Colcha de Retalhos

Na sala de visitas do Lar de Ofélia, no Jardim Planalto, com a temperatura lá em cima, perto de quarenta graus, quem mais transpirava eram corações enamorados traídos pela perda do amor de suas vidas, pelo amor não correspondido, pela decisão de ficar sozinho, solteirão ou solteirona, pelas fatalidades desse mundo, que deixaram marcas amorosas profundas.
Outro pretexto estupendo, para estarmos neste estabelecimento de pública e reconhecida admiração da sociedade e dos poderes constituídos, foi a comemoração dos aniversários de dois ou três internos, dentre os quais o da comadre Soeli, irmã da minha esposa Arlete, a Fia. Na verdade, a temos como irmã.
Bolos, salgadinhos, refrigerantes, bexigas coloridas, com mesa caprichosamente decorada, servidos à vontade.
Teve o ‘Parabéns a Você’. Yessssss!
A cereja do bolo estava em cima do que captamos no ar e trouxemos nas palavras alinhadas logo no primeiro parágrafo desse bilhete público, em meio aos sentimentos que emanavam de cada um dos presentes, convidados e dos dedicados funcionários da instituição de acolhimento e, portanto, prestadora de referencial no atendimento a uma centena de pessoas de idade igual ou superior a 60 anos.
Reencontramos músicos e cantores sertanejos dos bons, do nosso inesquecível período de apresentador de programas de rádio, os quais param o que estão fazendo para o bem fazer aos solitários e, alguns, esquecidos em clínicas de repouso e de tratamento das pessoas de idade, tocando e cantando canções de fortes apelos emocionais adormecidos em algum cantinho da alma que cultiva paixões recolhidas.
Vanelli, professor no acordeão, com trabalhos e participações eternizados com duplas e trios em vários discos de vinil; os peitos sarados e gogós de aço de Ed Carlos e Maciel e do Elécio – ‘quê beleza!, plagiando Tonico e Tinoco – deram o recado. Atenderam pedidos. O Sr. Luís quis recordar ‘Decida’, trem descarrilado, seu moço, de Milionário e José Rico! Mais saudosista, o Pagnan, orgulhoso de sua ascendência italiana, e que é parente de nosso ex e competentíssimo operador de som Valdeci, foi contra a correnteza. Pediu ‘Chalana’.
Filmar toda a festividade mensal do Lar de Ofélia, da tarde desta terça, 19, demoraria muito.
Radicalizamos nos nacos de emoções que perdemos com quem estivemos ou almejaríamos ter estado e dos que estes esqueceram para trás, para serem recolhidos por nós.
Juntando pedaços com pedaços, costurados com as linhas dos pensamentos, melhor pareceu tingi-los com pigmentos de saudade.
Deu em Colcha de Retalhos, a guarânia da autoria de por Raul Torres, que acabou por se tornar o maior sucesso do Duo Ciriema, formado por sobrinhas francanas da nossa inesquecível amiga Regina Moraes, esposa do também finado Waldemar Moraes, que dá nome a uma das ruas que confrontam com os Predinhos do City Petrópolis, e mamãe do grande amigo e ex-servidor da Junta de Serviço Militar, o Waldemarzinho, Júnior.
Como chegou até aqui, não faça feio à sua curiosidade.
Ouça, sem moderação, o clássico do inimitável casal dos encantadores Cascatinha e Inhana. Um pedacinho do que tem para agora:
“Eu sei que hoje não te lembra dos dias amargos
Que junto de mim fizeste um lindo trabalho
E nessa tua vida alegre tens o que queres
Eu sei que esqueceste agora a colcha de retalhos
Agora na vida rica que estás vivendo
Terás como agasalho colcha de cetim
Mas quando chegar o frio no teu corpo enfermo
Tu hás de lembrar da colcha e também de mim”







