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‘Te olham com nojo’, conta mãe ex-usuária de drogas durante a gravidez

DEPOIS DE SER EXPULSA DE CASA e perder a guarda do primeiro filho, Helen Baum passou a viver em situação de rua em São Paulo e mergulhou na dependência química. Para sobreviver, passou a trabalhar com materiais recicláveis. O uso de cocaína deu lugar ao crack e sua vida era atravessada por diferentes formas de violência — de abordagens policiais a agressões físicas cometidas por outros moradores de rua. Nesse contexto de extrema vulnerabilidade, ela engravidou. 

“Teve um dia que eu passei muito mal e fui até a UPA [Unidade de Pronto Atendimento]. Só que não me deixaram nem entrar. Não me atenderam, porque eles têm esse preconceito com pessoas em situação de rua”, lembra quando estava grávida em 2013.

Sozinha, Helen não fez o pré-natal. Segundo ela, a discriminação e o fato de o pai da criança estar preso por furto faziam com que ela alternasse entre tentativas de interromper o uso de drogas e momentos em que o intensificava para “fugir” da realidade. Ao chegar no oitavo mês de gestação, pesando 45 quilos, sentiu fortes contrações no meio da rua, na região do Glicério, no centro de São Paulo.

“O pessoal da rua tentou pedir ajuda, mas ninguém parou para me socorrer”, conta. “Chamaram a polícia, passou uma viatura e eles ficaram me olhando, não me socorreram, mesmo eu me contorcendo de dor, e chamaram o Samu [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência]. Nesse meio tempo, meu bebê nasceu morto no meio das minhas pernas. Eu chorava muito. Quando o Samu chegou, me levaram com meu filho. Eu lembro de no hospital o médico estar me costurando e me chamando de vagabunda, de porca imunda. Foi muita violência. Os policiais poderiam ter me levado na viatura, mas ninguém queria encostar em mim porque eu era uma mulher em situação de rua”.

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À Repórter Brasil, a Polícia Militar de São Paulo afirmou que seus profissionais são “capacitados para atuar em diferentes situações, inclusive no auxílio a gestantes e parturientes” e que em casos de emergência médica, a orientação da corporação é acionar o Samu. A corporação disse também que não encontrou registro sobre a situação relatada por Helen.

Maioria se recupera sem sequela

Entre 2016 e 27 de julho deste ano, o Brasil contabilizou 311 gestantes expostas a drogas com uso abusivo, 1445 casos de intoxicações confirmadas e 16 registros de síndrome de abstinência, de acordo com o Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), do Ministério da Saúde. Os dados incluem álcool e outros tipos de drogas.

Já em relação a recém-nascidos, no mesmo período, foram notificados 326 casos de crianças de menos de um ano expostas a drogas de uso abusivo, 1.426 intoxicações confirmadas e 59 vítimas de síndrome de abstinência. 

Entre grávidas e recém-nascidos a maioria dos casos evolui sem sequelas. Os casos de mortes são a minoria. Nos últimos dez anos, foram registrados 17 óbitos por intoxicação, enquanto 1.066 gestantes foram curadas. No mesmo período, 19 bebês morreram por intoxicação e 1.025 se recuperaram. 

Para a obstetra Vera Therezinha Medeiros Borges, existe um mito que os bebês vão ter malformações. Ela coordena desde 2012 um ambulatório especializado em mães usuárias de substâncias psicoativas no HCFMB-Unesp (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista).

“Uma criança que a mãe usou crack a gravidez inteira, por exemplo, pode nascer, aparentemente, normal. Mas vai ser uma criança que vai ter um déficit de aprendizado, vai demorar, às vezes, mais para andar, para falar, vai ser mais irritada. É do ponto de vista psíquico e neurológico o comprometimento. São crianças que podem nascer prematuras, com baixo peso”, explica Borges.

A obstetra aponta que a maneira que o tratamento é dado a elas pode fazer diferença também na vida dessas crianças. “Com um estudo a gente conseguiu demonstrar que as mães que seguiram o tratamento adequado, ficaram sem usar droga, tiveram desfecho muito parecido com gestante que não usa droga”, afirma. 

Segundo ela, é necessária a capacitação das equipes para um atendimento humanizado e multidisciplinar. 

Hoje, Helen, aos 54 anos, é mestranda em Ciências Sociais na UFABC (Universidade Federal do ABC) e ativista. Ela afirma que compreende que sua vida foi marcada pela violência de gênero e estuda maternidades subjugadas no cárcere — ambiente que conhece também por experiência própria: esteve presa por cinco anos acusada de tráfico de drogas. 

“Não é só o uso problemático das drogas, não é só a gravidez, é todo um contexto. É a sociedade, são as instituições que são extremamente violentas. Essas mulheres têm um problema de saúde e elas precisam de acolhimento, porque a situação de rua potencializa esse sofrimento. Você se vê sem saída”, afirma Helen.

