De Franca para o Grammy Latino: Matuto S.A. disputa prêmio com álbum que une rap e viola caipira
Francano concorre com “Terra Vermelha: Do interior pro interior” e leva ao palco internacional o Regional Beat, estética que aproxima hip-hop e cultura caipira

De Franca para Las Vegas. Uma trajetória construída entre o rap, a viola caipira e as referências culturais do interior paulista colocou o músico francano Matuto S.A. entre os indicados a uma das principais premiações da música latina.
Matuto S.A., nome artístico de Vinícius Comparini Arcolino, concorre ao Grammy Latino 2026 na categoria Melhor Álbum de Música Urbana em Língua Portuguesa, com “Terra Vermelha: Do interior pro interior”.
A cerimônia será realizada no dia 12 de novembro, em Las Vegas, nos Estados Unidos. No Brasil, os canais responsáveis pela transmissão da edição de 2026 ainda não foram oficialmente anunciados.
O francano disputa a categoria com AJULLIACOSTA, pelo álbum “Novo Testamento”; Budah, com “FREQUÊNCIA LUNAR”; Don L, com “CARO Vapor II – qual a forma de pagamento?”; e Emicida, com “Emicida Racional VL 2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores”.
A indicação coloca em evidência um trabalho que nasceu justamente da busca de Matuto por suas próprias raízes e da tentativa de responder a uma pergunta: o que acontece quando o rap encontra a viola caipira?
Da terra vermelha de Franca para a música
Nascido em Franca em 17 de março de 1991, Vinícius Comparini é MC, trompetista, produtor musical e educador social. Depois de experiências em bandas e projetos coletivos, passou a desenvolver sua carreira solo a partir de 2019.
Foi nesse processo que aprofundou a pesquisa sobre a música caipira e as possibilidades sonoras da viola, aproximando-as de influências que já carregava do hip-hop, reggae, funk e jazz.
Dessa mistura nasceu o conceito que o próprio artista chama de Regional Beat.
A proposta vai além de simplesmente acrescentar a viola caipira a uma batida de rap. O trabalho procura pontos de encontro entre as culturas urbana e rural, especialmente na oralidade, na rima, na narrativa e na utilização da música para contar histórias e registrar experiências.
Um desses encontros está no cururu, manifestação tradicional da cultura caipira marcada pelo improviso de versos acompanhados pela viola.
Na pesquisa de Matuto, essa tradição estabelece um paralelo com as batalhas de rima do hip-hop, nas quais a palavra e o improviso também ocupam o centro da expressão artística.
“Terra Vermelha”
Lançado em março deste ano, “Terra Vermelha: Do interior pro interior” sintetiza essa pesquisa.
A viola caipira ocupa posição central no álbum e divide espaço com bases de rap e influências de reggae e jazz. O interior não aparece apenas como cenário: é parte da identidade da obra.
O projeto busca apresentar a cultura caipira não somente como memória de um passado rural, mas como uma linguagem capaz de dialogar com elementos contemporâneos da música, da estética e do comportamento.
A proposta também chamou a atenção da Billboard Brasil, que apresentou Matuto como “rapper caipira” ao abordar sua indicação ao Grammy Latino e destacou o Regional Beat desenvolvido pelo artista.
Pesquisa virou documentário e exposição
O universo criado pelo francano ultrapassou os limites do álbum.
Em 2025, Matuto lançou o documentário “Regional Beat: Uma Antena Parabólica Fincada na Terra Vermelha”, dirigido pelo próprio artista.
A produção investiga as relações entre cultura caipira e hip-hop e reúne 18 entrevistados, entre músicos, artistas e pesquisadores. Participaram nomes como Criolo, DJ KL Jay, Gaspar Z’África Brasil, Carlos de Assumpção e o violeiro e pesquisador Ivan Vilela.
A pesquisa também ganhou espaço físico em Franca.
Em abril de 2026, a Casa da Cultura e do Artista Francano “Abdias do Nascimento” recebeu a exposição “Terra Vermelha – Do Interior para o Interior”, dedicada ao diálogo entre o hip-hop, a cultura caipira e a construção do Regional Beat.
No mesmo mês, o trabalho de Matuto foi reconhecido pela Câmara Municipal de Franca com uma Moção de Aplausos pelo lançamento do álbum.
Em julho, o projeto voltou a ser apresentado na própria cidade, desta vez no Sesc Franca, acompanhado de uma conversa sobre o processo de criação da obra.
Franca volta a ter um músico entre indicados ao Grammy
A indicação de Matuto S.A. também remete a outro músico nascido em Franca que chegou ao Grammy.
O guitarrista, compositor e arranjador Diego Figueiredo foi indicado ao Grammy Awards de 2020 na categoria “Best Arrangement, Instruments and Vocals”.
Diego e a cantora francesa Cyrille Aimée concorreram pelo arranjo de “Marry Me a Little”. A premiação daquele ano foi realizada em Los Angeles.
Seis anos depois, um artista francano volta a aparecer entre os indicados de uma premiação da família Grammy, agora na edição latina.
As trajetórias são musicalmente diferentes. Diego construiu uma carreira internacional fortemente ligada ao jazz e à música instrumental. Matuto chega ao Grammy Latino pelo encontro entre rap, viola caipira e a identidade cultural do interior paulista.
Em comum, os dois carregam a origem francana para uma das principais vitrines internacionais da música.
Para Matuto S.A., a indicação transforma em reconhecimento internacional uma pesquisa que começou olhando justamente para dentro: para Franca, para a terra vermelha, para a viola e para as histórias do interior.
Agora, essas referências chegam a Las Vegas mostrando que a música produzida no interior também pode atravessar fronteiras sem abandonar suas raízes.








