Economia

Famílias aumentam endividamento, mas conseguem estabilizar a inadimplência

De acordo com relatório Peic, divulgado pela CNC, endividamento continuou tendência de crescimento em maio, no entanto com a inadimplência sob controle, sinalizando maior consciência das famílias no uso do crédito

O percentual de famílias que relataram ter dívidas a vencer (cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e casa) foi de 78,8% em maio de 2024, acima do resultado de abril e o terceiro aumento consecutivo, estando também acima do nível de maio de 2023 (78,3%). Esse resultado revela que as famílias continuam aumentando sua demanda por crédito, aproveitando o menor custo com juros.

Esse padrão é corroborado pelo aumento da oferta de crédito. O saldo das operações de crédito para pessoas físicas aumentou 0,8% em abril de 2024, de acordo com o Banco Central, enquanto o crescimento acumulado em 12 meses acelerou de 8,6% em março para 8,9% em abril.

Além de estarem mais endividadas, houve continuação do aumento do percentual de pessoas que se consideram “muito endividadas”, 17,8%, o maior percentual desde outubro do ano passado.

No entanto, esse maior volume de dívidas não aumentou a inadimplência, dado que o percentual de famílias com dívidas em atraso manteve-se em 28,6% pelo segundo mês, abaixo do percentual de maio de 2023. Já no percentual de famílias que não terão condições de pagar dívidas, houve ligeira redução da inadimplência, com diferença de apenas 0,1 ponto percentual, e, nesse caso, supera o indicador do mesmo mês do ano passado. Apesar dessa melhora para arcar com os custos das dívidas, 20,8% dos consumidores chegaram em maio com mais da metade dos rendimentos comprometidos com dívidas, um aumento de 1 ponto percentual na comparação com o mesmo mês do ano passado.

Para conseguir ter melhor controle financeiro, as famílias contam com prazos longos para pagamento das suas contas. Tanto que o percentual de famílias comprometidas com dívidas por mais de um ano permaneceu em 32,4%. Além disso, o percentual de famílias com dívidas em atraso por mais de 90 dias teve uma ligeira queda de 0,1 p.p. em relação ao mês anterior, chegando a 47,3% do total de endividados em maio deste ano.

Por outro lado, houve aumento da proporção com atrasos entre 30 e 90 dias para 29,2%. Dessa forma, o tempo médio de atraso está sendo reduzido e foi de 64 dias em maio. Essa maior condição de pagamento está sendo influenciada pelo avanço no mercado de trabalho, que foi percebido pelos consumidores na Intenção de Consumo das Famílias (ICF) da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e deve continuar, segundo o Índice de Confiança do Empresário do Comércio (Icec), da mesma entidade, revelando maior parcela da população assalariada e, assim, com mais condições de arcar com seus pagamentos.

“As famílias continuaram se endividando, apresentando em maio maior fôlego para arcar com suas dívidas.”

Projeções da CNC mostram que o aumento do endividamento deve continuar, com o percentual de famílias com dívidas em atraso mantendo o nível por mais alguns meses e aumentando mais próximo do fim do ano.

CLASSE DE MENOR RENDA AUMENTA O ENDIVIDAMENTO, MESMO COM MAIOR INADIMPLÊNCIA

Ao analisar os dados desagregados por renda, pode-se perceber que a maior parte da população aumentou o seu endividamento, tanto em relação ao mês anterior quanto a 2023. A classe mais alta (acima de 10 SM) foi a única com redução de suas contas. Já que esses consumidores possuem mais recursos, não são tão vulneráveis às variações do crédito. Situação similar pode ser observada no percentual com dívidas em atraso. Essa classe de maior renda teve redução da inadimplência, com a população de baixa renda apresentando um percentual de 35,9%, maior do que no mês anterior e abril de 2023.

A queda do volume das famílias que não terão condições de pagar as dívidas em atraso ocorreu na maioria das faixas de renda, com o grupo de menor renda (abaixo de 3 SM) sendo a maior influência de aumento.