Idealização da maternidade

Autora de uma dissertação sobre mães marginalizadas, a psicóloga Patrícia Beretta, do Coletivo Casa Aberta, tem atendido e escutado mulheres em situação de rua e que fazem uso abusivo de drogas na região da Luz, em São Paulo. Durante mais de 30 anos, a região concentrou o fluxo da “Cracolândia” no centro da capital paulista. Apesar de as mulheres serem minoria entre a população de rua, ela aponta que elas sofrem duas vezes mais violência – e que também têm dificuldade de reconhecer algumas situações como violência.

Para Beretta, existe uma idealização da maternidade que joga a responsabilidade única e exclusivamente em cima das mulheres. “A gestação pode ser uma oportunidade de mudança de vida para essas mulheres, mas não é tão simples assim, porque você precisa de toda uma rede que consiga sustentar essa maternidade junto com essa mulher. A gente precisa não só que essas mulheres acessem os seus direitos, mas que a rede garanta que essas mulheres vão ser cuidadas, escutadas e ser acolhidas”, explica.

“A gente tem gestações que não foram planejadas, mas não quer dizer que não foram desejadas. E também muitas gestações que são fruto de violência sexual, porque a gente está falando de um território em que não é só a vulnerabilidade financeira que está em jogo, mas tem uma vulnerabilidade do corpo feminino na situação de rua que está presente. Mulheres tem relações com companheiros agressivos, porque [ele] protege de todos os outros, da ameaça de todos os outros, mesmo que ele seja violento”, complementa Beretta.

Os riscos de perder a guarda dos filhos

A Repórter Brasil tentou conversar com mulheres que se tornaram mães quando usavam drogas, mas nenhuma delas quis dar entrevista, mesmo sob condição de anonimato. O principal motivo relatado foi o medo de sofrer algum tipo de retaliação, em especial perder a guarda dos filhos no caso daqueles que ainda são recém-nascidos ou menores de idade. 

Esse medo, aponta Beretta, tem fundamento e é atravessado por questões de classe e de raça. “Uma mulher em situação de rua, quando chega no hospital para dar a luz. É constantemente perguntada onde ela mora, o comprovante de residência, se ela faz uso de droga, se ela tem histórico de uso, se tem histórico de trajetória de rua. É bombardeada de informações que uma mulher num hospital particular, por exemplo, não é”, explica. “Então, do momento em que elas se descobrem grávidas, já são julgadas e questionadas sobre a sua capacidade de exercer essa maternidade.”

Mulher negra, a facilitadora social Michelle Marques, 43, afirmou que passou por isso ao menos quatro vezes, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Ela começou a usar loló, uma versão caseira do lança-perfume, ainda na adolescência. Sua infância foi marcada por abusos sexuais cometidos pelo pai e pela responsabilidade, assumida ainda criança, de cuidar dos irmãos menores enquanto a mãe trabalhava. Mais tarde conta ter sofrido tentativa de feminicídio por um dos ex-companheiros e vivido nas ruas da cidade, onde também passou a consumir crack. Ela também afirma que nessa época desconhecia métodos para prevenção. 

O primeiro filho ficou aos cuidados da avó. Na época, Michelle tinha 15 anos. Já o segundo, que nasceu prematuro e com baixo peso, permaneceu alguns dias na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) por causa de uma infecção urinária. Ela conta que, naquela época, aos 20 anos, trabalhava vendendo o jornal Boca de Rua, feito pela população vulnerável, e fazia outros bicos. O dinheiro usava para comprar fralda, leite e outros itens básicos para a criança, além de manter o vício. 

“Eu deixava ele com uma vizinha que todo o dia falava para eu dar meu filho para ela e eu disse que não ia dar. Como ela viu que eu não ia dar meu filho para ela, ela me denunciou ao Conselho Tutelar, disse que não deixava nada pra ele, o que era mentira”, conta. “Eu não usava droga em casa, nem na frente do meu filho”.

Segundo Michelle, a criança ficou num abrigo municipal, e ela o visitasa até quando ele completou um ano de idade. “[Eles] me deram três meses para parar com a droga, arrumar um emprego formal e uma casa para poderem entregar meu filho. Eu levava um papel comprovando que eu frequentava o NA [Narcóticos Anônimos], mas era muito difícil. Eu usava o loló desde os 13 anos, e comecei com o crack aos 16, tentava parar e tinha recaída, mas nunca me perguntaram nada, como eu estava. Em uma das vezes que eu fui entregar o papel do NA no fórum, vi alguma coisa escrita de adoção procedente ou improcedente. Perguntei para uma moça e ela disse que meu filho estava disponível para adoção. Eu pensei ‘nunca mais vou ver meu filho’, desisti, fiquei muito triste porque eu não ia conseguir alcançar os três objetivos em três meses e aquilo aumentou a minha dependência química”, afirma. O NA é um programa da sociedade civil que apoia pessoas que desejam parar de usar drogas.

De acordo com o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), uma criança pode ser colocada para adoção se nenhum familiar procurá-la no prazo de 30 dias, a partir da data do acolhimento. Essa possibilidade também pode ser avaliada durante um processo judicial. 

