalie a construir um prédio para abrigar o movimento localizado à Rua Cuba, com salão para exposições, debates e projeção de filmes, além de espaço para oficinas e cursos. Era o começo da utopia, que pretendia levar a arte aos quatro cantos da cidade, uma época de grandes esperanças na democracia.

O movimento foi lançado oficialmente no salão da AEC durante o lançamento do livro de Luiz Cruz “SãoZé Futebol Clube”, quando Zélia de Freitas leu publicamente o manifesto de criação do Laboratório das Artes. A partir daí, dezenas de atividades culturais foram promovidas pelo movimento. Por parte dos artistas plásticos e arquitetos, havia um objetivo claro e implícito: fazer Franca, uma cidade conservadora, chegar à Semana de Arte Moderna de 1922.

O fanzine “Arte Agora” era o porta-voz do movimento e durou até 1989, foram 36 edições que levaram a arte de Franca a todo o país. O “Arte Agora” chegou a ser exposto na Biblioteca Mário de Andrade de São Paulo, na exposição Poucos & Raros.

Sob a liderança de Luiz Cruz, o Laboratório das Artes realizou concursos de poesia, publicou livros e incentivou a leitura em geral. Ao mesmo tempo, os artistas plásticos fizeram exposições em dezenas de locais diferentes da cidade, em sua proposta de levar as artes visuais modernas a todos os cantos. Levou a pintura, o desenho e a gravura de artistas francanos modernos para muitas cidades do Brasil.

O cinema foi um caso à parte. Juntaram-se aos irmãos Derruci alguns estudantes de Franca ligados ao PT que estudavam fora da cidade, como Jefferson William, permitindo ao Lab fazer diversas mostras de cinema alemão e francês. Na época, apoiado por alguns professores da Unesp, o Lab trouxe a Franca autores como Ignácio de Loyola Brandão e Roniwalter Jatobá para palestras e debates sobre literatura.

No início dos anos 90, o grupo se dispersou, embora os integrantes, em sua maioria, continuassem ativos na vida cultural da cidade, produzindo sua arte. O fato de ter sido eleito Gilmar Dominici prefeito pelo PT em 1996 levou diversos integrantes do grupo original do Lab assumir cargos públicos até 2004, mesmo assim fizeram mostras individuais e coletivas no período. A partir do final daquele governo começou um processo de reagrupamento dos artistas plásticos em função da utopia sempre presente: viver numa cidade com espaço para a arte moderna.

Em 2008, o velho prédio da Rua Cuba foi retomado e totalmente reformado para abrigar as atividades do movimento, agora focado nas artes visuais. O objetivo continuou utópico: criar um museu de artes visuais modernas com acervo regional (que se tornou realidade), espaço para mostras e debates de arquitetura e artes visuais, criar público para as artes visuais modernas. O cineclube voltou a funcionar.

Reinaugurada a sede em 2009, o sonho continuou sendo construído lentamente, com o trabalho abnegado, paciente e voluntário de dezenas de artistas e colaboradores como Gerson Oliveira, Cilda Segadas e tantos outros, com o apoio de parceiros da iniciativa privada como a Marka Pré-Moldados. Nem a pandemia de Covid-19 foi capaz de interromper a caminhada do Lab, que continuou ativo nas redes durante a pior fase da emergência sanitária e do isolamento social.

Duas preocupações foram centrais na ação do Lab nos últimos dez anos:

1) a consolidação, ampliação e acesso do público ao acervo próprio de arte moderna regional, traduzido no oferecimento de dezenas de exposições, cursos, oficinas, filmes, publicações de livros e objetos de arte, caminhadas pela cidade para preservar seu patrimônio cultural;

2) A ação permanente de um programa educativo e de formação do público na sede, seja propiciando a crianças e adolescentes acesso à iniciação artística, seja formando futuros artistas ou apreciadores das artes visuais modernas. As duas tarefas se somam e resumem o esforço que o Lab fez ao longo dos anos para se transformar no verdadeiro Museu de Arte Moderna de Franca.

Mauro Ferreira é arquiteto e coordenador do Laboratório das Artes de Franca

5 Comentários

  1. A trajetoria de vocês se parece um pouco com nossas ações aqui em Mococa. Tivemos um cine clube na década de 1980 , grupo ambientalista, defesa do cinema até hoje…enfim uma luta pela arte. Que bom, parabenizo
    vocês mais uma vez. Vida longa ao Lab , que o sonho não morra jamais!

  2. Parabéns, Mauro e Atalie!
    Vocês fazem parte do seleto grupo de pessoas talentosas e determinadas que mantêm acesa a chama da esperança de um Brasil melhor.

  3. Parabéns Mauro e Atalie pelo trabalho e dedicação para preservar este espaço tão importante para disseminação da cultura e da história de nossa cidade.

  4. Parabéns, Atalie e Mauro, pela bela história de lutas e sonhos; afinal são 40 anos: comemoremos!!! Que venham outros quarenta!!!

    “Clarão que remate
    dúbio, poente escancare
    brasil asterisco
    em círculos bumerangue
    insano nó, sol a pino”

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