Michelle Bolsonaro e outros 14 receberam doação de pessoas com passagem pela Lista Suja da escravidão
EMPREGADORES responsabilizados por submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão destinaram ao menos R$ 837,4 mil a candidaturas que disputam as eleições deste ano.
Um cruzamento feito pela Repórter Brasil entre prestações de contas entregues à Justiça Eleitoral até 16 de setembro e mais de duas décadas de informações da Lista Suja, cadastro do governo federal com dados de pessoas físicas autuadas por trabalho escravo, encontrou 13 nomes formalmente incluídos na relação que doaram a 15 candidatos de nove partidos.
O dinheiro passa por diferentes campos políticos e cargos eleitorais. Chega a candidatos a presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual. Entre os destinatários estão Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, ambas do PL e postulantes ao Senado pelo Distrito Federal.
Também aparecem Mateus Simões (PSD), governador de Minas Gerais que tenta a reeleição, e o ex-governador de Mato Grosso Mauro Mendes (União Brasil), que disputa o Senado.
A Lista Suja é publicada pelo MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) e torna públicos os nomes de empregadores responsabilizados administrativamente por submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão.
A presença no cadastro não torna, por si só, ilegal uma doação eleitoral. Os dados referem-se a uma prestação de contas do TSE gerada em 16 de setembro.
A Repórter Brasil buscou contato com todos os candidatos e doadores citados nesta matéria.
Irmão financia deputado após entrar na Lista Suja

A maior doação foi feita no Pará e veio de um nome atualmente incluído na Lista Suja. Rafael Bemerguy Sefer transferiu R$ 380 mil, em 14 de setembro, para a campanha de reeleição do irmão, o deputado estadual paraense Gustavo Sefer (PSD).
Rafael entrou na Lista Suja em 6 de abril deste ano, depois de uma fiscalização realizada em 2025 na Fazenda Santa Maria, na Vicinal do Jabá, zona rural de Altamira. Seu irmão Gustavo está no terceiro mandato como deputado estadual e ocupa a 2ª vice-presidência da Assembleia Legislativa do Pará. Antes de chegar à Alepa, foi vereador de Belém.
A fiscalização começou em agosto de 2025 e resgatou 17 trabalhadores que roçavam mato, abriam aceiros e aplicavam agrotóxicos. Segundo os auditores fiscais, nove deles dormiam em um barracão coberto por lona, sem paredes e com piso de terra batida.
Um trabalhador estava alojado em um galinheiro desativado, dois dormiam em um barraco de madeira ao lado de um gerador, quatro dividiam uma edificação precária onde ficava a única instalação sanitária e outro pernoitava em uma casa usada para armazenar sal. Havia apenas um vaso sanitário e um chuveiro para todo o grupo, sem separação por sexo.
Ainda de acordo com a fiscalização, não havia água potável nas frentes de trabalho. Os empregados enchiam garrafões em uma torneira ligada a um cacimbão e, quando a água acabava, bebiam de córregos.
O gerente e outros prepostos disseram à equipe de fiscalização que havia no estabelecimento um projeto em andamento para a venda de créditos de carbono. A fazenda fica na Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, no limite com a Estação Ecológica da Terra do Meio.
A Repórter Brasil procurou o gabinete de Gustavo na Alepa e pediu o posicionamento do deputado e do irmão, mas não recebeu respostas até o fechamento da matéria.
Simão Sarkis financia Michelle Bolsonaro e Bia Kicis