A faixa de baixa renda, por menos opções de recursos, apresenta maior necessidade de recorrer ao crédito, assim como a maior dificuldade de amortizar essas dívidas. Deve-se estar atento pelo fato de esse grupo ter aumentado seu endividamento em maio, mesmo tendo piora nos seus indicadores de inadimplência.

SELIC MENOR CONTINUA FAVORECENDO ENDIVIDAMENTO IMOBILIÁRIO

Nas modalidades de crédito, o cartão de crédito obteve a maior participação no volume de endividados no mês, sendo utilizado por 86,9% do total de devedores, contudo houve retração de 0,4 p.p. na comparação com o mesmo mês do ano passado e de 0,2 p.p. diante do mês anterior. Já carnês e cheque especial continuaram perdendo representatividade na carteira de crédito dos consumidores em relação ao ano passado (-0,5 p.p. e-0,1 p.p., respectivamente). Enquanto o financiamento imobiliário apresentou o maior crescimento anual (+1,6 p.p.), resultado do mercado de crédito com juros mais acessíveis. Esse foi o maior percentual de utilização (8,7%) desde fevereiro de 2022.

MULHERES AUMENTAM ENDIVIDAMENTO E INADIMPLÊNCIA

O aumento mensal, observado na proporção de consumidores endividados, ocorreu principalmente entre as mulheres, sendo 0,6 p.p. maior do que em abril e acréscimo de 0,3 p.p. na comparação com maio do ano passado. Já para o público masculino, houve estabilidade mensal e incremento anual de 0,8 p.p.

As mulheres também apresentaram aumento mensal das contas em atraso, enquanto houve redução entre os homens. No entanto, elas apresentaram melhora das condições de pagar as contas em atraso. Ou seja, as mulheres aumentaram as suas dívidas, mas precisam ter cuidado com o aumento concomitante da inadimplência.

SEGMENTAÇÃO POR ESTADO

Roraima foi o Estado que apresentou o maior nível de endividamento (89,9%) no mês. Em maio, 16 Unidades Federativas apresentaram percentual resultado nacional. acima do Em relação à inadimplência, o Rio Grande do Norte foi o Estado que teve maior nível de famílias com contas em atraso (53,8%). Enquanto o Amazonas revelou o maior nível de famílias sem condições de pagar as dívidas atrasadas (20,0%).

Sobre a pesquisa:

A Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) é apurada mensalmente pela CNC desde janeiro de 2010. Os dados são coletados em todas as capitais dos estados e no Distrito Federal, com aproximadamente 18 mil consumidores. São apurados importantes indicadores de endividamento e inadimplência, que possibilitam traçar um perfil do endividamento, acompanhar o nível de comprometimento do consumidor com dívidas e a percepção em relação a sua capacidade de pagamento. Com o aumento da importância do crédito na economia brasileira, sobretudo o crédito ao consumidor, o acompanhamento desses indicadores é fundamental para analisar a capacidade de consumo futura. Os principais indicadores da Peic são: ⦁ Percentual de famílias endividadas – consumidores que declaram ter dívidas na família nas principais modalidades; ⦁ Principais tipos de dívida – entre cartão de crédito, cheque especial, cheque pré-datado, crédito consignado, crédito pessoal, carnês, financiamento de carro, financiamento de casa e outras dívidas; ⦁ Nível de endividamento – entre muito, mais ou menos ou pouco endividados; ⦁ Tempo de comprometimento com dívidas – até três meses, de três a seis meses, de seis meses a um ano e maior que um ano; ⦁ Percentual de famílias com contas/dívidas em atraso – consumidores com contas ou dívidas atrasadas no mês; ⦁ Percentual que não terá condições de pagar dívidas – percentual dos que afirmam que não terão condições de pagar as contas e/ou dívidas em atraso no próximo mês e, portanto, permanecerão inadimplentes; ⦁ Tempo de atraso no pagamento – até 30 dias, de 30 a 90 dias e mais que 90 dias

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