Nas três gestações seguintes, Michelle afirma que já era questionada nos hospitais quem ficaria com as crianças. “No hospital falavam ‘como tem todo o histórico de droga, você não vai poder tirar teu filho do hospital, você precisa arrumar alguém para ficar’, e eu tive que ir atrás das avós paternas. Era muita discriminação, te olham com cara de nojo”, diz. 

Uma assistente social que trabalha no acolhimento de recém-nascidos na rede pública de uma cidade do sul do país, e que pediu para não ser identificada, concorda. “Quando um bebê vai para um abrigo, é sinal de que o Estado falhou na política pública anterior”, diz. Ela afirma que as decisões judiciais que chegam ao serviço costumam estar “regadas de discriminação”. Tanto a transferência para um abrigo quanto eventual perda da guarda passam pelo Poder Judiciário. 

“Existe sempre um argumento de negligência e, do tempo que eu trabalho aqui, nunca vi um homem, um pai, indo atrás das crianças para visitar, são sempre as mães, as avós, as mulheres da família”, diz. Para ela, o judiciário também precisa ser mais acolhedor.

Beretta ressalta que a questão da negligência é subjetiva. “A definição de negligência passa por questões muito pessoais e valores morais. O que é negligência para mim não vai ser negligência para você e nem para o Estado porque no ECA diz que o uso de droga por si só não é motivo suficiente para a retirada das crianças. Então, você não pode colocar que a retirada de guarda é só pelo uso, você tem que justificar algo a mais”, explica.

Isso significa, segundo ela, que é necessário demonstrar que a dependência química gerou algum tipo de violação aos direitos da criança, e não simplesmente apontar o uso de drogas pela mãe. 

Dados do SAICA (Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes) da Prefeitura de São Paulo registram que 2.185 crianças, adolescentes e jovens de 0 até 19 anos estavam em centros de acolhimento, até 6 de setembro deste ano. 

Os motivos registrados são: negligência ou maus-tratos (510), em situação de rua (296), alcoolismo e/ou drogadição de pais ou responsáveis (253), conflitos familiares (201) e em situação de abandono (200). Os órgãos que mais direcionam o acolhimento são, em ordem, CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), Conselho Tutelar e Vara de Infância e Juventude, já que o acolhimento pode ser emergencial ou via judicial.

Já em Porto Alegre, onde Michelle vive, foram contabilizados 798 acolhimentos de crianças e adolescentes em 2025, segundo a Secretaria Municipal de Assistência Social. A maioria (499) é por demandas judiciais, nas quais, entre as motivações, lideram negligência e abandono (115), violência intrafamiliar (70) e uso de substância psicoativas por genitores, incluindo casos de mães usuárias de recém-nascidos (97).

Michelle, que há um ano trabalha junto à assistência social no atendimento à população de rua, alerta que a abordagem qualificada faz diferença, uma vez que a construção de vínculo e de apoio são muito importantes para que essas pessoas consigam se reestabelecer. “Aquela pessoa precisa entender que ela existe para a gente, que ela é importante para alguém, nem que seja para abordagem social”, aponta.

Há oito anos, após idas e vindas, e ter recuperado o apoio da mãe, ela tem conseguido se manter longe do loló e do crack. Ela retomou o contato com parte dos filhos, como o mais velho que já é pai, e os mais novos, que ainda estão em idade escolar. Helen diz que hoje ela e o primeiro filho que são inseparáveis.

As duas mães escreveram livros, lançados no ano passado, sobre suas histórias de vida a fim de conscientizar sobre o uso abusivo de drogas, mas também para influenciar para que políticas públicas sejam executadas de forma humanizada para ajudar mulheres em situação de rua.

À Repórter Brasil, a Secretaria Municipal de Assistência Social de São Paulo disse que “atende gestantes e puérperas em situação de vulnerabilidade, incluindo aquelas com uso prejudicial de álcool e outras drogas, de forma contínua pela RAPS (Rede de Atenção Psicossocial), em articulação com a Atenção Primária à Saúde, maternidades e demais serviços da rede municipal. O cuidado é desenvolvido de forma individualizada, por equipes multiprofissionais.”

Segundo o órgão, as ações contemplam “o acompanhamento do pré-natal, do puerpério e do recém-nascido, visando à proteção da saúde materno-infantil. A rede conta com Caps (Centros de Atenção Psicossocial), equipes de Consultório na Rua, UBSs (Unidades Básicas de Saúde) e maternidades”, que “atuam de forma integrada para garantir o acesso ao cuidado e fortalecer o vínculo das pacientes com os serviços de saúde”.

A Secretaria de Assistência Social de Porto Alegre não respondeu até a publicação desta reportagem.

Esta reportagem faz parte do levantamento “A outra cara do narcotráfico: bebês da droga na América Latina”, um trabalho conjunto dos veículos Ruido (Argentina), Repórter Brasil, Plaza Pública (Guatemala), Contratopedia Caribe (Colômbia), Tierra de Nadie (Equador) e POPlab (México), com apoio do Chequeado (Argentina), unidos em um consórcio que busca jogar luz a dados e histórias invisibilizadas nesses países.

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Notícias de Franca

É jornalista e editor da Folha de Franca

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