A segunda maior doação foi para as duas candidatas do PL ao Senado pelo Distrito Federal.
O empresário Simão Sarkis doou R$ 100 mil para Bia Kicis (PL-DF) em 1º de setembro e outros R$ 100 mil para Michelle Bolsonaro (PL-DF), dois dias depois.
É a primeira disputa eleitoral de Michelle, ex-primeira-dama do país. Bia, por sua vez, está no segundo mandato como deputada federal e desde março é líder da Minoria no Congresso Nacional.
A passagem de Simão Sarkis pela Lista Suja remonta a junho de 2013. Seu nome foi incluído após fiscalização na Fazenda Santo Aurélio, em Paracatu, no noroeste de Minas Gerais.
A operação resgatou dez funcionários da fazenda de gado. Segundo a fiscalização, trabalhadores dormiam sobre pedaços de espuma, sem estrutura adequada de higiene.
Os trabalhadores disseram aos fiscais que tomavam banho em uma barragem também utilizada pelo gado, e usavam para beber e cozinhar água retirada de uma cisterna sem proteção adequada.
O caso chegou à Justiça do Trabalho. Em segunda instância, o TRT de Minas manteve indenização de R$ 390 mil por dano moral coletivo e elevou de R$ 30 mil para R$ 40 mil a indenização individual devida aos trabalhadores.
Procuradas, as assessorias do PL e de Michelle não responderam ao pedido de posicionamento enviado pela reportagem. O gabinete de Bia Kicks na Câmara também foi questionado e não se manifestou.
O empresário Simão Sarkis não retornou aos pedidos de posicionamento enviados pela Repórter Brasil.

Fiscais do Trabalho resgataram 25 em carvoaria de doador da campanha de Mateus Simões
Em Minas Gerais, Antônio Ademilson Rabelo dos Santos doou R$ 50 mil ao governador Mateus Simões (PSD-MG).
Candidato à reeleição, Simões assumiu o governo mineiro em março, depois da saída de Romeu Zema (Novo), que busca o Planalto.
Santos entrou na Lista Suja em 2019, após uma fiscalização do Ministério do Trabalho alcançar 25 pessoas em uma carvoaria. De acordo com os auditores fiscais, eles viviam em barracos de madeira, lona e materiais reaproveitados, próximos aos fornos.
Ainda segundo as autoridades, não havia água potável fornecida pelo empregador, instalações sanitárias ou local adequado para refeições. Parte dos alojamentos não tinha camas: os trabalhadores improvisavam redes ou estruturas para dormir.
Procurada, a assessoria de imprensa da campanha do governador não se manifestou. A reportagem também enviou o pedido de posicionamento para o advogado de Antônio Ademilson Rabelo dos Santos, mas não obteve retorno até o fechamento.

Empresário que esteve na Lista Suja doa a Mauro Mendes
Em Mato Grosso, Luiz Viero Trevisan fez uma doação de R$ 10 mil à campanha do ex-governador Mauro Mendes (União-MT) ao Senado, em 31 de agosto.
Trevisan apareceu em uma das primeiras edições da Lista Suja, em dezembro de 2004, associado à Fazenda São Pedro, em Santa Rita do Trivelato. O registro histórico liga 73 trabalhadores à fiscalização.
Os fiscais encontraram alojamentos sem banheiro e com estrutura precária. Trabalhadores dormiam em espaços superlotados e improvisavam colchões com materiais disponíveis no local.
A água utilizada pelos trabalhadores era captada de um rio. Há registros da retirada de uma carcaça de búfalo do mesmo local utilizado para consumo, banho e lavagem de roupas.
Os fiscais também descreveram um sistema de endividamento comandado pelo chamado “gato” — intermediário responsável por recrutar e administrar a mão de obra. Ele teria cobrado pelo transporte, pela comida e dificultado a saída dos trabalhadores antes do acerto das contas.
A assessoria da campanha de Mendes não retornou ao pedido de posicionamento, assim como um advogado e a empresa de Trevisan, que foram procurados pela Repórter Brasil.

Pai de deputado repassa R$ 130 mil à campanha do filho
No Maranhão, José Carlos Nobre Monteiro, o Carlinhos Florêncio, destinou R$ 130 mil à campanha de reeleição do filho, o deputado estadual Florêncio Neto (MDB-MA). Foram três transferências: R$ 50 mil em 21 de agosto, R$ 70 mil em 27 de agosto e R$ 10 mil em 11 de setembro.
Carlinhos Florêncio entrou na Lista Suja em abril de 2018, foi retirado posteriormente e reapareceu no cadastro em maio de 2021. O episódio teve origem numa fiscalização realizada em 2016 na Fazenda Tremendal, no município de Parnarama (MA).
Nove trabalhadores foram identificados em condição análoga à escravidão. Dois adolescentes também estavam na propriedade. A equipe de fiscalização encontrou alojamentos sem condições adequadas de privacidade, comida preparada em fogareiros e falta de estrutura sanitária.
O deputado e o pai não responderam ao pedido de posicionamento enviado pela Repórter Brasil para o gabinete de Florêncio Neto.

Fiscalização encontrou trabalhadores sob pulverização de agrotóxicos
Uma doação de R$ 50 mil foi feita por Valdir Daroit ao ex-deputado estadual Mauro Savi (Podemos-MT).
A relação entre os dois antecede a eleição: Daroit é irmão da ex-mulher de Savi e ambos já foram apresentados como responsáveis pela Nelore Curió, criatório de gado promovido pelos dois em leilões.
O nome de Daroit foi incluído na Lista Suja em dezembro de 2004. Uma fiscalização do Ministério do Trabalho na Fazenda Poranga, em Sorriso (MT), alcançou 54 empregados e retirou 49 da fazenda. Eles receberam R$ 55,6 mil em verbas rescisórias, e os fiscais lavraram 17 autos de infração.
Auditores fiscais presenciaram um avião agrícola pulverizando agrotóxicos sobre a lavoura de algodão enquanto 49 homens trabalhavam na capina. O próprio piloto disse aos fiscais que sabia da presença das pessoas no terreno. A aplicação foi interditada.
A fiscalização constatou ainda retenção de salários, falta de água potável e condições insalubres de alojamentos instalados junto a máquinas e produtos químicos.
Segundo os auditores, os trabalhadores dependiam da conclusão da capina para receber o pagamento. Por essa razão, tinham limitada a possibilidade de deixar a propriedade.
A água usada para beber vinha de um poço sem proteção; um córrego era utilizado para banho, lavagem de utensílios, pesca e necessidades fisiológicas.
A Repórter Brasil enviou os questionamentos para o diretório do Podemos no Mato Grosso e para o contato de uma das empresas de Daroit, mas não teve retorno até a publicação.
Vaquinha virtual
Em Mato Grosso do Sul, Alberto Junior Pellin, incluído na Lista Suja após fiscalização na Fazenda Sucuri II, em Caracol (MS), doou R$ 50 à campanha de Ton Borges (Novo), candidato a deputado estadual.
Segundo Guto Scarpanti, presidente do Novo no estado, Borges recebeu 218 doações por uma vaquinha virtual, que somaram R$ 6 mil. Scarpanti afirmou que nem o partido nem o candidato têm responsabilidade pelos atos dos doadores.
A fiscalização alcançou cinco trabalhadores estrangeiros que construíam e reformavam cercas. Segundo os auditores, eles viviam em barracos improvisados com troncos, galhos e lonas, sem instalações sanitárias adequadas nem água potável em condições higiênicas.
Pellin afirmou à Repórter Brasil que era empreiteiro e atribuiu ao proprietário da fazenda a responsabilidade por alojamento e refeitório. Disse que tenta reverter sua inclusão na Lista Suja e que doou os R$ 50 porque Borges é seu amigo de longa data. “Não tem nada a ver com esse trabalho escravo”, afirmou. Pellin disse ainda que pretende fazer outra doação ao candidato.
Na Bahia, Leão José Albuquerque Ferreira, incluído na Lista Suja em 2012, doou R$ 5 mil à campanha de Rowenna Brito (PT), candidata a deputada estadual. A inclusão de Leão no cadastro teve origem em uma fiscalização realizada em 2011 na Fazenda Pica-Pau, em Rondônia.
Um vaqueiro foi resgatado. Segundo os auditores, ele dormia em um cômodo de madeira ao lado do estábulo e a menos de três metros de um depósito de agrotóxicos. Não havia instalações sanitárias para o trabalhador, que fazia suas necessidades na vegetação e tomava banho diretamente em um córrego.
A Repórter Brasil procurou Rowenna Brito para que se manifestasse sobre a doação e também buscou Leão para ouvi-lo sobre a fiscalização e sua contribuição à campanha. Nenhum dos dois respondeu até o fechamento da reportagem.
(Colaboraram Bruna Borges, Carlos Juliano Barros e Diego Junqueira)
25 anos investigando para mudar.
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Em 2026, fazemos 25 anos — e vem muito mais por aí!
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